Hoje decidi que ando desiludido com os meus amigos. Talvez com a amizade em geral e, por conseguinte, também estou desiludido com os vossos amigos. Foi uma decisão ponderada, não a tomei de cabeça quente. É que isto de ter escrúpulos tem sido uma canseira e uma barreira à minha progressão na vida.

Olhando para Sócrates a sair do tribunal, percebo que é um homem feliz. O problema é este país que só prende inocentes, porque atentemos que não é o primeiro injustiçado. Sócrates é uma pessoa esquecida e nós não respeitamos a sua patologia. Apesar de já existir medicação para a perda de memória, se ele não a tem, parece-me lógico que se esqueça de a tomar. E as coisas pioram, claro. Por isso é que, só agora (numa fase avançada do processo), se lembrou pela primeira vez que a mãe herdou um milhão de contos do avô. Um valor completamente esquecido pelo antigo primeiro-ministro, como aquela nota de 5 euros que nos esquecemos no bolso das calças e deixamos ir à máquina. Ao que parece, este milhão de contos estaria guardado num cofre. Agora imaginem a trabalheira que o engenheiro tinha cada vez que queria ir ao pão: abrir o cofre, tirar mil escudos, ir ao Banco de Portugal para trocar em euros e, só aí, é que podia fazer negócio com a indústria da panificação. Depois desta trabalheira toda, desconfiarem do menino é só uma enorme falta de respeito pela doença.

Lembro-me de os meus avós me darem umas moeditas quando eu ia de férias, refugiando-se na expressão "é para comeres um gelado" ou num "não gastes tudo em doces", tentando apelar à gestão sensata de meia dúzia de tostões. A Sócrates acontecia o mesmo, com a diferença de que a sua mãe lhe dava sempre dez mil euros quando ia de férias. Não sei o preço da Haagen-Dazs nessa altura, mas temo que o ex-primeiro ministro esteja diabético.

A sorte é que ele tem bons amigos, não é como eu. Consta-se que ganhava 15 mil euros por mês (valor que já obriga a um esforço mensal tremendo e a cortar em restaurantes e gastos supérfluos), mas gastava 22 mil, no tempo em que estava em Paris. Valeu-lhe a amizade verdadeira de Carlos Santos Silva que lhe emprestava 7 mil euros por mês, mais a ajuda da mamã, para os gelados. Isto sim é amizade verdadeira, isto sim é conceito de família. Pessoas que dão sem querer nada em troca. Está cada vez menos em voga na sociedade actual. Talvez contribua para este facto o valor dos ordenados estar mais alto e as coisas estarem todas mais caras, talvez. Mas só talvez, caramba.

Se a mãe tiver o mesmo feitio do filho, deve ter o dinheiro guardado no cofre em moedas de um cêntimo, para importunar as pessoas quando for trocar o dinheiro e sair de lá com a mesma cara feliz com que o filho sai do tribunal. Com aquela sensação de dever cumprido, por ter chateado meio mundo e sair impune.

Sócrates mantém-se alheio a preocupações porque sabe que ser preso é campanha eleitoral. Quando for Presidente da República, ao menos já sabemos que os cofres estão cheios, quanto mais não seja o dele. Se nos faltar, não precisamos de chamar a Troika: pedimos ajuda a um país amigo, uns trocos para os gelados ou então esperamos que o país faleça para lhe podermos cobrar a herança.

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