Crónica anterior: Gravidez em tempo de pandemia. Agora é que isto começou a sério


A 8 de março fomos comprar dois ares condicionados para colocar em casa. Lembro-me bem da data porque era Dia Internacional da Mulher e ofereceram-me uma planta para assinalar o dia.

Na semana seguinte percebemos que a encomenda que tínhamos feito não ia servir e no sábado, 14 de março, tentei fazer a devolução. Não tendo nenhum equipamento para devolver – havia apenas uma reserva e uma data estimada de chegada – pensei que conseguiria resolver as coisas facilmente, por telefone. Estava enganada. Tinha de ir à loja fazer o cancelamento da reserva e pedir a devolução do dinheiro que já tinha pagado. Achei aquela situação um tanto ou quanto surreal. Mas como percebi ao longo deste tempo, as pessoas não têm todas a mesma informação e as empresas estavam completamente “às aranhas” com isto.

No dia em que Espanha anunciava que ia entrar em Estado de Emergência, seguindo o exemplo de outros países europeus, nomeadamente Itália, que vivia uma situação completamente descontrolada, eu tive de ir a uma loja, tratar de um assunto, antes que se transformasse num problema.

Eu tinha noção que o anúncio do Estado de Emergência, em Portugal, estava por dias. Os meus vizinhos, amigos e família perguntavam-me: “Achas que vai acontecer cá?”. A minha convicção era só uma: sim. Só não sabia quantos infetados motivariam o anúncio, mas apontava os 1000. O tempo deu-me razão: Portugal decretou o Estado de Emergência a 18 de março, apenas cinco dias depois.

Lá fomos, sábado à noite, resolver a questão. O ambiente que encontrámos não podia ser mais estranho: as pessoas desviavam-se umas das outras, olhávamo-nos com desconfiança, mantínhamos a distância de segurança o mais possível. Nos corredores, as pessoas paravam para deixar os outros passar e quando alguém parava à espera de ser chamado e não mantinha a distância de pelo menos um metro, a outra pessoa mudava de lugar.

Parecia que estava a fazer alguma coisa mal. Antes de sair do espaço comercial lavei as mãos e respirei de alívio quando cheguei ao carro

Cheguei ao balcão de informações e expliquei o que estava ali a fazer. Lembro-me de dizer “venho fazer a devolução destes produtos porque não os posso utilizar e enquanto a loja ainda está a funcionar”. A rapariga olhou para mim com admiração e afirmou muito convicta: “Ah, nós vamos continuar abertos ao público, o nosso horário de funcionamento é que vai ser reduzido”. Lembro-me de pensar que as pessoas estavam longe de imaginar o que vinha aí.

Tentámos resolver as coisas o mais rápido possível para sairmos dali. Devemos ter demorado uns 10 minutos. Senti sobretudo desconforto em estar ali. Parecia que estava a fazer alguma coisa mal. Antes de sair do espaço comercial lavei as mãos e respirei de alívio quando cheguei ao carro. Aquela foi a primeira grande prova de fogo: estar num espaço com mais pessoas, algo que fugia completamente ao nosso controlo – não senti que fosse um ambiente seguro para mim.

A segunda grande prova de fogo aconteceu umas semanas depois. Tinha exames para fazer. Seguindo as indicações da minha obstetra, às 26 semanas devia fazer o “mal amado”, teste da glicose, entre outros.

Antes disso tive de ligar para o Centro de Saúde. Era suposto ter consulta a 2 de abril. Tendo em conta o que estava a acontecer, não sabia se a tinham cancelado ou não. E ainda tinha a vacina da Tosse Convulsa para fazer, às 29 semanas.

A consulta foi, claramente, cancelada. Forneceram-me o mail do meu Médico de Família para poder enviar os exames para ele ver e quando chegasse a altura devia ligar para lá para marcar a vacina. A ideia era evitar deslocações desnecessárias e se era só para mostrar exames, não precisava de ir.

As consultas dos meus pais também já tinham sido canceladas e na realidade, à minha volta, só ouvia que tudo estava a ser cancelado. Mas no meu caso, o cancelamento não se traduziu no estagnamento do processo, muito pelo contrário: as coisas mantinham-se mas de outra forma.

Pesquisei laboratórios para ir fazer os exames de sangue e liguei a informar-me. Uma amiga tinha-me recomendado um da Germano de Sousa, em Lisboa, que tinha a vantagem de ter um espaço específico dedicado às grávidas, onde poderia descansar num sofá, num espaço à parte, longe da sala de espera. Já era prática comum e nesta situação era ouro sobre azul.

Naquele dia 24 de março, 13 dias depois de estar em casa, voltei a viver o mais próximo que tinha de uma rotina: levantei-me cedo, vesti-me, arranjei-me, peguei na mala, num livro, na garrafa de água, no frasco do álcool e saí de casa. No caminho casa/laboratório encontrei mais trânsito do que achei que ia apanhar. Mas nada comparado a um dia normal.

Quando cheguei, não havia ninguém, a não ser a pessoa da receção. Entreguei as credenciais e o meu Cartão do Cidadão. No balcão estava um gel desinfetante. Usei-o. A rececionista mandou-me esperar e indicou-me o sofá mais perto do balcão. Fez o que tinha de fazer e devolveu-me o cartão. Depois disso borrifou a bancada furiosamente com desinfetante. Confesso, senti-me uma criminosa. Mais uma vez, a sensação de que tinha feito alguma coisa mal. Era apenas um procedimento de segurança mas era um choque, o despertar para uma nova realidade, uma que só tínhamos visto nos filmes.

Tive de permanecer no laboratório durante três horas. Li, respondi a mails, enviei mensagens, houve um momento em que dormitei enquanto o bebé dava pontapés na minha barriga. O que mais se ouvia era o silêncio.

Gravidez em tempo de pandemia. A vida continua e temos de nos adaptar ao presente
Arquivo pessoal. créditos: Daniela Costa

Enquanto estive lá, além de mim, apenas duas pessoas foram ali fazer recolha de sangue. A enfermeira explicou-me que só ia ali quem precisava mesmo de fazer análises. Tudo o resto tinha ficado suspenso.

Voltei para casa e vi várias pessoas na rua e à porta dos supermercados. No dia seguinte recebi os resultados no meu mail (isso já acontecia antes). Estava tudo bem e tinha passado no tal teste com distinção. Custou-me mais a parte de tirar sangue – fiquei com as marcas no braço durante vários dias – do que beber o tal líquido doce com sabor a limão.

Falei com outras amigas grávidas a passar a dica que me tinham dado: ali onde tinha feito os exames era seguro. Eu pelo menos senti-me segura. Por isso, se precisam de fazer estes exames liguem para os sítios e informem-se. Há também a possibilidade de se fazer a recolha de sangue em casa (como já vi a publicitarem várias vezes nos últimos tempos, nas redes sociais). Perguntem a pessoas amigas por sugestões. Haverá soluções para todas.

Fast forward

Hoje, faz 41 dias que estou “confinada” em casa. Entre aspas porque já tive de sair algumas vezes. No fim de semana aproveitei para fazer uma caminhada mais longa do que aquela que vai de minha casa ao ecoponto da rua.

Já me mentalizei que provavelmente vou sozinha à ecografia das 32 semanas (no meu caso 33). Já me mentalizei que não podemos esperar o controlo da situação. É entregar e deixar acontecer. O que vier de bónus vai ser a melhor experiência

Sinto que estou a perder mobilidade. O meu corpo, de estar tão parado, estranhou tanto movimento: mãos e pés inchados. E este para mim é um dos grandes problemas do momento: a limitação do espaço. As grávidas devem mexer-se, não tendo contraindicações que as impossibilitem. Para já não o posso fazer da maneira que eu gostava. As poucas deslocações que faço são num espaço muito circunscrito. Canso-me mais e muito facilmente e a barriga ainda agora começou a crescer (bem-vindo terceiro trimestre).

Na semana passada recebi um feedback de uma leitora: não entrando em muitos detalhes, tinha passado por um aborto espontâneo neste período e sentiu-se desamparada porque, não estando grávida, foi esquecida pelo sistema. E isso sim, é que me parte o coração. Não imagino o que será a sua dor e ter de a viver agora porque o mais importante neste momento é cuidar de outras coisas. Tudo o que eu possa estar a passar não é nada, comparado com a sua dor.

Não vale a pena comparar o incomparável mas é uma questão de perspetiva. E esta é bem dura. Por isso deixo um apelo: procurem ajuda, batam a todas as portas, não se deixem esquecer pelo sistema. Se sentem que alguma coisa não está bem, procurem respostas, procurem ajuda. Grávidas e não grávidas.

Não sei se ajuda quem está na mesma situação que eu, mas mentalizei-me de várias coisas: que esta é uma fase – seja a da gravidez, seja a do COVID-19. A desvantagem é que a do COVID não sabemos quando acaba, a gravidez temos mais ou menos uma ideia.

Nunca tive a visão romântica da gravidez, do estado de graça, do momento mais especial das nossas vidas. Talvez por isso me seja mais fácil aceitar o que está a acontecer à minha volta. É uma fase e vai passar.

Já me mentalizei que provavelmente vou sozinha à ecografia das 32 semanas (no meu caso 33). Já me mentalizei que não vou fazer um baby shower. Já me mentalizei que as pessoas mais próximas não me vão ver barriguda, ao vivo e a cores. Já me mentalizei que não podemos esperar o controlo da situação. É entregar e deixar acontecer. O que vier de bónus vai ser a melhor experiência.


Daniela Costa chegou ao SAPO em agosto de 2013, depois de uma passagem por produtoras de televisão em que fez um pouco de tudo: desde programas para a RTP 2 sobre agricultura, pescas e desenvolvimento rural, programas sobre lusofonia, na RTP África ou programas para a RTP Internacional sobre o melhor que se fazia em Portugal nos anos de crise financeira, entre outros. Entrou na equipa do SAPO Lifestyle, em novembro de 2015, e desde fevereiro de 2017 que assume a função de editora.

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