A 2 de Outubro de 2009, a apresentadora de televisão norte-americana Oprah Winfrey mostrou ao mundo o resultado dos seus exames médicos.

Em lugar de destaque, uma técnica recente que permite identificar os riscos de se vir a desenvolver várias doenças. A electron beam tomography (EBT) ou tomografia por feixe de electrões.

Tal como uma TAC (Tomografia Axial Computorizada), trata-se de uma técnica de diagnóstico indolor e não invasiva que recorre aos raios-X. No entanto, a forma inovadora como estes são produzidos permite níveis de radiação muito reduzidos e imagens mais nítidas.

A avaliação do risco de doença coronária é uma das principais aplicações da EBT. O método é simples: primeiro, é observada a concentração (ou score) de cálcio existente nas artérias. A partir deste valor, e em conjugação com a história pessoal do paciente, é avaliado o risco de este vir a desenvolver a doença. Mas a técnica pode também ser usada para estudar os pulmões e o cólon, entre outras partes do organismo.

Desenvolvida e patenteada nos anos 80 pela Universidade da Califórnia, a técnica foi reconhecida pela Food and Drug Administration a 11 de Dezembro de 2000.

No entanto, continua a não ser consensual entre a comunidade científica: «A maioria dos membros do grupo de trabalho não recomendaria a tomografia por feixe de electrões como meio de diagnóstico para a doença obstrutiva das artérias coronárias devido à sua baixa especificidade (alta percentagem de resultados positivos falsos), o que pode resultar em testes adicionais desnecessários e caros para excluir um diagnóstico de doença coronária», lê-se no documento de consenso entre a American College Cardiology e a American Heart Association sobre esta técnica.

Para saber mais sobre este exame de diagnóstico, fomos falar com Miguel Barreiros, administrador da clínica Life Beat, a única que já disponibiliza este exame em Portugal.

A Tomografia por Feixe de Electrões (EBT) é apresentada como um evolução face à Tomografia Axial Computorizada (TAC). O que as distingue?

A forma como são gerados os raio-X e a resolução temporal. Na EBT os feixes de raio-X resultam da incidência de um feixe de electrões sobre um alvo de tungsténio estacionário.

Esse feixe de electrões permite uma velocidade de aquisição extremamente rápida, até 33 milissegundos (ms), enquanto num TAC moderno não se conseguem velocidades de rotação do conjunto ampola detector inferiores a 250 ms. O princípio radiológico é semelhante, a grande diferença é a forma de produção dos raio-X.

Do ponto de vista técnico, como consegue esta tecnologia obter uma maior resolução e uma menor emissão de radiações face à TAC?

A elevada velocidade de aquisição permite obter imagens bastante nítidas de estruturas em movimento, como é o caso do coração. A rapidez do varrimento do feixe de electrões garante uma exposição bastante curta, daí a baixa dose de radiação total absorvida.

Para além da detecção de doença coronária, que outras aplicações médicas tem esta técnica?

As aplicações do EBT são bastante vastas. Em Portugal estamos principalmente. focados na avaliação de risco da doença coronária, cancro do pulmão e cancro do cólon, pela importância que estas patologias representam na população portuguesa e pela baixa dose de radiação que conseguimos garantir com o EBT.

Enquanto meio de diagnóstico do cancro do colón e cancro pulmonar, a EBT é reconhecida por algum organismo nacional ou internacional?

O EBT é um equipamento de diagnóstico por imagem radiológica reconhecido pela FDA para uma variedade de exames, entre os quais a colonoscopia virtual e o TC Pulmonar de baixa dose. Em Portugal, está autorizada pela Direcção Geral de Saúde.

Que estudos científicos comprovam a relação entre a quantidade de cálcio existente na artéria coronária e a probabilidade de ocorrência de eventos coronários?

Existem milhares de estudos que têm vindo a confirmar esta relação, publicados pelas mais reputadas publicações científicas.

Os doentes sintomáticos devem ser orientados pelo seu médico para os diversos meios complementares de diagnóstico e os doentes assintomáticos podem ser incluídos, de acordo com o seu perfil de risco individual, em acções de rastreio.

Qual taxa de fiabilidade dos resultados?

O score de cálcio é um marcador de risco em que se correlaciona o valor obtido com o risco relativo de eventos cardiovasculares futuros. A presença de cálcio nas artérias coronárias é uma prova inquestionável da existência de placa aterosclerótica, não se podendo, no entanto, tirar quaisquer conclusões quanto a eventuais obstruções. A ausência de cálcio ou score zero indica um risco extremamente reduzido de eventos cardiovasculares futuros. No exame de score de Cálcio não existem falsos positivos nem falsos negativos.

Como varia a fiabilidade dos resultados em doentes sintomáticos e assintomáticos?

O score de cálcio é essencialmente um marcador de risco pelo que, perante o resultado obtido, devem ser conjugados os restantes dados individuais. A fiabilidade dos resultados é igual para ambos os casos.

Em que casos está indicada a realização deste exame?

O exame de score do cálcio é particularmente útil na avaliação de risco de eventos coronários em indivíduos considerados de risco intermédio.

Que tipo de cuidados se deve ter, antes, durante e após a realização deste exame?

O exame de score de cálcio e TC Pulmonar de baixa dose têm uma duração aproximada de dez minutos. Já a colonoscopia virtual demora cerca de 45 minutos e requer uma preparação prévia que se inicia nas 48 horas anteriores ao exame.

Qual o custo do exame?
 
O exame de score do cálcio tem um custo de 250 €, TC Pulmonar de baixa dose 175 € e a Colonoscopia Virtual 350 €. Estes são os valores fora de qualquer convenção. Estes exames são comparticipados por subsistemas de saúde e seguradoras nos termos e condições das respectivas regras e apólices.

É previsível que, a curto ou médio prazo, mais clínicas privadas passem a dispor desta técnica em Portugal?

Seria bastante desejável que isso pudesse acontecer, pois permitiria incrementar acções de rastreio por imagem recorrendo a uma tecnologia de baixa dose de radiação. O serviço público de saúde devia apostar neste tipo de prevenção pois permite identificar patologias mortais numa fase inicial em que os custos de tratamento são bastante inferiores e os resultados bastante melhores.

Que futuro prevê para esta tecnologia?

A noção de que a prevenção pode ser economicamente viável está a conhecer um incremento a nível internacional e o futuro para as técnicas de imagem é bastante animador.

Texto: Rita Miguel com Miguel Barreiros, administrador da clínica Life Beat

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