16 de junho de 2014 - 16h01
Os dois novos médicos anunciados para o Centro de Saúde de Mozelos, na Feira, não entraram hoje ao serviço, o que motivou o protesto dos cerca de 100 populares que aí se encontravam para se certificarem da sua chegada.
As críticas ao funcionamento da unidade arrastam-se há dois anos e tiveram o seu ponto alto durante a manifestação da semana passada, em que a população criticou que só haja um médico para os cerca de 5.000 utentes da freguesia.
A acusação é da porta-voz dos manifestantes, Maria Ribeiro, que realça que esse médico e ex-autarca, Jorge Ferreira, "até ia hoje de férias sem se preocupar com ninguém e só ficou a trabalhar porque o atual presidente da Junta lhe pediu para ficar".
"Estes médicos não são humanos", defende a protestante. "Não têm amor ao próximo, só pensam em política e em dinheiro, e deixam-nos nesta agonia, sem se preocuparem com ninguém", acrescenta.
As situações que motivam críticas ao médico são várias. Irene Amorim conta que já teve duas tromboses e precisa de fisioterapia à coluna, mas continua sem tratamentos marcados e, quando disse ao médico que a medicação receitada pelo hospital lhe estava a fazer mal, "ele não quis saber".
Lúcia Ribeiro, por sua vez, relata o caso de um utente que, precisando de medicação urgente para as dores na coluna e não a obtendo no centro de saúde, "chegou a um ponto em que já não aguentava mais, teve que dar 50 euros para comprar o medicamento na farmácia sem receita e agora anda a viver de esmola".
Ana Paula Pereira tem cancro da mama, diabetes também e diz: "Estou há oito dias sem tomar medicação porque ninguém ma passa. Como é que o médico passa receita a um e não passa aos outros?".
Esperas de doentes em situação urgente duram meses 
Olinda Castro teve um AVC há 13 anos, está com o colesterol em 270, tem 70% da veia carótida obstruída e precisava de lhe fazer o exame anual em maio, mas continua à espera da credencial para o realizar a um laboratório próprio. "Estou desempregada e não posso pagar o exame por fora", revela. "Portanto um dia destes morro e pronto! Sou mais uma", desabafa.

Alzira Santos defende que todo o comportamento do médico é "uma vergonha". "Basta ver o horário de trabalho dele no computador e vê-se que ele não faz sequer oito horas por semana", afirma. "Chega às 08:00, às 09:00 vai-se embora para trabalhar nas fábricas e não atende ninguém só porque não quer", garante.
"Foi ele o culpado disto tudo e anda a ver se nos obriga a ir para a clínica dele", acrescenta a mesma utente.
Contactado pela Lusa através da rececionista do Centro de Saúde, Jorge Ferreira mandou dizer que "não tem nada a declarar".

Utentes conta a Junta
Os utentes criticam também a Junta de Freguesia por estar "mais interessada na política do que nos interesses do povo".
Maria Ribeiro, porta-voz dos cerca de 100 manifestantes, afirma que José Carlos Silva, que preside à Junta como sucessor do único clínico atualmente em funções no Centro de Saúde, "está mais preocupado com o médico, que é amigo dele da política, do que em resolver os problemas do povo".
José Carlos Silva rejeita as acusações e esclarece que age em boa-fé: "Eu tenho uma carta da ARS Norte [Administração Regional de Saúde] a anunciar dois médicos novos para o centro de saúde na primeira quinzena de junho e, por princípio, a gente tem que acreditar no que nos dizem".
Considerando que os referidos clínicos não entraram ao serviço hoje de manhã, como foi anunciado, o presidente da Junta diz que só agora teve efetivas "razões para duvidar" do que lhe foi prometido. Ainda durante a manhã, já procurou obter um esclarecimento sobre a situação por parte da ARS, mas informa que "está-se sempre a ligar para lá e eles não respondem".

Por SAPO Saúde com Lusa

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