Infelizmente também todos conhecemos histórias de situações em que ninguém agiu, em que muitas pessoas assistiram mas ninguém interveio. E se procurarmos um pouco na nossa memória também conseguiremos certamente encontrar episódios em que demos por nós próprios parados, sem reação. E só mais tarde pensámos no que queríamos ter dito ou ter feito. Será então o ser humano naturalmente bom ou mau? Ser-nos-á inata a disponibilidade para ajudar o outro? E a cooperação, surgirá de forma natural?

Em 2006, os psicólogos Felix Warneken e Michael Tomasello fizeram um estudo com bebés de 18 meses: expuseram-nos a uma grande variedade de situações. A ideia era perceber qual a reação espontânea de uma criança quando vê um desconhecido em dificuldades.

Numa destas situações a criança está com a mãe numa sala e aparece um adulto carregado de livros a tentar pô-los dentro de um armário que tem as portas fechadas. A criança depressa se aproxima e abre a porta do armário. Noutra situação, um adulto (muitíssimo desastrado) tenta enfiar bolas num saco, só que estas caem sempre ao chão. A criança vai buscar as bolas de imediato. De todas as vezes que faz algo deste género, a criança mostra satisfação - mesmo não havendo qualquer recompensa nem mesmo uma reação explícita de agradecimento por parte do adulto. O seu interesse principal parece ser mesmo ajudar o outro. Ou seja, concluíram os investigadores: aos 18 meses de idade, as crianças agem naturalmente de modo altruísta.

Mas então, se o altruísmo é natural, o que se passa com as pessoas que nos rodeiam (e por vezes connosco próprios…)?

Os psicólogos sociais John Darley e Bibb Latané, partindo de casos reais, identificaram um fenómeno que todos conhecemos: em situações ambíguas e de emergência, em que existem várias pessoas por perto, o mais provável é que a maior parte das pessoas que estão a assistir à situação fique quieta, à espera que outro tome a iniciativa de agir.  E isto não quer dizer que as pessoas não estejam alerta nem desconfortáveis com o que se passa. É interessante perceber que, logo que alguém dá o primeiro passo, muitos se juntam à volta, dispostos a ajudar. A este fenómeno chamaram Efeito Espectador (Bystander Effect), por causa da tendência das pessoas para, neste tipo de cenário, ficarem apenas a assistir.

Voltando ao estudo com bebés de 18 meses, de acordo com Warneken e Tomasello, à medida que as crianças crescem, o modo como as pessoas à sua volta se comportam molda a decisão de quem ajudar e quem ignorar. Vão começando a ter em conta o que os outros pensam sobre elas e a que grupo pertencem. O comportamento de ajuda que descrevem como quase reflexo deixa de acontecer com a mesma espontaneidade, pelo contrário, passa a ter de ultrapassar várias barreiras para existir. Precisamos por isso de estar atentos a nós próprios e aos outros, sobretudo às crianças por quem somos responsáveis porque se o altruísmo se pode perder, também se pode reaprender, desenvolver e incentivar.

A questão mais importante será como?

Em primeiro lugar, mentalizarmo-nos de que tudo o que passa à nossa volta, diz-nos respeito:

  • Assumirmos que somos a "pessoa iniciadora", ou seja, a pessoa responsável por tomar a iniciativa em situações de emergência, não esperar de mais ninguém esse papel. E para isto, fazermos a nós próprios a seguinte pergunta: “O que precisa de ser feito?” ou “O que eu faria se estivesse sozinho?” Deste modo vamos conseguir agir de modo independente das pessoas à nossa volta e dar um primeiro passo necessário;
  • Se já alguém agiu no sentido que considera certo, então o que é preciso é apoiar essa pessoa de imediato;
  • Conhecermos e divulgarmos esta tendência em grupo para não agir, chamado “efeito espectador” vai alertar também as pessoas que nos rodeiam, sejam adultos ou crianças;
  • Usarmos este conhecimento para nosso próprio benefício: Quando precisar de ajuda, estabeleça contacto visual e peça ajuda de forma direta a alguém.

E como ensinar as crianças à nossa volta a agirem de modo altruísta?

  • Convém ir falando sobre estes temas desde cedo com as crianças com uma linguagem adequada à idade. Ou seja, ensinar os mais jovens a serem a exceção e tomarem a iniciativa de ajudar;
  • Estarmos atentos ao nosso discurso. Ideias como "as pessoas são más" ou "no mundo, é cada um por si" têm um efeito fortemente desencorajador para o comportamento altruísta;
  • Explicar-lhes o Efeito Espectador e a importância de agir nestas situações. E explicar que agir é pedir ajuda a um adulto, não é pôr-se em risco;
  • Sermos um bom exemplo no cuidado e atenção que damos aos outros, reforçando que na dúvida mais vale correr o risco de um falso alarme do que não agir;
  • Valorizarmos e elogiarmos quando as crianças têm gestos de gentileza e cuidado para com os outros;
  • Ensiná-los que quando estiverem numa situação de emergência, é importante gritarem bem alto por ajuda, com palavras como "Socorro!" ou "Ajude-me", a olhar de forma direta para algum adulto.

Está ao nosso alcance a decisão de sermos mais altruístas e mais atentos a  quem nos rodeia, e as nossas ações têm o poder de mudar uma situação.

Ana Moniz - Psicóloga, Psicoterapeuta e Executive Coach

Autora do livro: “Este livro não é para fracos: Como agir com coragem está ao alcance de todos” (Editora Planeta)

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