9 de dezembro de 2013 - 17h20

A partir de 2014, vai ser autorizada a introdução dos aditivos químicos conhecidos como polifosfatos no bacalhau, uma decisão que os comerciantes especializados contestam, mas que é praticamente desconhecida pelos consumidores.

O uso de polifosfatos, um aditivo que retém a humidade e torna o peixe mais branco foi proposto pela Noruega, Dinamarca e Islândia e obteve luz verde da Comissão Europeia em julho, após uma discussão que durou mais de um ano.

A Associação dos Industriais do Bacalhau mostrou-se frontalmente contra esta possibilidade desde o início, por comprometer a cura tradicional do bacalhau e implicar um agravamento dos custos, e mobilizou o Governo português para o problema.

Mas, apesar da oposição inicial, o Governo português acabou por dar um voto favorável à proposta.

Hoje mesmo, a ministra da Agricultura e Mar, Assunção Cristas, mostrou-se convicta de que o bacalhau destinado a Portugal ficará isento de polifosfatos, face às medidas protetoras específicas para o bacalhau português entretanto incluídas na proposta, e assinou um acordo com a Noruega que reforça estas garantias em termos de rotulagem.

Mesmo assim os comerciantes não estão satisfeitos.

Rui Bértolo, há 20 anos na Pérola do Arsenal, uma das poucas lojas especializadas neste comércio que restam na Rua do Arsenal, em Lisboa, acha que os polifosfatos “vão fazer diferença”, mas garante que na “sua casa” este tipo de produto não tem lugar.

“Enquanto eu for responsável pelo bacalhau não irá entrar aqui nesta casa nenhum bacalhau com fosfatos”, frisou acrescentando, que estes aditivos, “estragam a qualidade” do peixe.

“Nós estamos habituados a comer o bacalhau salgado verde, bem
curado, no mínimo com três meses de cura, e sem humidade. Estamos a
comprar bacalhau, não estamos a comprar água”, salientou o comerciante.

Emília
Oliveira é cliente habitual deste estabelecimento e repetiu a tradição
este ano: “adoro o bacalhau daqui, não compro em supermercado, acho que
este é melhor”.

Das novas regras europeias relativas aos
polifosfatos ouviu falar “vagamente”, mas não acredita que o bacalhau,
tal como é consumido em Portugal, possa estar em causa.“Não acredito,
porque é uma tradição portuguesa”, enfatizou.

Também Maria de
Jesus Lança, que escolheu a “Pérola” para comprar bacalhau este ano,
pela primeira vez, procurando uma qualidade que diz não ter encontrado
nos supermercados, se mostrou surpreendida com os polifosfatos:
“Desconheço”, confessou.

Paulo Resende, que vai todos os anos ao
“Rei do Bacalhau” comprar o dito, também nunca ouviu falar dos fosfatos,
embora se assuma como apreciador da iguaria, sobretudo das “caras” com
que encheu três pesados sacos.

Nesta outra loja tradicional da
Rua do Arsenal são os 30 anos de experiência de Fernando Dias que
suportam uma opinião crítica sobre os aditivos químicos: “se estamos bem
não temos de mudar. Se nós consumimos assim durante estes anos todos
porque é que vamos mudar?”, questionou.

Apesar de tudo, o comerciante acredita que o consumidor português vai poder continuar a saborear o bacalhau de cura tradicional.

“Se
o bacalhau for seco cá, não são introduzidos os fosfatos, quanto ao que
for importado já seco, temos de acreditar na palavra das pessoas, não
é?”, comentou.

Quanto aos clientes, poucos são os que o questionam sobre os polifosfatos.

“Há
um ou outro que procura [saber] se já é bacalhau com fosfatos, mas eu
digo que não, que é seco aqui e fica por ali a conversa. Penso que muita
gente nem tem conhecimento disto”, considerou o especialista de “O Rei
do Bacalhau”.

Lusa

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