É tal a importância do chá, enquanto uma das bebidas mais consumidas em todo o mundo, que entre os protagonistas da sua história figuram imperadores e rainhas. Desde a China imperial às cortes da Europa, o chá fez uma longa viagem que é contada na exposição “O Chá: De Oriente para Ocidente”, patente no Museu do Oriente de 8 de junho de 2012 a 13 de janeiro de 2013.

“Toda a parafernália que existe para tomar o chá, taças, bules, etc. é trazida da China. A própria palavra «chá» que adotamos é do sul da China, enquanto a palavra «thé» adotada no norte da Europa também tem origem chinesa”, afirma Maria Manuela d’Oliveira Martins, diretora do Museu do Oriente.

Para além de mostrar peças exóticas, porcelanas finas e ricos serviços de prata, a exposição desvenda mitos e revela verdades na rota desta planta. “Toda a gente diz que foi Catarina de Bragança (a princesa portuguesa que se tornou rainha de Inglaterra) a introdutora do chá na Europa, o que não é verdade. O chá já tinha sido introduzido em Inglaterra em 1670”, afirma Maria Manuela d’Oliveira Martins. Nem foi esta rainha a responsável pelo hábito do “chá das cinco” na corte britânica, ao contrário do que se pensa. “Isso foi introduzido mais tarde, no séc. XVIII, pela duquesa de Bedford”, assegura a responsável. “Como museu, temos a preocupação científica de ver nos documentos o que se passou de facto”.

E o que se passou de facto foi a importância que Portugal assumiu na divulgação da bebida. Os portugueses “foram os primeiros, e os documentos provam-no, a difundir a bebida do ponto de vista literário. Porque o consumo e a comercialização deve-se aos holandeses, nos séc. XVII-XVIII. Eles eram conquistadores e comerciantes muito mais impositivos que os portugueses”, compara Maria Manuela d’Oliveira Martins.

A exposição vai ser acompanhada de várias atividades orientadas pelo Serviço Educativo do Museu. Para além de um “Curso de Chá”, com prova de vários tipos de chá e onde se fala da sua história, há uma oficina para crianças “Chá Com…”, uma “Cerimónia do Chá Japonês”, oficinas para famílias “A Hora do Chá” e “Tomando Chá com um Imperador e uma Rainha”, um “Ritual do Chá Oolong” e uma “Cerimónia do Chá Chinês Budista”. Margarida Mascarenhas, do Serviço Educativo, diz que as sessões do curso de chá tem vindo a esgotar-se sucessivamente e que a procura deverá aumentar durante a exposição, pelo que “faz todo o sentido realizar mais vezes o curso”. Há ainda uma conferência da medicina ayurvedica, “onde o chá pode ser uma solução para prevenir e tratar algumas doenças”, orientada por Amândio Figueiredo, presidente da Federação Portuguesa de Yoga.

Os vários papeis do chá

“O chá também foi documentado enquanto planta medicinal por um médico português, Francisco Henriques, que recomenda que o chá seja tomado em pó e fumado em cachimbo”, adianta Maria Manuela d’Oliveira Martins. “Na própria China, foi primeiro consumido cozido, não como uma infusão. Essa bebida incluía outras coisas, como cebolinho, sal, gengibre… era uma sopa. Depois, já na dinastia Song e Tang, vem a tornar-se uma bebida tal como a conhecemos – embora haja muitas variedades de chá provenientes da mesma planta, a camellia sinensis”.

Também “os monges budistas acabaram por descobrir que o chá (especialmente o chá preto) os mantinha acordados para fazerem as suas orações”, acrescenta. “É uma bebida que tem teína, um estimulante, e que se tornou global, a par do café e do cacau – são as três grandes bebidas globais, a par com o cacau e o café”.

A noção de que o chá é um ingrediente benéfico para a saúde remonta a uma conhecida lenda chinesa. Lê-se na apresentação da exposição: “Diz-se que o imperador chinês Sheng Nung ou, como era conhecido, o Curandeiro Divino, preocupado com as epidemias que devastavam o território, mandou afixar um edital que determinava que se fervesse a água antes de a consumir. Certo dia, enquanto descansava à sombra de uma árvore, o próprio imperador terá pedido que lhe fervessem água. Da árvore que o protegia, porém, soltou-se uma folha que lhe haveria de cair dentro da chávena mudando-lhe a tonalidade e atribuindo-lhe sabor”. Mas a verdade é que não se sabe ao certo de onde a planta é originária. “A lenda remete muito para a China porque de facto a China é que o vai dar a conhecer. Mas a planta tem origem numa região situada entre a China e a Índia, com um clima muito especial”, explica a diretora do Museu.

Sem dúvida, “foram os chineses que levaram a planta primeiro para a Coreia, depois para o Japão e para toda a área central” da Ásia, afiança a diretora. Os rituais desenvolvidos em cada país tiveram origem no ritual chinês. “Só que na China perderam-se esses rituais, porque houve uma grande popularização da bebida. No Japão manteve-se, também porque houve todo um ambiente ligado à missionação. Há certos aspetos que nos fazem lembrar partes de missa – houve um discípulo do introdutor do cerimonial do chá no Japão que era um cristão, se bem que não se pode dizer com toda a certeza que há uma ligação direta”.

Apesar de ser, há séculos, conhecido e consumido na Índia, “foram os ingleses que impulsionaram as grandes plantações de chá, tal como do ópio”, revela a responsável. Com o tempo, a planta adaptou-se bem a outros climas subtropicais, principalmente de grande altitude, sendo hoje uma das culturas mais importantes do mundo. Na Europa, a única plantação de chá existente está localizada na ilha de São Miguel, nos Açores.

A “troca de informação” entre Oriente e Ocidente, traduzida nos próprios serviços, têxteis e mobiliário, é a prova de que o chá foi visto como “uma bebida requintada, de elites, que proporcionava o convívio entre as pessoas”. Peças exóticas e curiosas como taças de palhinha, laca ou tartaruga, muitas delas pertencentes a coleções particulares ou emprestadas pelo Museu Nacional de Arte Antiga ou Museu de Marinha, entre outros, vão estar expostas juntas, pela primeira vez, nesta exposição temática.

Texto: Ana César Costa

Fotografia: Museu do Oriente

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