Se não se pode caçar com cão, caça-se com gato. Este provérbio popular assenta que nem uma luva a muitos empresários portugueses e a forma como lidaram com a pandemia de COVID-19 desde o primeiro momento é a prova disso mesmo. A chegada do SARS-CoV-2 a Portugal, no início de março de 2020, levou a um confinamento inédito que apanhou o país de surpresa. Muitos viram-se, praticamente de um dia para o outro, na contingência de fechar portas e de ter de suspender a atividade mas nem todos baixaram os braços.

De norte a sul de Portugal, foram muitas as empresas que, num ápice, conseguiram reconverter a sua atividade e continuar, simultaneamente, a manter a produção e assegurar os postos de trabalho dos colaboradores, como foi o caso da fábrica de calçado nortenha Vitorino Coelho, uma das primeiras do setor a produzir máscaras sociais não cirúrgicas em território nacional. Um exemplo que muitos outros industriais viriam a seguir, como foi o caso de Luis Onofre, o reputado designer de calçado português.

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Não foram, no entanto, os únicos. Sob a coordenação do CTCP e o acompanhamento da Associação Portuguesa dos Industriais de Calçado, Componentes, Artigos de Pele e Sucedâneos (APICCAPS), cerca de duas dezenas de indústrias de São João da Madeira, Oliveira de Azeméis, Santa Maria da Feira, Guimarães e Felgueiras suspenderam, logo a partir da fase inicial do surto, o fabrico de calçado, produzindo diariamente mais de 10.000 máscaras e viseiras. A Rufel, marca de uma empresa familiar portuguesa de marroquinaria, que produz malas, carteiras, mochilas e cintos de forma semi-artesanal, também abraçou o negócio das viseiras.

O fabrico de dispositivos de proteção para os profissionais de saúde, uma lacuna, foi recorrente. A Inducorte, indústria de cortantes sediada em Santa Maria da Feira, uniu-se à Escola Profissional de Espinho e, em parceria com a Tecmacal, uma fábrica de equipamentos industriais de São João da Madeira, passou a fabricar diariamente entre 150 a 200 viseiras médicas, através de um processo de injeção de termoplástico, mais rápido que a impressão em 3D, com recurso a material lavável, antiestático e antifúngico.

Em Santa Cruz do Bispo, em Matosinhos, as reclusas do estabelecimento prisional feminino, que já colaboravam regularmente com a Legaltex na produção de sacos para a guarda de cadáveres, viram, de um momento para o outro, a empresa de Moimenta da Beira pedir-lhes para passarem a fazer material de proteção. As máscaras, as batas, os manguitos e os fatos confecionados foram usados para consumo interno pela Direção Geral de Reinserção e Serviços Prisionais, informou, então, o Ministério da Justiça.

No centro do país, uma pequena empresa do concelho da Batalha que, numa situação normal, estaria a produzir estofos e pufes também reconverteu temporariamente o negócio, passando a confecionar equipamento de proteção para médicos e máscaras para lares de idosos, com recurso a um tecido que também é usado nos hospitais. O corte dos tecidos era feito nas instalações da unidade de produção, localizada em Reguengo do Fétal, nos arredores da cidade, onde a empresária Cecília Silva se manteve em funções.

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"Estou a tentar adaptar o material que tenho, um tecido TNT, para fazer cógulas e botas de proteção para médicos. Tecnicamente, é idêntico. O dos hospitais é azul e o meu é bege", explicou Cecília Silva em entrevista à TVI. Antes de avançar, pediu opinião a uma médica e a uma auxiliar de saúde, que lhe deram luz verde. Isoladas em casa, as costureiras que a empresa que criou a marca Puff! emprega encarregaram-se da confeção. Não muito longe dali, várias empresas de injeção de plástico e de produção de moldes do distrito de Leiria também decidiram unir esforços para produzir viseiras para profissionais de saúde, elementos das forças de segurança e da proteção civil e funcionários de lares de idosos.

Começaram por fabricar 4.000 por dia mas a utilização de um novo molde permitiu-lhes chegar rapidamente às 12.000 unidades. Na Marinha Grande, um projeto empresarial virou-se para a produção de peças para a construção de ventiladores. Às portas de Lisboa, no concelho de Loures, a Science4you também se viu na contingência de procurar alternativas para fazer face à diminuição drástica da procura de brinquedos. Recorrendo às suas equipas e às matérias-primas em stock, começou a produzir material de proteção.

A companhia passou a fabricar diariamente cerca de 15.000 óculos para profissionais de saúde e, assim que o problema da falta de álcool etílico que assolou o país numa fase inicial foi minimizado, começou a produzir gel desinfetante. A pandemia inspirou ainda a Science4you a criar um novo brinquedo, o Laboratório Antivírus. Para além de ensinar os mais novos a lidar com o novo coronavírus dando-lhes conselhos práticos, possibilita a criação de uma viseira e de um sabonete e a criação de bactérias em meio de cultura.

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Em todo o país, à medida que as empresas reviam as suas estratégias digitais e melhoravam ou criavam lojas online, multiplicavam-se os empreendedores que criavam novas marcas de máscaras. A Natuure-Masks e a Ateliê da Cortiça desenvolveram modelos em cortiça. A Maison Eve, a Daily Day, a Tintex e a Máscaras de Tecido ficaram-se pelas tradicionais. A marca de moda MO uniu-se à empresa Adalberto, ao centro tecnológico CITEVE, ao Instituto de Medicina Molecular da Universidade de Lisboa e à Universidade do Minho para desenvolver a primeira máscara do mundo a inativar o SARS-CoV-2, a MO x Ad-Tech.

Antevendo a redução do número de casamentos por causa da pandemia, o Pureza Mello Breyner Atelier, com escritórios em Lisboa e no Porto, habituado a confecionar vestidos de noiva, também reconverteu a atividade, passando a produzir cógulas e máscaras de proteção em parceria com a marca de calçado Zilian, que lhes forneceu tecido TNT. A Maria Modista, uma escola de costura com instalações em Lisboa, Porto, Estoril, Almada, Leiria, Coimbra, Aveiro, Setúbal e Faro, forneceu os moldes e alguns materiais.

Na região de Azeitão, a empresa José Maria da Fonseca, em parceria com a Destilaria Levira, trocou temporariamente os vinhos pela produção de gel desinfetante, recorrendo a álcool vínico destinado à produção de Moscatel de Setúbal, para doar a instituições de saúde e de solidariedade social e a forças de segurança e socorro locais. Mais a sul, no Alentejo, a Destilaria Sharish Gin, localizada em Reguengos de Monsaraz, usou os 100.000 litros de gin engarrafado que tinha em armazém para fabricar desinfetante.

As garrafas de Bluwer, uma nova marca que a empresa de António Cuco se preparava para lançar, foram despejadas e o álcool novamente destilado e reaproveitado. Na Adega Cooperativa de Vidigueira, Cuba e Alvito (ACVCA), também a aguardente vínica foi transformada em líquido desinfetante. Em parceria com a Unidade Local de Saúde do Baixo Alentejo (ULSBA), os funcionários da organização vitivinícola alentejana investiram na produção de um gel antissético à base de álcool para desinfeção das mãos.

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Os (muitos) exemplos não se esgotam aqui. Em Guimarães, a Devise Solutions, uma empresa de tecnologias e de soluções para a indústria, passou a imprimir viseiras em 3D, à semelhança do que também sucedeu em Lisboa, com a Fan 3D, uma empresa de consultoria em engenharia. No Porto, o VivaLab, um laboratório de fabricação de projetos digitais, como a impressão em 3D, usou a cortadora a laser para produzir viseiras. A DGA, propriedade do empresário Domingos Araújo, que fabrica peças para automóveis, também suspendeu temporariamente a produção para se dedicar ao fabrico de viseiras para profissionais. O grupo Nabeiro ligado à indústria do café, também produziu batas, máscaras e viseiras.

Foi transversal. Em Barcelos, a fábrica têxtil Sonix foi outra das muitas que trocaram as malhas pelas máscaras e pelas batas. Outra das empresas do grupo, à semelhança do fabricante de cervejas Super Bock e da Destilaria Levira, também começou a fabricar gel desinfetante. Enquanto isso, muitos estabelecimentos de restauração viram-se na contingência de repensar a atividade, reforçando os serviços de takeaway e de entrega ao domicílio. O número de entregadores disparou. Um ano depois, muita coisa mudou.

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