«Eu não desisti», assegura. O seu percurso confirma-o. Sofia Lisboa vivia uma existência tranquila depois da euforia que a banda de Leiria gerou no seu auge. Tinha tudo o que desejava. Um marido, um emprego e, em breve teria, também, um bebé. Mas, numa tarde de domingo, o mundo da vocalista dos Silence 4 desabou quando lhe foi diagnosticada leucemia. Esperava-a uma longa e dura batalha, que venceu! «No dia 19 de setembro, num magnífico domingo que encerrava o verão de 2010, atendi o telemóvel e a minha vida mudou. Havia qualquer coisa de errado nas minhas análises, informou-me a médica», recorda.

Mais de 24 horas depois daquele telefonema, o horror recebeu o nome que lhe era devido. Leucemia linfoblástica aguda, um cancro no sangue que se caracteriza pelo aumento descontrolado dos glóbulos brancos. «No meu caso, estava associado à mutação de um cromossoma, condição a que os médicos chamam Filadélfia positivo, o que torna a doença ainda mais grave. Tinha 33 anos e estava grávida de 14 semanas», desabafaria no final de 2014 no livro «Nunca desistas de viver», escrito com a ajuda de Natália Heleno Pereira e editado pela Lua de Papel.

A dor atroz

A dor que sentiu não poderia ter sido mais atroz. «Tinha de começar imediatamente os tratamentos e o bebé não era viável. Antes da luta no Instituto Português de Oncologia de Lisboa (IPO), esperava-me a ida à maternidade, de onde ia sair sem qualquer criança nos braços… Já tinha tomado a medicação, para facilitar a intervenção cirúrgica de interrupção. A dada altura, senti dores atrozes. O Pedro [marido] chamou uma enfermeira, que assim que chegou fechou as cortinas em torno da cama e permaneceu ao meu lado, deixando-o do lado de fora», relembra.

«De repente, um som frio no metal. Depois, o silêncio. Um silêncio sepulcral que substituía o som do choro da vida. Na minha alma abriu-se uma ferida que nunca mais sarou», assume a cantora. «Fui internada na unidade de hematologia do IPO. Era essencial diminuir a percentagem de células cancerígenas, que já tinha aumentado bastante em poucos dias. Para isso, tinha de iniciar os tratamentos de quimioterapia o mais depressa possível e, com eles, viria a inevitável queda de cabelo», afirma.

O internamento

Internada, os seus dias passavam-se sem grande história. «Conversava, lia tudo o que pudesse afastar os pensamentos negativos e procurava dormir, para o tempo passar mais depressa. Estava constantemente a fazer exames ou a receber algum tipo de tratamento. Todo o meu corpo era controlado milimetricamente pela equipa médica. Tendo leucemia, as células que estavam doentes eram aquelas que, anteriormente, me protegiam dos perigos do mundo. O primeiro passo foi destruir o meu sistema imunitário, que, em seguida e se tudo corresse bem, seria substituído através de um transplante», explica Sofia Lisboa.

Veja na página seguinte: O segundo ciclo do tratamento de quimioterapia

O segundo ciclo do tratamento de quimioterapia

A partir do segundo ciclo, a quimioterapia começou a ser também ministrada por punção lombar, sendo a seringa colocada diretamente entre as vértebras. «Este procedimento obrigava-me a ficar imóvel durante quatro horas e causava-me dores de cabeça atrozes», recorda. «Mais fácil de suportar era a dor causada pelos medulogramas [o exame que permite fazer a contagem diferencial dos elementos celulares da medula óssea], que exigem que se perfure o osso e é invasivo. No entanto, a anestesia é de tal forma poderosa que a dor desaparece rapidamente», assegura.

«O meu corpo reagiu sempre da melhor forma ao tratamento e entrei em remissão molecular, isto é, as células cancerígenas diminuíram. Tudo indicava que, dentro de alguns meses, seria possível fazer o transplante», refere ainda. «A 21 de outubro, soube que tinha um dador compatível, a minha irmã. Um transplante de medula parece algo mais simples, mais próximo da transfusão de sangue. Esta perceção, certa da perspetiva do doador, é extremamente enganadora da perspetiva do recetor. O que recebemos não traz a proteção do doador, é antes um terreno neutro, de onde podemos recomeçar do zero», considera a cantora.

«No dia 10 de maio de 2011, dia do transplante, renasci. Passei a ter duas datas de aniversário. Uma assinalando o dia do meu nascimento e a outra marcando o dia em que escapei da morte quase certa. De facto, faz todo o sentido que o dia do transplante, o dia zero, como lhe chamam os médicos, seja encarado desta forma, pois os transplantados são frágeis como bebés, talvez ainda mais, pois os bebés podem abraçar o mundo de imediato e nós não. Com o sistema imunitário de um bebé recém-nascido, deveria integrar-me na sociedade de forma progressiva, para que o meu fragilizado organismo se pudesse adaptar às agruras e crueldades do mundo», diz.

A segunda batalha

Depois de toda a caminhada já realizasa, o pior ainda estava para vir. Literalmente! «Um dos efeitos secundários mais previsíveis de um transplante de medula óssea é uma condição à qual se chama doença do enxerto contra o hospedeiro, uma reação do corpo ao material genético que lhe é estranho. Esta condição é desejável para os transplantados, pois é reflexo de um transplante bem-sucedido. No entanto, caso se manifeste de forma demasiado agressiva pode ser fatal ou transformar- se numa doença crónica», esclarece Sofia Lisboa.

«No meu caso, começou a manifestar-se logo após o transplante, mas foi passado mais de um ano que tomou completamente conta do meu corpo. Começou com uma dor insistente no joelho que se estendeu ao resto do corpo. Em pouco tempo, perdi a mobilidade, não conseguia mexer-me, não podia caminhar ou alimentar-me pelas minhas próprias mãos, fiquei paralisada, cheia de dores, que pioravam com o aumento de peso, provocado pelas doses bárbaras de cortisona que era necessário tomar. Eu, Sofia Lisboa, com 35 anos de idade, antiga vocalista dos Silence 4, antiga professora de fitness, estava completamente irreconhecível», desabada.

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O ponto de viragem na vida de Sofia Lisboa

Lidar com a sua imagem e com a sua nova condição foi tudo menos fácil. «Dei por mim com mais 25 quilos, deitada numa cama, sem me poder mexer, coberta de pelo, a usar fralda, a ser alimentada», recorda. «Num corpo que não me pertencia e que só me trazia sofrimento, começava a sentir o peso da inutilidade da minha vida. Era um fardo para a minha família, tinha dores lancinantes, nada fazia qualquer sentido, existia apenas para sofrer. Estava deitada na cama, em casa, sem me poder levantar», refere.

«Saía de casa numa cadeira de rodas, apenas para ir a consultas ou para receber tratamento no IPO. Era uma existência, mas não era uma vida. A ideia de desistir e partir passava-me recorrentemente pela cabeça. Comecei a melhorar, a recuperar a capacidade de me mover. Um dia, a minha paciência foi recompensada. Consegui levantar-me sozinha», conta. Nesse exato momento, pensou «Agora, já ninguém me pára!», revela. «Como os bebés que dão o primeiro passo, não iria descansar enquanto não conseguisse correr. Estava ávida de vida», afiança.

O poder da música

No meio de todo o sofrimento, nem tudo foi mau. «Três anos depois do telefonema que dividiu a minha vida em dois, a segunda vida estava prestes a começar e eu tinha um plano. Num momento de profunda incerteza, o David [Fonseca] prometeu-me que iria reunir os Silence 4. Estava na altura de lhe telefonar e lançar o desafio», relata. «Vamos fazê-lo?», perguntou. A resposta não podia ter sido mais convicta. «O dia 5 de abril de 2014 foi o dia do grande concerto em Lisboa. Na fase mais negra da minha doença pensei em morrer», confessaria mais tarde.

«Naquela noite, estava com a minha irmã e pedi-lhe para me deixar partir», afirma. Ao som da canção «Invincible», dos Muse, ela pediu-lhe que acreditasse que o seu espírito era invencível. «Quando acabei de a cantar no concerto, vi que a minha irmã tinha sido trazida ao palco. Abraçámo-nos. Foi um momento emotivo que deixou 18 mil pessoas em silêncio, transformando os Silence 4 em Silence 18 mil. Éramos todos uma só alma», acredita Sofia Lisboa.

Guia de sobrevivência

No livro que publicou, «Nunca desistas de viver», Sofia Lisboa partilha alguns conselhos úteis que a fizeram ganhar a batalha contra a doença. Estes são alguns dos ensinamentos que quem sofre desta patologia deve ter em conta:

- Chore toda a tristeza.
- Seque as lágrimas e acredite que vai conseguir.
- Conheça o seu inimigo. Interesse-se pela doença e pelas diversas curas. Vale tudo!
- Encontre estratégias complementares para melhorar a sua saúde.
- Mantenha a mente ocupada.
- Mexa-se.
- Relativize a opinião dos outros.
- Partilhe o que lhe vai na alma e peça ajuda, quando necessário.
- Não perca a humanidade.
- Perdoe-se.
- Quebre todas as regras.

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