Retratos Contados:­ ​O tema da nossa conversa vão ser os avós, e vamos começar pelos seus avós bem lá no passado. Que recordações tem dos seus avós?

Guida Maria:­ ​Há os avós paternos e avó materna, porque eu nunca conheci o meu avô materno. Dos meus avós paternos tenho as melhores recordações, como tenho do outro lado. Na altura nós vivíamos na Parede e os meus avós paternos viviam também na Parede, a minha avó materna sempre viveu em Lisboa portanto nós éramos miúdos, passávamos a vida a entrar e a sair da casa dos meus avós na Parede. A avó de Lisboa visitava menos frequentemente.

A minha avó paterna adorava-me, acho que sempre me lembrei da minha avó uma velhinha, mas na realidade a minha avó morreu com setenta e poucos anos, eu hoje vejo mulheres com setenta e poucos anos ótimas de shorts e não sei quê, portanto isto é uma coisa…

Portanto, era uma velhinha típica de carrapito, cabelo branco, muito bonita, era uma senhora muito bonita. O meu avô era um querido, mas era muito mais austero, aliás como era típico da época e pronto. era muito bom nós todos os domingos a família toda ia almoçar a casa dos meus avós, bons tempos …

Eu sou do tempo do beija-mão, ninguém se despedia de casa dos meus avós sem pedir a bênção ao meu avô e quando entrávamos a mesma coisa portanto havia sempre uma certa distância não havia cá confidências, Deus nos livre!

Aliás, quando estávamos a fazer muito barulho meninos, o meu avô dizia “tudo lá para cima para o sótão que nós temos mais que fazer do que vos estar a aturar”, e nós íamos alegremente… é uma diferença abismal para o que se passa hoje em dia!

E então em relação à avó de Lisboa?

G.M.:­ ​Estava com a minha avó materna, muito espaçadamente, a minha avó materna sempre trabalhou toda a vida, a minha avó materna era uma mulher muito inteligente, ela era conhecida pelo “General”, era uma mulher de armas, era uma mulher também muito bonita, ela foi sempre guia turística está a ver a minha avó morreu com 98 anos e trabalhou praticamente até ao fim, curou três pneumonias com 90 anos, fugiu do hospital e eu tinha uma excelente relação com ela. A minha avó durou até aos 98 anos.

Durante a minha infância vivi na Parede, mas depois eu também me mudei para Lisboa e portanto estava muitas vezes com a minha avó e devo dizer-lhe que tinha uma proximidade com a minha avó materna que nunca tive com a minha avó paterna, pela diferença de idades e pela própria diferença de maneira de estar, a minha avó materna era muito divertida.

Sempre tive um relacionamento muito interessante com a minha avó, aprendi com ela muitas coisas, muita cultura geral porque realmente uma pessoa com aquela longevidade e completamente saudável de cabeça, muito esperta e muito intuitiva era uma pessoa com quem eu gostava muito de falar.

Sempre conheceu essa avó viúva?

G.M.:­ ​Sim o meu avô morreu quando a minha mãe tinha 17 anos, depois a minha avó casou posteriormente com um senhor que eu conheci, mas com o qual eu não me dava nem tinha qualquer tipo de relação para além do olá, como é que está? Tudo bem? Mas não mais do que isso.

Identificava-se mais com a avó de Lisboa do que com a avó da Parede …

G.M.:­ ​ Pois porque os meus outros avós, aquilo era um casarão, tinham dinheiro, faziam parte da família, mas estavam na sala, não iam à cozinha comer uma sandes, aquilo esperava-se pela hora do almoço, rezávamos, agradecíamos, era tudo muito mais conservador e eu também tinha outra idade, não é. A minha avó materna passava a vida lá na igreja, mas também não chateava ninguém por causa disso, tinha lá uns pobres de estimação que era o que ela me dizia, eu com a minha avó materna falava de coisas que detestavam que era ver o futuro através do passado, é tentar perceber o futuro através do passado.

Então e os avós chegaram a vê­-la no palco?

G.M.:­ ​Ah sim completamente!

Tanto a avó de Lisboa como os avós da Parede?

G.M.:­ ​ A minha avó de Lisboa nessas coisas era mais desprendida, viu mas era mais desprendida, a minha avó era mais para as óperas. O meus avós paternos sim, até porque o meu pai também era ator e isso é muito curioso porque realmente eu vivi quando era jovem e comecei a fazer teatro numa altura em que neste país ser-se atriz era igual a prostituta, e realmente de uma família tão conservadora, tão religiosa, nunca ninguém nesta família me ostracizou ou… nada, muito pelo contrário adoravam, viam todas peças, falávamos sobre isso depois mais velha, para já na minha família paterna todos os meus tios, os irmãos do meu pai, era tudo gente que deveria ter feito teatro porque eu tenho pianistas na família, tenho bailarinos na família, tenho toureiros inclusive na família e os meus próprios avós faziam filmes domésticos coisas hilariantes, mas hilariantes de bom.

Tanto do lado materno como do paterno, acabou por herdar alguma coisa dos seus avós?

G.M.:­​ Ah sem dúvida nenhuma. Por exemplo a minha avó materna era uma amante de ópera, fui com ela várias vezes e ainda bem que fui porque adoro, não percebo nada, pouquíssimo percebo e passei a gostar de ópera, não é fácil, mas passei a gostar realmente porque acompanhei a minha avó íamos as duas ao São Jorge porque ela na altura já não ia sozinha, porque já tinha oitentas e muitos e depois ela explicava-me é assim é assado e quem escreveu foi este e eu passei a gostar e gosto bastante de ópera, não gosto de todas nem as conheço todas, mas não me incomoda nada ouvir ópera. Mas isso devo um bocado á minha avó materna porque me incutiu isso, mas portanto toda a minha família, eram pessoas que gostavam muito de arte, de pintura, de ópera, de concertos, de teatro.

Hoje em dia quando olhamos para a Guida Maria, olhamos como uma avó digamos “ousada”, acha que essa ousadia herdou dos seus avós também?

G.M.:­ ​Não, eu acho que não, não, isso acho que não sinceramente, se calhar não sei através dos genes, hoje em dia é tudo através dos genes se calhar foi… Não, eu acho que sempre fui, eu sempre fui. Quando eu era miúda, miúda, miúda as pessoas diziam que eu era rebelde na escola, não sei quê, não sei quê, não sei quê, na catequese, não sei quê, não sei quê, bom eu era rebelde em tudo, eu não estou a dizer que não era rebelde, mas há uma coisa que eu lhe digo, não é para puxar os galões porque há muitas pessoas como eu, mas eu acho que sempre fui muito mais á frente e isso ia contra os regulamentos, ia mesmo contra a minha própria família, não é?! Portanto eu sempre sofri um bocado isso na pele, sem me armar em vítima, aliás até me deu um certo gozo porque realmente eu não vergava, eu achava que era assim e só se me explicassem muito bem porque é que não era assim, há muitas coisas que ninguém me conseguiu explicar muito bem e eu então fui para a frente, é claro que muitas vezes bati com a cabeça nas paredes e aprendi ou não aprendi, repeti “n” coisas naquela tentativa pode ser que tenha tido azar. Portanto não sei se herdei, não faço a menor ideia, mas sei que o facto de ter começado a trabalhar nova, o facto de ser muito independente, sempre fui aliás a minha mãe diz que eu era, quer dizer com estas idades aqui que era impressionante que eu ia á cozinha ia buscar um banco e ia á lata do pão, comia a carcaça, muito independente e essa independência agravou-se, entre aspas, porque realmente eu comecei muito cedo a trabalhar nesta profissão e portanto isto é uma profissão de pessoas independentes, as pessoas não andam com a mãe e o pai atrás, embora eu tivesse andado com a minha mãe e o meu pai quando era miúda com cerca de 10 anos.

E são esses valores que transmite às suas netas?

G.M.:­ ​Nomeadamente á minha neta Catarina sim!

​Que idade tem a sua neta Catarina?

G.M.:­​ A minha neta Catarina passou dos 20, tem 23. É uma miúda extraordinária, não é por ser minha neta, mas é. É extraordinária nunca pede nada, nunca diz nada, é uma excelente estudante, mas tem aquele coração de ouro, chora baba e ranho quando se sente magoada. É muito emotiva e é muito jovem e não tem prática da vida porque ela coitada ainda está a fazer o mestrado e eu estou sempre a tentar dizer “Catarina, Catarina se começas a chorar hoje vais chorar até ao dia em que morreres porque a vida é assim​ ​filha, as pessoas são assim! Tens que ter defesas filha! Eu sei que isto é muito triste estar-se a dizer isto a uma jovem de 23 anos, mas eu também já achei que ia ser a mulher mais feliz do mundo e acabar com um príncipe e ter 10 filhos, Catarina esquece! Eu estou a dizer-te isto minha querida para que tu não te magoes, tu não podes passar a vida a chorar por tudo o que te acontece.” ​e portanto isso eu realmente tento incutir!

Continua...

Um bocadinho de gossip por dia, nem sabe o bem que lhe fazia.

Subscreva a newsletter do SAPO Lifestyle.

Os temas mais inspiradores e atuais!

Ative as notificações do SAPO Lifestyle.

Não perca as últimas tendências!

Siga o SAPO nas redes sociais. Use a #SAPOlifestyle nas suas publicações.