Sara Norte é a entrevistada deste sábado, dia 2, do programa ‘Alta Definição’, da SIC, onde falou abertamente sobre a fase menos boa da sua vida.

Em conversa com o apresentador Daniel Oliveira, a atriz começou por lembrar o momento em que os pais, Vítor Norte e Carla Lupi, se separaram.

Nessa altura, a mãe foi-se a baixo e apanhou uma vez a mãe a consumir droga. “Percebi que o problema da minha mãe era mais grave do que aquilo que eu pensava. Fui fraca e saí de casa. Tinha 17, 18 anos. Não compreendia. A minha mãe sempre foi uma mulher muito forte e sempre resolveu as coisas dela. Raramente pedia ajuda. Vê-la ali a fazer aquilo e depois vê-la a afundar e a vender tudo o que tínhamos em casa...”, contou. “Vê-la a acabar morrer na miséria sem um euro para comer e sozinha. A minha mãe morreu na solidão, é uma coisa que mexe comigo porque ela era uma mulher realmente guerreira. Mas todos os guerreiros também têm as suas fraquezas”, acrescentou.

Mesmo sabendo que nunca mais vai estar com a progenitora, continua à espera de um dia poder vê-la. “É parvo porque eu sei que a minha mãe está morta, mas eu não pude despedir-me dela. Não lhe pude pedir desculpa”, lamenta.

Quando a mãe morreu, lembra, estava presa e optou por não ir ao funeral. “Não quis ir. Podia vir, mas vinha algemada, a comunicação social de certeza que ia lá estar toda e eu achei que a minha família merecia ter paz e a minha mãe também. E não ia mudar nada. Não estive com a minha mãe quando ela mais precisou. Ela já estava morta”.

Sara Norte contou que depois de sair da casa da mãe foi viver com uma amiga, até que fez as provas para a faculdade. Aí, o pai convidou-a para ir viver com ele. “Abracei a faculdade e depois abracei pessoas que não interessavam a ninguém. Acabei por experimentar várias drogas e depois também não soube ter um travão”.

A primeira vez que experimentou drogas e o consumo

A primeira vez que experimentou foi no Bairro Alto. “Normalmente digo que não mudava nada na minha vida, porque as coisas que passamos é porque temos que as passar, mas se eu tivesse mudado algumas coisa na minha vida, tinha sido essa noite no Bairro Alto. Tinha sido tudo diferente”, salientou.

Inicialmente começou por ser uma consumidora de fim de semana, até que passou a fazê-lo todos os dias.

Um comportamento que conseguia esconder de toda a família, pois “mantinha a sua vida normal”. “Menti muito, até que um dia o meu pai percebeu. Emagreci cerca de 15kg num mês e tinha um diário onde escrevia tudo. O meu pai foi ler o diário e foi assim que descobriu. Foi um grande drama. O meu pai na altura também não sabia o que fazer. Acabei por sair de casa do meu pai e voltei para a casa da minha mãe, que tinha saído exatamente pelo mesmo problema”, recordou.

Quando voltou para casa da mãe, a sua relação com a progenitora não foi fácil, com “muitas discussões, apontares de dedos”. Carla Lupi sabia do que se estava a passar, mas “nunca consumiu” com a filha.

Entretanto, Sara Norte apaixonou-se “por quem não devia” e mudou-se para a Reboleira, onde viveu “três anos de inferno, de muita violência”. “Acho que foi pior do que uma prisão porque era uma relação de dependência. Sentia-me sozinha, só o tinha a ele e ele pode fazer de mim aquilo que quis”, reforçou.

Nessa altura, os seus pais não sabiam onde estava a viver, ninguém sabia que estava a viver com esse tal rapaz, com quem partilhou um romance difícil. “O primeiro ano deve ter sido bom, mas depois a violência doméstica dominou a nossa relação”, contou, explicando que os ciúmes eram o motivo das agressões.

“Eu não tinha vontade própria, era uma marioneta nas mãos de outra pessoa. Eu não era a Sara, queria ir ali e tinha que perguntar, queria comprar algo e tinha que perguntar. Tinha que andar ali como uma ovelhinha atrás. E quando se perde o respeito uma vez, perdesse sempre. Não acredito que as pessoas batam uma vez, peçam desculpa e depois não voltem a fazer. Voltam sempre”, continuou.

Viveu numa “barraca” durante três anos. “Numa primeira altura penso que não tínhamos água potável, depois tivemos. Tomava banho num alguidar com água fria, porque mais tarde é que tivemos esquentador. Tinha ratos sempre a andar no teto. Vivia com as condições mínimas, mas sempre trabalhei e estudei. Continuava a estudar e trabalhava num call center para poder sobreviver, porque na altura a pessoa que vivia comigo não fazia nada da vida e tinha que sustentar os dois”, partilhou, revelando que roubou em supermercados para comer.

A dada altura decidiu fugir e acabar esta relação. “Quando saí, ele depois quis encontrar-se para falarmos e queria à força reatar. Disse que não, então ele deu-me uma tareia e deixou-me desmaiada no chão. Ninguém me foi ajudar”, disse, acrescentando que chegou a fazer queixas na polícia.

“Na altura, podia-se desistir porque não era um crime público, só há poucos anos é que passou a ser, e acabava por tirar a queixa por medo. Cheguei a ir ao hospital e [quando lá chegava] dizia a verdade, que me tinham batido”, lembrou.

Nunca quis incomodar a família e preferiu resolver sozinha os seus próprios problemas. Quando viveu nos bairros aprendeu que nesses lugares “é onde há as pessoas mais leais”. “Lembro-me que não havia uma única pessoa que fosse má para mim. Aliás, muitas vezes entraram dentro de casa para me defender. Sabiam quem eu era e acho estranho como é que eu vive três anos lá e nunca ninguém descobriu. Se calhar tinha sido bom, se calhar os meus pais tinham-me resgatado e teria sido tudo diferente, quem sabe”.

Depois de acabar essa relação, voltou a fazer os exames e entrou na universidade pública para continuar a estudar. Alugou uma casa com uma colega, mas começou a ser impossível pagar todas as contas, uma vez que passou a trabalhar em full time no call centre.

Durante a conversa com Daniel Oliveira, Sara Norte confessou que gastava 400 euros por dia em drogas no auge do consumo. “Eu não cheirava a cocaína, eu fumava cocaína, que é muito mais caro. É também muito mais viciante, porque é a nível físico. Normalmente a cocaína é uma droga social, as pessoas consomem para falar… e quando começas a consumir sozinho já não há limites. Começas a conseguir fazer tudo com aquilo e ai é que está o grande perigo. Só consegues fazer a tua vida normal com aquilo. É a primeira e única prioridade. Deixas de te preocupar com os outros, com a tua família. Deixas de gostar de ti. Não tomava banho dias e dias, não me olhava ao espelho, não me penteava, era um esqueleto, tinha olheiras, não tinha paciência para nada, não cuidava de mim, não lavava os dentes… deixas de ter gosto por ti”, relatou.

O momento em que começa a traficar

Depois para ganhar dinheiro acaba por entrar num ciclo “vicioso”. “Começo a traficar porque me dava lucro. Muitas vezes, quando ia, já tinha dívidas astronómicas. Quando chegava de Marrocos, tinha que as pagar e depois tinha que voltar a ir… sempre assim. Dava-me com uma pessoa que já fazia isso e essa pessoas sabia que estava aflita de dinheiro, veio falar comigo e falei com a pessoa que mandava numa noite e no dia a seguir já estava a fazer o passaporte urgente. Nessa mesma noite fui para Marrocos”, contou, referindo que “era cerca de mil euros por viagem”. “Mais tarde cheguei a conduzir o carro que levava as pessoas e ainda ganhava mais 500 euros. Era muito dinheiro e quando fui presa fui com 1,20 euros. Portanto, não juntei nada”.

Passado um ano, fez uma pausa porque apanhou um grande susto, depois de ter sido mandada parar pelas autoridades. “Fiquei com medo e fui trabalhar para um bar de strip”, revelou, referindo que trabalhava ao balcão.

Conciliava esse emprego com o trabalho num banco, até que saiu o escândalo na comunicação social sobre o trabalho no bar de strip. “Olhavam-me de lado, o meu avô já trabalhava lá há muitos anos, via as pessoas a andarem com a revista de baixo do braço e achei por bem sair e deixá-lo tranquilo da vida. Foi ai que tive que ir outra vez a Marrocos, porque deixei também a noite”, recordou.

Até que foi apanhada pela primeira vez no dia do seu aniversário, 8 de abril. “Em Espanha, se tu és apanhada uma primeira vez até 2,5kg deixam-te sair e ficas com dois anos condicional. Já tinha sido mandada parar muitas vezes e acabava por se tornar um vício a adrenalina. Daquela vez, fiquei oito horas detida”, lembrou, acrescentando que tinha 800 gramas.

Esteve durante algum tempo sem ir a Marrocos, mas acabou por voltar lá por “desespero”, pois vivia “praticamente na rua”. “Tinha 50 cêntimos para comer, estava a viver de ajudas. A minha mãe não sabia bem onde é que eu vivia, o meu pai também não, nem o meu avô. Foi o desespero”.

Chegou a dormir na rua, em escadas de prédios, não tinha casa e vivia no lar da mãe do seu namorado da altura. “Tive muita sorte na minha vida, porque encontrei também muitas pessoas boas. Tive muita gente que me abriu a porta, que me deu um prato de sopa quando precisei. São pessoa que vou guardar para sempre no meu coração e se um dia me ligarem a pedir ajuda, só não ajudo se não puder”, frisou.

“Nesta segunda vez em que estava na miséria, eu tinha duas hipóteses, que é o dinheiro fácil: Ou vais para a prostituição, ou era para o tráfico. E eu decidi o tráfico. Se calhar, mais valia eu ter passado mais um mês por dificuldades e ter esperado por um trabalho e não tinha perdido um ano e meio da minha vida, mas às vezes o desespero faz com que façamos coisas e não pensamos nelas”, acrescentou.

Quando foi presa

Acabou por ser presa no dia 7 de fevereiro de 2012. Foi detida em Espanha com 800 gramas de haxixe no estômago. “Só chorava. Não sabia como é que havia de dizer à minha família”, lembrou.

Quando estava à espera da sentença “tentou cortar os pulsos com os ganchos do cabelo”. “Eles tiram-te os atacadores, os cintos e esqueceram-se dos meus ganchos. Tentei e ainda hoje tenho algumas marcas”, admitiu.

“Bati com a cabeça na porta de ferro, gritando, tentado sair. É o desespero, são cinco metros por dois com um colchão cheio de coco, a dormires num colchão mínimo, no chão. Só quem passa é que sabe o que é”, continuou.

No entanto, Sara Norte afirma que “a prisão foi a sua salvação” e “foi feliz” naquele lugar, onde fez amigos. Enquanto esteve lá, tentou ter regras, rotinas, horários, uma vida ‘normal’.

“Tinha um trabalho não remunerado na biblioteca para poder ler os livros à vontade. Criei o meu grupo de teatro para poder representar. Fiz o ‘Romeu e Julieta’ em versão prisão. Corria entre quatro a cinco horas ao dia… Tentei tirar proveito do bom que o mau me podia dar. Consegui. Comecei a gostar de mim, acordar a gostar de me arranjar. Não andava de fato de treino, andava sempre arranjava. Tinha uma ‘vida normal’”, contou.

No dia em que saiu da prisão, lembra-se de “deixar os sacos e começar a correr”.

Hoje é uma pessoa “muito feliz” ao lado do companheiro, Vasco Cruz, que conheceu durante as filmagens do filme ‘Fátima’.

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