Quem sofre do distúrbio do sistema digestivo, a Síndrome do Intestino Irritável (SII), sabe como um alimento “inofensivo” pode desencadear mal-estar, com distensão abdominal, entre outros transtornos. Joana Oliveira, autora do livro “Dieta Low FODMAP” (edição Nascente), sentiu durante anos no corpo o incómodo da SII. Por indicação médica, Joana passou a seguir a dieta low FODMAP. Uma abordagem à alimentação que mudou a vida da também autora do blogue “My Gut Feeling”.

Com a colaboração da nutricionista Sandra Rosmaninho Almeida, a autora apresenta no seu livro de estreia um regime alimentar que restringe o consumo de um grupo de hidratos de carbono, os FODMAP. Ervilha, farinha de centeio, massa de trigo, algumas carnes processadas, café com leite, maçã, bebidas de soja, iogurtes com lactose, entre outros, saíram do elenco de alimentos da dieta diária de Joana Oliveira.

Uma dieta que, no entanto, não é para a vida, como esclarece a docente e formadora, antes um regime alimentar temporário, com princípio, meio e fim.

Uma dieta que implica a adaptação da forma como se cozinha, encontrando alternativas aos alimentos não consentidos. No fundo trata-se de contrariar uma doença complexa, difícil de diagnosticar, embora comum, “atingindo cerca de 10% da população portuguesa”, sublinha Joana Oliveira.

Dieta low FODMAP, um salva-vidas no mar revolto dos distúrbios digestivos
Joana Oliveira, autora do livro “Dieta Low FODMAP”. créditos: Editora Nascente

O seu livro nasce de uma história pessoal que a levou a alterar a sua alimentação. Quer, sucintamente, partilhá-la com os leitores?

Sim, tudo começou em 2013 com uma intoxicação alimentar. Estive muito doente durante um ano até ser diagnosticada com a Síndrome do Intestino Irritável Pós-Infeciosa (SII). Por indicação médica, foi-me sugerida a dieta low FODMAP e foi aí que comecei a recuperar. Foi a minha tábua de salvação. Contribuiu para voltar a ter uma vida normal no que respeita ao peso e energia, e permitiu controlar melhor os meus sintomas de SII. Depois achei importante partilhar a minha experiência e foi assim que nasceu o blogue “My Gut Feeling” e agora o livro.

FODMAP é um acrónimo. Quer explicar-nos do que falamos e que grupo de alimentos restringe esta dieta?

FODMAP é o acrónimo inglês de Oligossacarídeos, Dissacarídeos, Monossacarídeos e Polióis Fermentáveis e são hidratos de carbono que são mal absorvidos pelo nosso intestino. Encontram-se numa grande variedade de alimentos e ao consumi-los as pessoas que têm problemas do foro digestivo, passam a ter sintomas gastrointestinais desagradáveis. Ao reduzir o seu consumo, conseguem controlar melhor as crises e melhorar a qualidade de vida.

Os FODMAP dividem-se assim em cinco grandes grupos. Temos os Oligossacarídeos dos quais fazem parte os frutanos e GOS, que estão presentes no trigo, centeio, alho, cebola, entre outros; os Dissacarídeos ou lactose presente nos produtos lácteos; Monossacarídeos ou frutose, presente na maçã, pera, mel, entre outros e, por fim, os Polióis sorbitol e manitol que podemos encontrar por exemplo, no pêssego ou na couve-flor.

FODMAP é o acrónimo inglês de Oligossacarídeos, Dissacarídeos, Monossacarídeos e Polióis Fermentáveis e são hidratos de carbono que são mal absorvidos pelo nosso intestino.

O que há em comum entre estes alimentos?

Estes alimentos estão agrupados por tipo de FODMAP e têm em comum o facto de poderem provocar sintomas variáveis de pessoa para pessoa. Ou seja, nem todos somos intolerantes ao mesmo grupo de FODMAP e para o compreender, testamos cada grupo de alimentos individualmente para perceber a nossa reação a cada. Ou seja, se provoca ou não sintomas. Se tolerarmos, passamos a poder comer de novo todos os alimentos desse grupo específico.

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créditos: Nica Cn/Unsplash

Curiosamente encontramos nos alimentos proibidos, por exemplo, frutas, legumes, vegetais e leguminosas, que consideramos essenciais a uma alimentação equilibrada. Quer comentar?

Sim, é verdade. Porém, uma das características mais importantes desta dieta é o facto de ser temporária. Deve ser vista como um tratamento com princípio, meio e fim e não é de todo uma dieta para a vida. A fase de restrição de todos os FODMAP dura aproximadamente um mês e é seguida de uma reintrodução gradual por cada grupo, como falei em cima. Desta forma minimizamos possíveis carências ou desequilíbrios.

Considerando que se trata de uma dieta que suprime um grupo de alimentos de que forma os substitui?

A nível nutricional, não é difícil encontrar alternativas. O pior é mesmo o sabor. Dou um exemplo. Se não podemos comer maçã durante um mês, podemos substitui-la por outra fruta low FODMAP como laranja ou papaia, mas se queremos fazer uma tarte de maçã, é impossível. Temos de esperar que os testes de reintrodução nos digam se podemos ou não voltar a comer maçã.

É fácil identificar os sintomas da Síndrome do Intestino Irritável? Quais são genericamente?

A Síndrome do Intestino Irritável é uma doença complexa, difícil de diagnosticar, mas que, infelizmente, é muito comum, atingindo cerca de 10% da população portuguesa. Os sintomas mais comuns são dor abdominal, trânsito intestinal alterado, gases e ventre inchado.

A Síndrome do Intestino Irritável é uma doença complexa, difícil de diagnosticar, mas que, infelizmente, é muito comum, atingindo cerca de 10% da população portuguesa.

A dieta low FODMAP é apenas indicada a quem sofre de Síndrome do Intestino Irritável ou trata-se de uma abordagem à alimentação saudável a seguir por todos nós?

A dieta low FODMAP é indicada para as pessoas com Síndrome do Intestino Irritável e, com pequenas adaptações, para quem sofre de outras patologias como a Doença Inflamatória do Intestino, SIBO e endometriose. A dieta low FODMAP não deve por isso ser vista como uma abordagem saudável, mas sim como um tratamento específico para as doenças que referi.

Dieta low FODMAP, um salva-vidas no mar revolto dos distúrbios digestivos
créditos: Editora Nascente

É uma dieta indicada para todas as idades?

Sim, embora em crianças e adolescentes e nalguns casos específicos se faça uma versão simplificada da dieta.

É aconselhável consultar um médico antes de iniciar a dieta?

Acho fundamental. O problema é o desconhecimento que ainda há sobre esta dieta. Felizmente já há muitos gastrenterologistas e nutricionistas no país a par desta nova abordagem e que prescrevem a dieta low FODMAP como tratamento aos seus pacientes.

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créditos: Guillaume Lobet/Unsplash

Ainda sobre a dieta low FODMAP, esta deve de ser acompanhada de uma mudança de estilo de vida?

Eu diria que controlar a Síndrome do Intestino Irritável passa também por fazer algumas mudanças no estilo de vida. Reduzir o stress e fazer algum desporto podem ser também formas de lidar melhor com esta doença.

A low FODMAP obriga a uma grande alteração na forma como cozinhamos?

Sim, principalmente na primeira fase da dieta. Começa com termos de arranjar alternativas ao pão, massa e doces à base de trigo até aprender novas formas de cozinhar sem alho nem cebola (FODMAP frutanos). Depois é tudo uma questão de hábito. E garanto que muita gente nem nota a diferença depois de provar os pratos low FODMAP.

Quer dar-nos alguns exemplos de receitas? O seu livro apresenta-nos 50 propostas.

Os Bolos de arroz são uma das receitas favoritas do blogue e uma forma de voltarmos a comer este doce tão tipicamente português mesmo com restrições. É um exemplo de uma receita que provavelmente nunca faríamos em casa, mas que é simples de fazer e fica idêntica à original. Com a vantagem de ser mais fácil de digerir.

O meu Taboulé de quinoa, é uma receita fresca e muito nutritiva que pode servir de refeição ligeira ou de acompanhamento de carnes grelhadas.

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