Trabalhamos muito, descansamos pouco e raramente questionamos as exigências de um quotidiano que vai elevando a fasquia da nossa performance laboral, social e familiar. Essa tensão permanente está a gerar elevadas doses de ansiedade que, segundo Enrique Rojas, psiquiatra, "afeta-nos física e psicologicamente, provocando um quadro de mal-estar que pode incluir taquicardia, dificuldade respiratória, suores e tremores".

O problema transforma-se numa doença quando "nos impede de fazer uma vida normal, perturbando as relações emocionais, afetivas ou profissionais. Isso gera instabilidade, sentimentos de perda e incompetência, e pode transformar-se em algo patológico". Para desfazer este nó, há, segundo o autor do livro "SOS ansiedade", uma solução.

É preciso aprender "a distinguir o acessório do fundamental e saber refrear as ambições, pois só assim dominaremos a ansiedade e almejaremos a tão desejada felicidade", defende o autor da obra, publicada em Portugal pela Matéria-Prima Edições. Veja também a galeria de imagens com 25 livros que o vão ajudar a ser uma pessoa melhor.

Vivemos hoje o culto da civilização do bem-estar, mas, paradoxalmente, a ansiedade é um problema crescente. O que temos de mudar?

A vida divide-se entre deveres e prazeres e, nesse contexto, temos de conseguir seguir uma conduta que nos defenda da ansiedade. Isso implica aprendermos a dizer não, nomeadamente ao excesso de horas de trabalho. Complementarmos esta postura com muita disciplina, evitando a fragilização física e psicológica, funciona como um ansiolítico e produz efeitos positivos em termos de raciocínio mental, de projeto de vida, de doseamento de esforço, de seguir um horário padrão de deitar e levantar, de organização doméstica.

Fazê-lo ajuda-nos a distinguir o essencial do supérfluo, afastando-nos de vez daquilo que não precisamos e que nos prejudica. É importante trabalhar a consciência para perseguir apenas objetivos realizáveis e apostar em ocupações que nos deem prazer, como ler, ouvir música, ir ao teatro, pintar ou fazer exercício físico. Atuam como ansiolíticos e permitem-nos chegar ao fundo de nós próprios.

Nota que algo se alterou, nos últimos tempos, na forma como os pacientes se referem à ansiedade e como lidam com ela?

Com as mudanças de paradigma social das últimas décadas, existem alguns focos novos de ansiedade. O culto do corpo é um exemplo e permitiu o aparecimento de uma série de perturbações alimentares. Outro grande gerador de ansiedade é o vício no trabalho.

São muitos os chamados workaholics que procuram ajuda. Apesar destes novos cenários, os níveis de ansiedade variam e isso não estará diretamente relacionado com as atividades que se exercem, mas sim com as próprias pessoas.

Isso reforça a ideia de que existem pessoas naturalmente mais ansiosas do que outras…

Sim, essa propensão nasce com algumas pessoas, pois fabricam ansiedade. Isso está relacionado com a genética, sendo hereditário, e também com a aprendizagem, principalmente no seio familiar.

Viver ou conviver com alguém ansioso pode tornar-nos ansiosos?

Sim, sem dúvida, pois as doenças psicológicas propagam-se por contágio. Se, numa família, existe um ou dois elementos mais nervosos,  é normal que essa ansiedade se generalize. Pelo contrário, se, dentro do espaço familiar, existe ordem, equilíbrio e, consequentemente, alegria, respira-se e vive-se melhor.

Os pais e educadores, em particular, devem entender que educar é ajudar a crescer, é acompanhar e, por acréscimo, lutar por conseguir o que de melhor o outro pode desejar. Por isso, trata-se de uma tarefa demorada, que se quer ponderada, sem pressas, evitando atalhos que podem tornar as pessoas potenciais ansiosos».

A ansiedade é essencialmente fruto das experiências de vida?

Isso é, infelizmente, o mais comum. Nesses casos, homens e mulheres diferem em termos comportamentais e a ansiedade afeta-os de forma diferente. No contexto ocidental, a mulher é mais sensível às frustrações afetivas e familiares e o homem sofre mais com os insucessos laborais e económicos.

Esta predisposição provoca micro e macrotraumas em ambos os sexos. Os primeiros, mais frequentes, são acontecimentos negativos cuja repetição pode provocar problemas sérios, enquanto os segundos são impactos de grande intensidade que marcam a vida. No todo, estes acontecimentos abalam a nossa estrutura emocional.

Quais os principais mitos que subsistem em relação à ansiedade?

Um dos que se tende a generalizar, nomeadamente entre os mais jovens, é que se pode trabalhar, desenvolver uma atividade, sem stresse ou picos de ansiedade. É uma imagem idílica que deve ser clarificada. Outra questão que faz parte do imaginário coletivo como sendo algo, erradamente, apenas maravilhoso, é o amor.

Porque é uma tarefa diária, implica muita dedicação, não sendo apenas aquela nuvem que nos eleva. Ter consciência dessas dificuldades pode salvaguardar-nos de desordens emocionais como a depressão.

Como se distingue a ansiedade da depressão?

A depressão é uma doença emocional precedida pela tristeza, aqui entendida como uma melancolia extrema, um desânimo por viver, o que faz com que nos abracemos a eventos passados, convertendo a história pessoal em momentos de culpa. Já a ansiedade é inquietude, desassossego, nervosismo, mal-estar interior, pensar que os nossos problemas não têm solução. Apesar destas diferenças, quando a dor é muita, são sentimentos que se canibalizam, logo existem pessoas depressivas que se tornam ansiosas e vice-versa.

No livro "SOS ansiedade", defende um plano terapêutico com cinco ângulos, sendo o uso de fármacos, na sua opinião, "decisivo". A medicação é indispensável em todos os casos?

Defendo um esquema terapêutico que compreende a farmacoterapia, a psicoterapia, a socioterapia, a laborterapia e a biblioterapia, mas quando se pretende ultrapassar casos de ansiedade endógena, a utilização de fármacos é fundamental, tal como os antibióticos são obrigatórios para debelar infeções.

Como funciona a toma de medicação?

O tratamento deve ser feito durante um período de tempo estabelecido e, à medida que o paciente evolui, a medicação é reduzida de forma gradual. Cerca de 90 por cento dos casos segue essa regra. Os tratamentos apenas podem ser bem-sucedidos quando são seguidos à risca, caso contrário, pode anular-se o seu efeito ou criar-se um cenário de dependência, principalmente quando o paciente não respeite as ordens do médico ou opte pela automedicação.

Ao fim de quanto tempo é possível sentir melhorias no estado de ansiedade?

Em média, após dois meses e meio a três meses, já começamos a ver resultados satisfatórios e as pessoas reduzem os seus níveis de ansiedade. Para verificar essa evolução, os psicólogos utilizam escalas de conduta, de análise similar à conhecida escala de Richter que verifica a intensidade dos sismos, que avaliam a ansiedade, como a de Hamilton ou Beck. Humildemente, apresentei uma proposta de escala há muitos anos num congresso e também foi aceite.

Pelos seus efeitos, a ansiedade é uma espécie de terramoto interior?

É isso mesmo! Pode ter efeitos devastadores e ruir o nosso edifício físico e psicológico. Daí que seja algo que não devemos menosprezar e tratar o mais rapidamente possível, com o máximo de disciplina.

No âmbito da psicoterapia, qual o método que tem resultados mais eficazes?

Existem vários métodos nesta área, mas o mais importante é utilizar a psicoterapia para ensinar a pessoa a não fabricar ansiedade. O propósito é dar ferramentas aos pacientes que permitam gerir melhor as contrariedades e os conflitos, ou seja, situações que coloquem em causa a estabilidade emocional.

A prática de mindfulness pode ajudar?

É uma técnica eficaz e tem sido uma aposta nos últimos anos para contrariar a ansiedade. É, no fundo, uma aprendizagem, de raiz oriental, que permite um nível extremo de concentração e relaxamento através da meditação e da repetição de mantras ou frases. Ainda assim, do ponto de vista científico, o mindfulness carece de conteúdo. Digamos que pode servir em alguns casos específicos, essencialmente para contrariar o impacto do stresse.

Que conselhos são dados em consultório para serem aplicados no trabalho, nas amizades e na vida familiar?

Aquilo a que se refere é a socioterapia, é muito útil e o objetivo é que a pessoa desenvolva competências a nível social em todos os seus relacionamentos. É essencial estabelecer raízes comunicantes, manter um contacto positivo com o outro, dialogar, desabafar, saber defender os próprios direitos, sejam eles laborais, sociais ou emocionais, evitando isolar-se. Freud entendia estas ações como catarse, algo que liberta tensões interiores.

No seu livro, defende que uma baixa laboral prolongada "é perigosa" em casos de pessoas com ansiedade ou depressão. Porquê?

Combater o absentismo laboral permite uma conquista a dois níveis: profissional e emocional. Uma das formas mais eficazes de lutar contra a ansiedade gerada pelo trabalho é seguir um plano organizado, ordenado, que sublinhe confiança em nós próprios e nas nossas capacidades. Assim, chega-se a um plano de estabilidade que pode proporcionar tranquilidade e felicidade ao trabalhar.

Os livros de autoajuda podem ser aliados no combate à ansiedade?

Alguns sim, e muito. Posso dar dois exemplos. Se procura conhecer e melhorar a sua personalidade recomendo "As suas zonas erróneas — Guia para combater o pensamento negativo" [editado em Portugal pela Pergaminho] do filósofo norte-americano Wayne Dyer.  Se pretende melhorar as suas relações sociais, em especial a vida conjugal, sugiro "Love is never enough - How couples can overcome misunderstandings, resolve conflicts, and solve relationship problems through cognitive therapy", do psiquiatra Aaron T. Beck.

Texto: Carlos Eugénio Augusto

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