O conceito de narcisismo provém da mitologia grega e da narração da história do jovem Narciso que se apaixonou por si mesmo quando a sua imagem foi refletida na água. Numa primeira análise poder-se-á entender o narcisista como alguém com amor próprio e, por conseguinte, revestido de uma caraterística de personalidade desejável por qualquer pessoa.

O conceito de amor próprio adequado envolve a construção subjetiva que a pessoa faz de si e é considerado um importante indicador de saúde mental, também relacionado com o sentimento de autoconfiança e segurança, por conseguinte, essencial na formação de um ser emocionalmente equilibrado. 

As 10 características mais comuns dos psicopatas
As 10 características mais comuns dos psicopatas
Ver artigo

Segundo o psicólogo Craig Malkin, o narcisismo “é a capacidade de nos vermos a nós mesmos e aos outros através de óculos cor-de-rosa”. Por conseguinte, determinado grau de narcisismo faz-nos bem e é fundamental.

No entanto, diferentemente da história mitológica, quando nos referimos a alguém como sendo narcisista significa que essa pessoa, com significativas dificuldades na regulação da autoestima, apresenta uma perturbação da personalidade narcisista, com investimento exagerado na sua própria imagem e com comprometimento do amor próprio.

Grandiosidade e autoexaltação são as palavras que melhor definem o narcisista. Vê-se como superior, especial e único, e dono de um singular status que o eleva acima de todas as outras pessoas. Procura prestígio, poder, riqueza e posição para reforçar continuamente a sua imagem superior.

Paradoxalmente, por detrás das fantasias de sucesso e de supervalorização esconde inseguranças e sentimentos de inferioridade. Quando não tem o reconhecimento, a admiração ou a validação da sua magnificência, entristece, sente-se infeliz ou, mesmo, deprimido. Quando experiencia a frustração, é criticado ou vive situações de insucesso, facilmente desmorona. Baixos níveis de autoestima, autoimagem distorcida e instabilidade emocional fazem parte dos sentimentos que o perturba e que tenta ocultar.

No dia-a-dia com uma pessoa narcisista

Viver com um narcisista patológico não é tarefa fácil. Requer, inúmeras vezes, aceitar a manipulação, fazer cedências emocionais e comportamentais em prol de quem exige centralização em si próprio, no que são as suas necessidades, expetativas e desejos. Mas nem sempre terá sido assim: no início de uma relação, o narcísico deslumbra com a sua atenção e personalidade sedutora.  Contudo, e por fragilidade dessa estrutura, distancia-se desse funcionamento para se reencontrar com o seu verdadeiro Eu.

Uma onda gigantesca de desespero chamada depressão reativa
Uma onda gigantesca de desespero chamada depressão reativa
Ver artigo

Regra geral, quem vive num relacionamento estreito ou íntimo com alguém com esta perturbação sente que ama substancialmente mais do que é amado. Devido à (quase) ausência de empatia que caracteriza a pessoa com perturbação da personalidade narcisista, esta tem muita dificuldade em colocar-se no lugar do outro, de entender pontos de vista diferentes do seu, e de sentir a dor ou o sofrimento alheio. Os seus problemas e visão sobre tudo e todos devem merecer total atenção e predominam sobre o universo das suas relações.

Quando procurar ajuda para a pessoa narcisista?

Resumidamente, sempre que os traços de personalidade sejam de tal forma marcados e suficientes que preencham o diagnóstico de perturbação de personalidade, condicionando ou impedindo de ter qualidade de vida. Simultaneamente, quando acarreta impacto negativo nas relações intra e interpessoais, e sem que o narcisista ou quem com ele convive, encontrem estratégias eficazes para lidar com os sintomas e/ou com o sofrimento associado.

A realidade mostra-nos que, por norma, são as vítimas dos narcisistas que reconhecem (e bem, felizmente) a necessidade de acompanhamento psicológico, em resultado do sofrimento que têm e para sobreviverem à toxicidade da relação.

Procurar ajuda para o narcisismo patológico é, com certeza, uma atitude de narcisismo saudável e desejável.

As explicações são da psicóloga clínica Lina Raimundo.

Newsletter

Receba o melhor do SAPO Lifestyle diariamente no seu email.

Notificações

Os temas mais inspiradores e atuais estão nas notificações do SAPO Lifestyle.

Na sua rede favorita

Siga-nos na sua rede favorita.