O país atravessa um dos problemas mais graves de sempre: a suspensão da Primeira Liga de Futebol. O Covid também é um problema, atenção, mas há que priorizar as coisas. Calma, não é problema para os adeptos. O problema é político. O futebol, se existe para gáudio do público, também serve, de grosso modo, para ajudar a dissimular coisas importantes. Sinto falta do aumento do combustível antes de uma final importante ou do aumento de um imposto nos momentos anteriores a um clássico. Ando muito mais a par de tudo e isso é o que me assusta. O número de infectados já soa mais a número de pessoas e o preço do combustível já faz mossa na conta. Na minha terra, numa altura em que o futebol era um desporto que acontecia, havia um senhor para quem o combustível nunca aumentava. “Ponho sempre 5 euros”, dizia. É por senhores como esse que a Primeira Liga já tem data para o seu regresso.

Um país sem futebol e sem festas torna-se entediado, mais atento e ninguém quer isso. Por isso é que o PCP está a tentar fazer a sua parte. Numa altura em que os festivais estão proibidos até 30 de Setembro, o PCP mantém a celebração do Avante. Por razões óbvias, porque o Avante não é um festival, mas sim uma grande realização político-cultural. Aliás, eu nunca ouvi ninguém dizer que comprou bilhete para ir ver Xutos. Ouvi, sim, dizerem que vão ouvir o Jerónimo e, por acaso, há lá uma ou outra banda que, por acaso, é conhecida e que, por acaso, movimenta multidões. Por acaso, lá calhou. E a vida, por acaso, não é feita desses felizes acasos?

Estou a pensar celebrar os meus anos em comício. (...) Por acaso, até vou cobrar um valor à entrada, mas não o faço por questões monetárias. É só porque o jantar não se paga sozinho

Analisando a forma de contágio, tudo me leva a crer que o Coronavírus é comunista. O seu contágio demonstra-nos que está no mundo sob a premissa de uma sociedade igualitária e afecta todos, sem olhar a classes sociais. Daí este à-vontade do PCP em manter a celebração, porque entende os ideais do vírus. O partido diz não haver nenhum drama em cancelar o Avante, mas dá a ideia de que, se não cancelar, também não há drama nenhum. Refere que não tem uma “posição fechada” sobre a sua realização, mas que “os comunistas portugueses são muito criativos”, o que aliás se tem visto no perpetuar da história. Dizem, também, que não é por uma questão monetária que querem realizar o festival, perdão: o evento político-cultural. O que é certo é que cobram bilhetes na mesma, possivelmente em prol da igualdade. Mas dos anos anteriores, nos quais se encheram igualmente os cofres.

Por acaso, até já estou a pensar celebrar os meus anos em comício. Junto os meus amigos, porque somos todos do mesmo partido a comer e a beber. Vamos discutir os ideais de um bom churrasco e trocar ideias sobre a playlist do Spotify. Por acaso, até vou cobrar um valor à entrada, mas não o faço por questões monetárias. É só porque o jantar não se paga sozinho.

A ministra da Saúde, Marta Temido, já veio dizer que a Direcção-Geral da Saúde (DGS) definirá “oportunamente” regras para a Festa do Avante, pelo que, se calhar, também aguardo indicações mais precisas para a minha festa de anos.

Há sempre a hipótese dos camaradas seguirem a ideia peregrina de Karl Marx, que não vai marcar presença por se encontrar em confinamento.

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