O cancro da mama avançado não tem cura e gera, muitas vezes, em quem sofre dele um sentimento de culpa e também de perda de confiança na equipa médica que o tratou na primeira vez. No entanto, faz parte da natureza da doença, por vezes, regressar. Mesmo com os melhores tratamentos à luz dos conhecimentos atuais, 30 por cento dos casos de cancro da mama vão recidivar (reaparecer), dando origem ao cancro da mama avançado, que afeta principalmente o sexo feminino.

Tal pode acontecer «logo a seguir ao tratamento de um cancro precoce ou passados 20 ou mais anos», revela Fátima Cardoso, oncologista médica e diretora da Unidade de Mama do Centro Clínico Champalimaud. Não existe uma causa específica para o seu reaparecimento, mas a resistência aos tratamentos é, «certamente, o grande responsável por o cancro voltar», realça a especialista.

Apesar disso, os doentes sentem-se culpados por padecerem de uma patologia cuja mensagem final é tudo menos cor de rosa. «A esperança média de vida é de dois a três anos, embora já haja vários doentes que conseguem viver até oito, nove ou dez anos», refere. Os tratamentos existentes permitem aumentar a esperança  de vida, mas, sobretudo,  a sua qualidade,  podendo continuar a ser ativa e feliz.

Conhecer a doença

Também designado por cancro da mama metastático, estamos perante um cancro da mama avançado quando o «cancro sai da região local para outros órgãos à distância, sendo os mais frequentes os ossos, os gânglios, o fígado, o pulmão e o cérebro», explica a oncologista médica. Tal como o cancro precoce, também o avançado se divide em três subtipos:

- Recetor hormonal positivo

Os recetores são uma espécie de antenas, que existem nas células, a que as hormonas em circulação se ligam, dando informação às células para se reproduzirem, estimulando o crescimento do tumor.

- Recetor HER-2 positivo

Estes recetores recebem a mesma informação mas de outras substâncias que não as hormonas-

- Recetor triplonegativo

Não tem recetores  hormonais nem recetor HER-2. «Os subtipos que dependem das hormonas são os mais frequentes no cancro avançado», esclarece a oncologista.

Sinais de alerta

Em Portugal, assim como noutros países desenvolvidos, apenas 15 por cento dos casos de cancro da mama avançado corresponde a um primeiro diagnóstico, o que significa que a grande maioria se deve a recidivas. Trata-se de casos de pessoas que anteriormente já tinham passado por um episódio de cancro da mama. Apesar de este tipo de doentes se encontrar permanentemente sobre vigilância, quando as queixas deixam de ser habituais, é necessário recorrer ao médico para que este realize os exames necessários.

Os sintomas, apesar de «dependerem muito do órgão onde a metástase se desenvolveu, podem ser importantes ou muito subtis, ou podem até não existir e a doente sentir-se bem», sendo os mais comuns o aumento do cansaço, a falta de ar e a dor constante e intensa nos ossos, explica Fátima Cardoso.

Veja na página seguinte: O sentimento de abandono que deve combater

A culpa é da doença

Um sentimento geral de quem tem cancro da mama avançado é o de se sentir abandonado e sozinho. «Abandonado pela comunidade científica, mas também pelos próprios grupos de apoio, por terem uma mensagem muito centrada no facto de que, se se fizer todos os tratamentos e exames, se se alimentar corretamente, praticar exercício físico e não fumar, vai correr tudo bem», o que gera, por vezes, um sentimento de culpa em quem a doença recidivou.

«É verdade que todos esses fatores são importantes para reduzir o risco de voltar a ter cancro, mas tal não significa que, se fizer tudo corretamente, não possa vir a acontecer. A culpa não é da doente; infelizmente, faz parte da própria doença», desmistifica a especialista.

O diagnóstico

Segundo Fátima Cardoso, é mais difícil informar o paciente de um cancro da mama avançado do que dar o diagnóstico de cancro pela primeira vez. «Quando se dá um diagnóstico de cancro precoce, podemos dizer que há 70 por cento de hipótese de cura e, portanto, vamos fazer tudo com o objetivo de a curar», diz.

«Perante um diagnóstico de cancro avançado, não podemos oferecer a cura e temos de explicar que o objetivo é encontrar um tratamento que controle a doença e que lhe permita viver um mais longo período de tempo possível, com a melhor qualidade de vida, continuando a fazer uma vida o mais normal possível», acrescenta ainda.

Prioridades na ordem certa

Independentemente da forma como é dado o diagnóstico, a especialista sublinha a importância da verdade. «Nunca dou a notícia da mesma forma, depende sempre da pessoa que tenho à minha frente, mas é importante dizer a verdade», afirma ainda. O doente tem o direito de saber que a sua vida não vai ter mais dez anos para poder pôr em ordem coisas que, de outra maneira, poderia estar constantemente a adiar.

«Eu costumo dizer que o diagnóstico de cancro avançado torna, normalmente, o paciente numa melhor pessoa, porque aprende a pôr as prioridades na ordem certa. Há pessoas que estão zangadas com um membro da família e têm a oportunidade de fazer as pazes. Filhas que não falam aos pais, irmãos que cortaram relações... Por outro lado, mulheres mais jovens, com filhos ainda pequenos, podem querer aproveitar o tempo para estarem com os filhos e cuidar da família», refere ainda Fátima Cardoso.

O apoio é um fator chave

Costuma dizer-se que o diagnóstico de cancro avançado não é um diagnóstico só do doente. É da família. «Sendo a mulher uma figura central na família, o diagnóstico na mulher tem um impacto em todos os membros», refere a especialista, que afirma, no entanto, que, apesar de a família ser um grande apoio, os amigos também desempenham um papel preponderante.

«Às vezes, a mulher não quer desabafar tudo com o companheiro porque não quer sobrecarregá-lo. Também não o faz com os filhos, porque quer protegê-los. Então, precisa de amigos com quem possa falar», refere a especialista, realçando que «um bom amigo é aquele  com que se é capaz de falar abertamente e que  oferece ajuda, sem estar constantemente a perguntar  se está tudo bem».

Veja na página seguinte: O impacto da doença na vida profissional

O impacto da doença na vida profissional

Para muitas doentes, levar uma vida normal, tal como tinham antes de tudo acontecer, é importante para ultrapassar a doença. Por isso, há quem prefira continuar a trabalhar. E é também da parte dos empregadores que, no entender da oncologista médica, deve haver apoios. «Uma pessoa que tem uma doença que exige um tratamento contínuo vai ter dias melhores e outros piores, vai ter de faltar ao trabalho para ir às consultas e aos tratamentos», diz.

«Mas isso não significa que não possa ser produtiva. Tem é outras necessidades, como horários mais flexíveis, trabalhar alguns dias a partir de casa e não se deve exigir dessa pessoa 200 por cento. Deve entender-se que a pessoa não tem a mesma capacidade, mas que não deixa de ter uma riqueza de experiência e capacidade produtiva», refere ainda.

O tratamento

O doente com cancro avançado tem de estar sempre com um determinado tipo de tratamento, o qual não é muito diferente dos que são usados no cancro precoce. A quimioterapia, a hormonoterapia e os tratamentos biológicos. «Existem medicamentos mais recentes para o cancro avançado que ainda não usamos no cancro precoce, mas a maioria dos tratamentos são os mesmos, embora possam ser usados de forma diferente», refere a oncologista médica.

Segundo a médica, «cerca de 80 por cento dos doentes usa, de alguma forma, medicinas complementares. Existem já estudos de como a acupuntura pode ajudar contra as náuseas», exemplifica a especialista, que não vê qualquer inconveniente na complementaridade das duas medicinas, apesar de ter reservas em relação à homeopatia, revelando  que pode ter «dois tipos  de problema», sublinha.

«Os produtos interagirem com os medicamentos da medicina convencional e diminuírem a sua eficácia ou eles próprios fazerem mal a alguns órgãos», explica. De resto, desde que «os médicos de ambas as medicinas sejam informados sobre que tratamentos estão a fazer em cada uma delas, de modo a prevenir incompatibilidades entre medicações» não existe qualquer impedimento em fazê-lo.

O que fazer após o diagnóstico?

Fátima Cardoso, oncologista médica e diretora da Unidade de Mama do Centro Clínico Champalimaud, em Lisboa, explica o que fazer em caso de confirmação de um diagnóstico de cancro da mama avançado:

1º passo

«É preciso ter calma. É raro ser uma emergência, o que quer dizer que tem alguns dias ou semanas para se informar do melhor local para ser tratada», esclarece a médica. É importante, também, ter cuidado com o que se encontra na internet, devendo sempre pesquisar em sites com informação fidedigna, como o MamaHelp ou o ESMO.

2º passo

«Procure uma segunda opinião. Muitas vezes, a confiança na equipa médica é abalada quando o cancro volta. Nestes casos é especialmente importante ouvir outro especialista, nem que seja para ouvir de outro profissional que foi bem tratada, que o regresso da doença foi uma inevitabilidade e que o tratamento que lhe estão a propor é o correto», refere.

3º passo

«Procure o melhor local para ser tratada. A experiência da equipa que trata é muito importante, quer em termos de sobrevida, quer de qualidade de vida que se vai ter. Esta experiência tem que ver com o número de casos que a equipa trata por ano e o facto de ser,  ou não, especializada  em cancro da mama», elucida a médica.

Veja na página seguinte: A falta de medicamentos contra o cancro

Falta de medicamentos contra o cancro

A alegada falta de fármacos contra a doença, que afeta vários países, continua a ser alvo de críticas. Fátima Cardoso, oncologista médica, alerta ainda para um problema já denunciado, em 2014, pela RTP. «Os distribuidores preferem vender os medicamentos à Alemanha, que paga cinco vezes mais do que Portugal», condena a oncologista portuguesa.

«E isso acontece com medicamentos de quimioterapia, de hormonoterapia e com outros importantes para o tratamento de sintomas. Por exemplo, estivemos dois anos sem um corticoide específico para tratar metástases cerebrais», salienta. Para a especialista, a situação deve-se à falta de regulação do mercado farmacêutico.

Texto: Catarina Caldeira Baguinho com Fátima Cardoso (oncologista médica e diretora da Unidade de Mama do Centro Clínico Champalimaud em Lisboa)

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