“Primeiro senti-me culpado (…) se tivesse chegado 10 minutos mais cedo…”

“Devia ter percebido”

“Penso e não chego a lado nenhum…não consigo perceber porque é que o fez!”

“E se…?”, “Devia”, “Porquê?” são interrogações que não sendo estranhas aos processos de luto, ganham contornos particulares quando a perda por morte resulta de um suicídio.

Entre muitos outros desafios, impõe-se o de dar um sentido à perda nestas circunstâncias que podem comprometer de forma muito significativa o processo de luto.

Marcado por estigma e tabus, o suicídio é com frequência percecionado como uma morte confusa, com causas complexas, multideterminadas e mal compreendidas. Um efeito comum do suicídio é que este desencadeia um processo de luto exigente para quem fica e por esse motivo falar sobre suicídio não é apenas focar a atenção na pessoa que cometeu suicídio, mas também naqueles que após a exposição direta ou indireta a um suicídio de um conhecido, ou mesmo de um desconhecido, vivenciam um longo e intenso percurso de sofrimento psicológico, físico ou social.

Se por um lado o suicídio pode marcar o fim de uma dor psicológica insuportável para quem o comete, este é também o começo de um percurso de sofrimento intenso para os enlutados. Estas pessoas (que são tantas vezes esquecidas e, tantas outras, invisíveis), são habitualmente designadas na literatura de sobreviventes.

E os enlutados? (que são tantas vezes esquecidos e, tantas outras, invisíveis)

Estima-se que por cada suicídio sejam afetadas cerca de 100 pessoas, direta ou indiretamente, sendo que 6 delas são afetadas de forma profunda. Perante estes números, fica clara a importância e urgência de prestar atenção às necessidades específicas destas pessoas que, muitas vezes, por diversos motivos, se sentem muito sós neste longo percurso.

Os sobreviventes enfrentam desafios únicos de caráter pessoal e social, encontrando-se, habitualmente, em risco elevado de desenvolver sintomatologia depressiva, ansiosa (nomeadamente, perturbação de pós-stress traumático), ideação com concretização do próprio suicídio, elevada propensão para comportamentos de risco como abuso de álcool e outras substâncias e, ainda, elevada probabilidade de repetição de comportamentos suicidários (uma das consequências mais severas decorrentes da exposição ao suicídio).

Sabe-se ainda que, comparando com processos que resultam de outras circunstâncias de morte, da morte por suicídio decorre uma experiência de luto mais complexa e intensa, impondo-se diversos desafios singulares - seja porque induz sentimentos mais frequentes de responsabilidade sobre a morte, reações mais intensas de dor, seja porque acarreta maior vergonha e estigmatização.

É frequente a necessidade de encontrar e perceber as razões da morte, o que leva a que o foco da atenção seja tudo o que a possa explicar (“Será que tinha dívidas que eu desconhecia?”, “Será que tinha algum problema grave com alguém e nunca me disse?”, “Será que estava com uma doença grave e me escondeu este tempo todo? (…) vou falar com o médico dele, com o contabilista e todos os amigos que eu conheço para perceber se sabiam ou se se aperceberam de alguma coisa”).

A procura de justificação para o suicídio, a par do estigma social são dois elementos diferenciadores do processo de luto por suicídio de outros tipos de morte. A morte de alguém por suicídio é muitas vezes sentida como uma experiência à qual não se consegue atribuir sentido, podendo ser tão avassaladora que a pessoa sente que não é nem será capaz de gerir tanto sofrimento.

Não raras vezes persiste um sentimento de zanga para com o falecido (“Como é que foi capaz de me fazer isto e agora deixar-me com tudo para resolver e filhos para criar?!”). Comum é também a culpabilização em relação ao que fez ou não se fez, sendo esta morte voluntária percecionada como evitável, que desafia a razão, contraria a lógica e que se traduz em choque com consequências trágicas.

Para outras pessoas a morte é percecionada como resultado de uma escolha e para estas parece ser mais fácil integrar a perda.

Outras reconhecem ainda o peso de um dos principais fatores de risco para a morte por suicídio – a presença de uma doença mental. Importa ter presente que este fenómeno resulta da interação de um conjunto de fatores e não apenas de um único fator isolado.

A culpa, a vergonha e o estigma frequentemente sentidas por sobreviventes, são acompanhados da necessidade de esconder a causa da morte por medo desta ser percecionada como passível de ter sido evitada pelas pessoas próximas.

Desta forma, acreditando que vão ser julgados, os sobreviventes tendem a afastar-se das interações sociais. Também é frequente que o apoio das pessoas mais significativas não aconteça na frequência e na forma como se precisa; reclama-se frequentemente em silêncio a necessidade de poderem falar sobre a pessoa que faleceu sem julgamentos, sem vergonha, sem medo de acusações, sem medo do desconforto causado no outro.

Estas necessidades encerram-se numa profunda solidão que molda a forma como muitos sobreviventes sentem e vivem a perda.

Não saber o que dizer a estas pessoas faz com que os silêncios se instalem como se não falar sobre o assunto fosse a medida da superação pessoal e familiar.

O processo de luto destas pessoas está envolto em tabus, estigma, preconceitos e falta de informação, factos que podem ter impacto negativo na saúde mental dos que ficam, sendo inegável a importância dos profissionais de saúde mental no apoio aos sobreviventes.

De forma mais generalizada, é fundamental desenvolver ações que promovam o combate ao estigma associado ao suicídio e à doença mental para que todos, dentro dos nossos papéis, possamos ter as ferramentas para apoiar, sinalizar e encaminhar.

Autoria: Margarida Teixeira - Psicóloga Clínica

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