Há uma história, carregada de lenda, contada e recontada na fria Islândia. Narra o feito do normando Leiv Eriksson, viajando por volta do ano mil da nossa Era, nos gelados mares do Atlântico setentrional. Leiv rumava para Ocidente. Ao fim de uma longa jornada terá alcançado o continente norte-americano. Aí, nos verdejantes territórios descobertos, um dos membros da sua tripulação terá reconhecido uma videira carregadas de uvas. Inspirado, batizou a nova região como Viland hot Goda, o que traduzindo significa, “o bom país rico em uvas”. Embora a história careça de algum fundamento e provas históricas certo é que a uva, o fruto da videira, desde há muito havia iniciado a sua expansão, pela mão humana, para diferentes latitudes.

A Uva tem uma história com muito sumo e nós contamo-la aqui

Traçar a história da uva, fruto de baga redonda ou alongada que se apresenta em tentadores cachos pendentes, significa acompanhar a epopeia da videira, da sua cultura em vinha, seja para o fabrico de vinho, seja para o consumo à mesa e gastronómico, ou para a produção de passas.

Da uva existem milhares de diferentes castas em todo o Mundo. Para o vinho em específico serão utilizadas perto de mil, pertencendo todas à mesma espécie, Vitis Vinífera, uma das muitas subespécies da família da videira.

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Na pré-histórica, a antepassada da nossa uva

Estima-se que há mais de dois milhões de anos que existem videiras em estado selvagem (Vitis Silvestris), sendo quase certo que as uvas constariam da dieta do homem do Paleolítico Superior há 60 000 anos apontando-se, inclusivamente, a possibilidade dos nossos antepassados terem observado fermentações espontâneas do fruto e saboreado o produto dai resultante. Investigadores encontraram montículos de grainhas na Síria, no Líbano e na Jordânia remontando à Idade da Pedra.

Estima-se que há mais de dois milhões de anos que existem videiras em estado selvagem.

Mais tarde, por alturas do Neolítico e da Idade do Bronze, as uvas parecem ter constituído parte da alimentação de povos que se instalaram na Europa Central e ocidental, nas margens do Mediterrâneo, no Sul do Cáucaso e no Próximo Oriente. As grainhas mais antigas provenientes de videiras cultivadas, encontradas em escavações arqueológicas na Geórgia, datam de sete a cinco mil anos a.C. A domesticação das videiras pode ter começado com o simples abrir de clareiras no mato que as rodeava. Cerca de cinco a quatro mil anos a.C. a vinha ter-se-á expandido em dois sentidos: da Geórgia e da Arménia para a Mesopotâmia, Síria, Palestina e Egipto, por um lado, e para a Anatólia, chegando ao Chipre e Creta, por outro.

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Na Mesopotâmia, vamos encontrar entre os Sumérios, a uva com uma função cerimonial sendo frequente a representação da uva na escrita pictográfica.

Na Anatólia, planalto na atual Turquia, os Hititas ornamentavam o Deus da fecundidade com cachos de uvas e na Palestina a vinha era uma cultura de grande tradição e antiguidade, assim como o foi no Egipto faraónico. A civilização que prosperou nas margens do rio Nilo foi um dos berços da viticultura. A vinha era, já na altura, cultivada em parreiras e não pareceria estranho, num olhar atual, o hábito dos egípcios de há mais de quatro mil anos pisarem as uvas ao som de canções, batendo animadamente palmas.

Na sua expansão para Leste, a videira atingiu a Índia na Idade do Bronze, há cerca de cinco mil anos.

Na sua expansão para Leste, a videira atingiu a Índia na Idade do Bronze, há cerca de cinco mil anos e terá chegado, levada por caravanas e campanhas militares, há cerca de dois mil anos, à China, país que conheceu, então, a viticultura. Desta nação a viticultura passou para o Japão há dez mil anos. A uva tomou ali o nome de budo, conhecendo uma grande expansão no século XII.

A uva na Antiguidade Clássica

Entre os antigos Gregos vamos encontrar a cultura da videira praticada com grande esmero e com selecção de castas. Hesíodo, em “Os Trabalhos e os Dias” faz o elogio das tarefas agrícolas e descreve alguns dos labores da vinha e do vinho, escrevendo que “enquanto o caracol sobe às plantas desde o solo (…) então já não é época de podar as vinhas”.

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Já entre os Romanos a cultura da vinha irá conhecer uma enorme expansão, a partir da Península Itálica, chegando a praticamente todos os territórios conquistados. Virgílio, na obra “Geórgias” preocupado com a agricultura, dá conselhos aos camponeses sobre a forma de tratar a vinha. Foram os romanos que iniciaram o estudo dos vinhos, criando as bases para a moderna enologia. Na Gália a cultura da videira generalizou-se no Sul e nas margens do Ródano no século I a.C. até que o édito de Domiciano, em 92 d.C., ordenou o arranque de metade das vinhas cultivadas na região, pois os vinhos concorriam com a produção romana. Contudo, em 280 d.C. o imperador Probo autorizou novamente a cultura da vinha, estendendo-se esta às regiões mais setentrionais do Império.

Ao que parece Gregos e Romanos sabiam secar as uvas, produzindo desta forma passas. Estas são provenientes de variedades muito doces de uvas de mesa selecionadas entre as que têm pouca grainha.

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A Uva também vista como remédio

Após a queda do Império Romano, em 476 d.C., e com os alvores da Idade Média na Europa, a vinha passou a ser cultivada no ambiente de recolhimento dos mosteiros beneditinos, clunicenses, cistercienses, entre outros, onde a leitura de obras eruditas romanas serviu de tábua de salvação à preservação dos ensinamentos sobre a cultura da vinha. Neste período da história as viagens eram difíceis. Dai a implantação de vinhedos nas margens de grandes rios: Loire, Tejo, Douro, Reno.

O desenvolvimento da viticultura ocorrerá, de novo, a partir do século XII sob o impulso do crescimento dos países do Norte da Europa, enquanto a viticultura mediterrânica só viria a prosperar significativamente a partir do século XIX. No século XIII, entre diversas obras dedicadas à agricultura, duas trarão um contributo importante à cultura da vinha. Alberto Magno, escreveu De Vegetalibus, livro sobre botânica e agricultura detendo-se na cultura da vinha; enquanto Pier Crecenzi, publicava Ruralium Commodorum, um tratado de viticultura.

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O sumo de uva, apreciado pelas suas propriedades revigorantes e depurativas deu origem a curas de uvas. Em 1927 foi inaugurado o “uvário de Moissac”; em 1930, a “estação uval” da Gare-Saint-Lazare, em Paris, que fazia jorrar diariamente o sumo de cinco toneladas de uvas. Contudo, o desenvolvimento do sumo de uva em garrafa fez desaparecer este género de estabelecimento.

Atualmente a maior parte da cultura das videiras destina-se à produção industrial de vinho ou de outras bebidas alcoólicas, num valor que ronda os 80 por cento. Cerca de cinco por cento destinam-se à produção de sumos e outros cinco por cento à de passas, essencialmente produzidas a leste da bacia do Mediterrâneo, no Médio Oriente, no Sul de Espanha e Califórnia. Finalmente, dez por cento da uva destina-se ao consumo à mesa, como sobremesa.

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