São onze da manhã de um agosto que corre quente. Tão cálido que os portugueses acrescentaram este verão um novo termo ao seu vocabulário agrícola: “Escaldão”. Não aquele a que o banhista incauto se arrisca no areal, mas outro de diferente natureza e que pesa sobre a delicada pele vegetal das culturas agrícolas. Muitos se recordarão dos mais de 40 graus Celsius sentidos nos primeiros dias do mês oito do calendário. Uma torreira de calor, vento quente e ausência de humidade que desidratou, mirrou e cozeu, literalmente, uvas de norte a sul do país.

Neste final de agosto, na Quinta das Chantas, em Alcanhões, poucos quilómetros a nordeste de Santarém, os mais de 30 graus Celsius que bem se sentem nesta manhã já magoam na pele, mas estão longe de produzir danos na vegetação. Aqueles que o “Escaldão” do início do mês também aqui trouxe a parte da produção.

Estes 30 graus Celsius, naturalmente concordantes com as temperaturas desta época do ano, nesta região, concorrem para amadurecer as muitas toneladas de uva Cardinal que nos rodeiam e que descansam sob um manto robusto de pâmpanos, a folhagem da videira.

Uva de mesa: Caprichosa, na vindima pede carinho mas à mesa retribui docemente
Sistema de produção em Y. A gravidade faz pender os cachos de uva o que facilita a sua colheita.

É época de vindimas para o produtor Dona Uva, marca nacional de uva de mesa, e os perto de 95 hectares da propriedade exultam de labor de colheita. Posicionamo-nos estrategicamente à entrada de uma longa faixa de terreno ladeado por altas barreiras, não de pedra ou de tijolo, mas de substância trabalhada nos últimos meses pela natureza, a vinha. Um mundo verde, emaranhado, imenso na extensão, de silêncios apenas interrompidos pelo zunido dos insetos e o roncar distante de um dos tratores com reboque que faz o transporte de caixas já abastecidas de uva para a central de recolha.

Este é um mundo verde, emaranhado, imenso na extensão, de silêncios apenas interrompidos pelo zunido dos insetos e o roncar distante de um dos tratores com reboque

Faz-se este exercício contemplativo como preâmbulo ao que, de facto, nos traz aqui, de tesoura de vindima na mão, chapéu de palhinha protegendo do sol, caixa robusta de cartão e um pequeno cavalete onde irá assentar a mesma. Vamos participar numa vindima à mão de uva de mesa e contamos como “formadores”, com Mário Rodrigues, diretor executivo da Frutalmente, organização de produtores que detém a marca Dona Uva e a engenheira agrónoma Sandra Rodrigues, gerente e fundadora da empresa. Coincidência nos apelidos? Não, Mário e Sandra são primos e cresceram, literalmente à sombra das videiras.

Nas próximas duas horas percebemos que cuidar, tratar, colher, embalar e distribuir uva de mesa pouco tem a ver com a congénere que acabará também nas nossas mesas, mas em estado líquido, dentro de uma garrafa de vinho.

Uva de mesa: Caprichosa, na vindima pede carinho mas à mesa retribui docemente
Na Quinta das Chantas, não muito longe de Santarém, os meses de verão são de azáfama nas vinhas.

É Mário Rodrigues quem nos explica isso mesmo: “provavelmente a uva de mesa é a mais difícil de manusear. Não nos podemos esquecer que vai diretamente da vinha para o prato do consumidor. Logo, carece, na origem, de mão-de-obra experiente. Um cacho tem inúmeros bagos, alguns em mau estado, por exemplo murchos, e que, naturalmente, não podem entrar no circuito comercial. Acresce que uva que cai no chão, aí fica. Há perdas consideráveis”.

Lição número um. Não basta ter a tesoura na mão, há que lhe dar uso, bom uso, pois um mau corte pode estragar aquilo que o cacho soube bem fazer durante meses, amadurecer belo, opulento e saboroso.

Vamos vindimar

Mãos à obra. Primeiro há que embrenhar braços e dedos na pequena selva verde perante nós. Uma exuberância traduzida em magotes de folha e raminhos emaranhados. No seio desta fronde, a recompensa. Os cachos enormes de uvas rosadas Cardinal, uma espécie originária da Califórnia, entre as dez (duas sem grainha) atualmente produzidas na Dona Uva, entre brancas, tintas e rosadas. Um entusiasmo guloso e infantil invade os participantes estreantes na vindima. Embrenhar a tesoura no folhedo, aplicar o corte no pedúnculo e extrair um cacho gordo e vivaz de uvas.

Ao contrário da uva de vinho vindimada numa única passagem, as parcelas de terreno com uva de mesa podem receber até três vindimas numa estação

É o que acontece sob o olhar experiente de Mário Rodrigues. “Essas não estão boas, ainda não amadureceram o suficiente”. Lição número dois, ao contrário da uva de vinho vindimada numa única passagem, as parcelas de terreno com uva de mesa podem receber até três vindimas numa estação. Tarefa árdua, perceber no âmago das sombras verdes, a tonalidade certa de uva para colheita. Para mais quando o sol é elemento inclemente e os insetos tendem a debicar no rosto do vindimador. Damos, então, valor acrescido ao produto final e à colheita que dele fazemos, em ambiente de ar condicionado, nas superfícies comerciais.

Uva de mesa: Caprichosa, na vindima pede carinho mas à mesa retribui docemente
Mário Rordigues, diretor executivo da Frutalmente.

Voltando ao campo, a colheita de determinado cacho “depende do estado de amadurecimento das uvas”, sublinha Sandra que nos alerta para um ´pozinho´ que encontramos sobre cada bago e que, erradamente, confundimos com sujidade. “É a pruína, uma cera natural que protege a uva”. O que explica o cuidado no manuseio desta uva de mesa ainda no campo. Há que evitar o mínimo de contacto entre as mãos e a fruta, “apenas o indispensável” e percebe-se o porquê de irmos para a vinha munidos de cavalete e caixa de cartão.

O primeiro evita o contacto da caixa com o solo, a segunda garante que as uvas colhidas estão desde logo acondicionadas para transporte. Assim procedem as dezenas de vindimadores que se acercam do reboque onde as caixas de uva colhida são acondicionadas.

“Temos atualmente perto de 150 pessoas a colher uva, 98% portugueses e, uma parte considerável, regressa para a vindima de ano para ano”, explica-nos o diretor executivo da Frutalmente.

Chegados aqui, convém enquadrar e perceber que estamos nesta Quinta das Chantas em território entregue a uma organização de produtores de uva de mesa nascida em 2012 (a Frutalmente), a trabalhar sob o denominador comum da marca Dona Uva, e que agrega dez entidades nas regiões do Ribatejo e Oeste. Conta com uma Central para receção e distribuição de uva localizada na Quinta da Granja, no vale dos Cadafais, próximo ao Carregado. Aí, juntam-se mais 100 hectares de vinha. Nesta que é a mais antiga zona de produção de uva de mesa do país.

Uma origem que podemos situar nos anos de 1950 e em torno de um pioneiro, António Caetano Rodrigues, precisamente na Quinta da Granja.

Uva de mesa: Caprichosa, na vindima pede carinho mas à mesa retribui docemente
Cachos gordos e sumarentos, podem pesar mais de um quilo.

Um mercado muito português

Das origens para o presente, mais concretamente sob o sol do estio de 2018 e sobre o terreno argiloso e de areia - e admitamos, onde não é fácil avançar sobre grumos volumosos de terra -, somos conduzidos por Mário e Sandra para uma nova parcela de uva com dois anos de plantio. “Neste caso temos uma plantação em Y. Ou seja, assim se chama porque as estacas assumem essa forma”, refere Sandra. Do solo em direção aos céus, sobem milhares de “braços”, elevando a vinha mais de dois metros. Sob a copa de parras, pendem como enfeites de arraial de santos populares os cachos carnudos de uva preta Michele Palieri, espécie de polpa doce e suculenta e que é colhida de setembro a outubro.

Do solo em direção aos céus, sobem milhares de ´braços´, elevando a vinha mais de dois metros. Sob a copa de parras, pendem como enfeites de arraial de santos populares os cachos carnudos

De acordo com Mário Rodrigues, “estas vinhas são desenhadas para que gravidade atue, os cachos pendem e as operadoras e operadores têm a tarefa facilitada, pois não têm de procurar os cachos entre a vegetação”. Vindima mais rápida, embora com um investimento de instalação da vinha maior. Correndo tudo de feição, nos próximos 18 anos estas vinhas continuarão a produzir para o circuito comercial.

De momento teremos de aguardar duas semanas para a colheita desta Michele Palieri. Queremo-la melosa como a generalidade da uva de mesa, neste caso, na Dona Uva, crescendo sem rega, o que potencia a doçura. A este propósito, o da doçura, explica-nos Sandra Rodrigues, “medimos a proporção de açúcar na uva utilizando uma medida, o Grau Brix. Essa proporção, numa escala, não pode ser inferior a 14-15º. Abaixo desse valor não vai para o mercado”.

Uva de mesa: Caprichosa, na vindima pede carinho mas à mesa retribui docemente
A empresa produz atualmente dez variedades de uva de mesa, duas delas sem grainha.

Um mercado que, no caso da Dona Uva, se caracteriza essencialmente por distribuição dentro de portas como nos explica Mário Rodrigues, “o mercado nacional absorve 95% da nossa produção que, em 2017, foi de três milhões de quilos. A restante sai para três destinos, Angola, São Tomé e Holanda. Neste momento estamos a negociar com França no que respeita à uva sem grainha”.

Viagens longas desde a pacatez deste Ribatejo até grandes superfícies em todo o país. Isto num mercado, o da uva de mesa, “competitivo”, como afiança o responsável pela Frutalmente, “de Espanha entra muita uva em Portugal e há muitos pequenos produtores que colocam uva junto do consumidor tratando-a como a congénere para vinho, sem grande cuidado pelo produto final, o que naturalmente se vê no preço, mais baixo”.

Dezenas de caixas seguirão agora para o centro de embalamento e distribuição, juntando-se a uma torrente de uvas que entre julho e novembro não dão descanso a toda a linha de operação

O atrelado do trator, agora carregado com dezenas de caixas de uva, é o epicentro de toda a atividade finda a manhã de colheita. Dezenas de caixas seguirão agora para o centro de embalamento e distribuição, juntando-se a uma torrente de uvas que entre julho e novembro não dão descanso a toda a linha de operação e de transporte das diversas qualidades de uva da empresa, como as rosadas Red Globe, Cardinal; as pretas Alphonse Lavallée e Michele Palieri; as brancas Vitória e as portuguesíssimas Dona Maria, estas últimas responsáveis pelo apadrinhamento da empresa com a designação Dona Uva.

Uva de mesa: Caprichosa, na vindima pede carinho mas à mesa retribui docemente
Quinta das Chantas, 95 hectares de vinha.

No armazém a uva gosta de frio

E por artes de reportagem, eis que saltamos de um parágrafo para outro a distância que medeia entre a Quinta das Chantas e o centro de operações próximo a Vila Franca de Xira. Um pulo de 50 quilómetros para conhecer a casa final, grande, com 1500 metros quadrados, de todas as uvas com a chancela deste produtor. Longe do calor, debaixo de teto, porque assim pede a uva depois de colhida, temos novamente como anfitriões Mário e Sandra. Esta, segurando um pequeno cacho nos dedos dá-nos uma dica para aquilatarmos a frescura da uva. “A cor do pedúnculo, ou engaço, se assim lhe quiser chamar, deve ser verde”. Ficamos, ainda, a saber que já em casa a conservação da uva faz-se no frigorífico, nos 4 graus Celsius. “Pode assim durar até 15 dias e até mesmo mais de um mês no caso da Dona Maria”, adianta-nos a engenheira agrónoma.

já em casa a conservação da uva faz-se no frigorífico, nos 4 graus Celsius. Pode assim durar até 15 dias e até mesmo mais de um mês no caso da Dona Maria

Aqui começa uma nova etapa para as uvas. Deixaram os campos onde cresceram e amadureceram, conhecem agora a azáfama da linha de embalamento. Operação que, como em momentos anteriores, obriga a uma quase nula manipulação do produto, mesmo quando o destino final são as embalagens de 500 gramas que seguem para as grandes superfícies. Uma última triagem qualitativa na linha, verificação do peso, com uma margem de erro de 10 gramas e termo embalamento final. Depois, o armazenamento a 2 graus Celsius até ao momento da partida.

Uva de mesa: Caprichosa, na vindima pede carinho mas à mesa retribui docemente
Na uva de mesa encontramos a tinta, branca e rosada.

Também para nós é hora de despedidas. Isto sem que antes tentemos perceber um pouco do futuro desta organização de produtores. De acordo com Mário Rodrigues os “próximos quatro anos serão de crescimento. A área de produção de uva de mesa deverá expandir-se dos atuais 195 hectares para 280 hectares”. Um crescimento que vai comportar a expansão da área de produção dedicada à uva sem grainha que quadruplicará, passando para 80 hectares. Acresce a construção de uma nova estrutura próxima da central que duplicará a área de armazenamento e de frio. Neste caso para fruta de caroço.

Isto porque para além da produção de uva de mesa, 70% do negócio da organização de produtores, esta abrange um mercado mais alargado, acomodando neste caso 19 produtores (somados os de uva de mesa) com a marca Adoora. Alperces, ameixas, pêssegos, maçãs, romãs, peras rocha, dióspiros e bagas goji. Mas esta é outra história.

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