Para a osteopatia integrada, como todos os sistemas do corpo estão relacionados, qualquer disfunção num sistema afeta todos os outros. João Paulo Santos Silva, osteopata e diretor da clínica OSTEOJP – Osteopatia, Terapia e Formação,em Linda-a-Velha e com consultas regulares em Castelo Branco e Coimbra, usa-a para tratar grávidas ansiosas e bebés que não dormem devido ao nervosismo e ao stresse, mas não só.

Nos últimos anos, tem acompanhado crianças em idade escolar com problemas de dores de costas devido ao peso dos livros e do material escolar que carregam e até pré-adolescentes e adolescentes pressionados desde a mais tenra idade a ser atletas de alta competição. «O desporto faz bem mas, em excesso, faz mal e estraga», adverte o especialista. Uma entrevista que todos os pais e educadores devem ler.

Como é que, na prática, a osteopatia integrada, que muitas pessoas tendem a associar mais ao tratamento e à prevenção da dor ciática, de lombalgias, dorsalgias, cervicalgias, escolioses, hérnias discais, entorses, tendinites, tensões e contraturas musculares, podem ajudar bebés, crianças e adolescentes?

Nós podemos dizer que o bebé sente o que a mãe sente. E, quando sai, o sistema nervoso dela está lá e, nalguns casos, temos de trabalhar para tratar o da mãe e o do bebe. No caso da criança, passa primeiro por ver como está a estrutura do corpo depois do parto.

Vemos se houve alguma modificação quando saiu. Pode ser preciso reposicionar os ossos do crânio. Nesta fase, as fissuras do cérebro ainda não fecharam e, então, temos a possibilidade de reorganizar todas as estruturas do crânio e de as posicionar no sítio certo.

E isso pode ser feito a partir de que altura?

Logo em bebé. Com um mês ou dois meses. Eu acompanho um jovem que comecei a seguir quando ele tinha dois meses. Saiu quase do útero da mãe para as minhas mãos. Foi na zona de Unhais da Serra. Um bebé que era portador da doença dos pézinhos, uma doença que é típica ali daquela zona.

A mãe teve uma situação grave. Os médicos queriam que ela abortasse porque querem erradicar a doença a nível mundial. Ela resistiu mas o stresse foi de tal maneira que, quando o bebé nasceu, não dormia. Todas as noites gritava! Falaram-lhe de mim e, até ele fazer um ano, tratei dele.

Diziam que ele, mais tarde, iria ter um atraso em termos de locomoção e de desenvolvimento mental e, hoje, com um ano e meio, é um bebé normal. Já fala um bocadinho francês, brinca e canta e, quando chegou ao pé de mim, só gritava. Os pais não dormiam! A mãe sofreu um stresse muito grande quando queriam que ela abortasse…

O que é que fez a essa criança?

Libertei-lhe o crânio com um protocolo de movimentos. Libertei-lhe as tensões ao nível do sistema nervoso e ele, hoje é em dia, é um bebé normal e sorridente. Já dorme. As cólicas que tinha também desapareceram…

O stresse é um problema grande nos tempos que correm?

Sim. Há uns meses, conheci uma jovem que já fez um protocolo com a Segurança Social, em Lisboa, para trabalhar num projeto com música para grávidas. Durante a gravidez, vai trabalhar a mãe e o bebé ainda dentro do útero para a ensinar a relaxar. E, ao mesmo tempo que a mãe relaxa, a criança relaxa também. Se uma mãe estiver em stresse no dia a dia, quando a criança sair, sentirá todo o efeito mental desse nervosismo e dessa ansiedade.

E, nas crianças em idade escolar, como é que a osteopatia integrada também as ajuda?

Estamos a falar de crianças que, cada vez mais, tem um grande peso nas costas. Vejo cada vez mais jovens com dores nas costas, uma coisa que não é normal! No meu tempo, mesmo quando sofria quedas e quando tinha dores, fartava-me de saltar e de brincar. Hoje, temos os nossos filhos com dores das costas e vemos o peso que eles carregam e eu não entendo…

Acho que, com tanta tecnologia que existe hoje, podiam usar os tablets e os iPads para meter la toda informação dos livros e dos cadernos e ter armários para pôr os livros nas salas de aulas para evitar que as crianças, naquelas idades, carreguem demasiado peso. É excessivo! Quando uma criança com as costas em crescimento leva com muito peso em cima, as estruturas mudam e elas sentem dor.

Ainda para mais, as nossas crianças já não brincam como nós brincávamos. Eu andava sempre na rua e jogava a bola e, hoje em dia, o que temos são miúdos sentados em casa a brincar com a PlayStation e com o computador e temos crianças sedentárias e obesas que não brincam e, quando o fazem, é pouquinho.

As crianças de hoje deveriam brincar mais na rua, então…

Muitas só têm atividades na escola, onde andam de um lado para o outro e, depois, mais nada. E a parte muscular sofre muito! Nos fartávamo-nos de saltar e de andar de um lado para o outro e, hoje em dia, isso já não acontece. Coitadas das nossas crianças mas realmente é verdade…

Os tempos, hoje, também são outros…

Hoje em dia, muitos casais vivem em apartamentos e ir brincar lá para fora é complicado. Eu entendo isso perfeitamente mas temos de ter a noção que dar coisas às crianças para elas ficarem paradas a brincar em casa é um erro.

Porquê?

É muito mau porque os músculos não se desenvolvem e, quando as crianças chegam a uma idade de 12 ou 13 anos, têm as costas completamente tortas devido a um mau posicionamento no sofá, que é errado. O sofá é o nosso inimigo! Muitas das vezes devíamos estar sentados numa cadeira ou no chão.

Só nos deveríamos sentar no sofá de vezem quando mas o que vimos constantemente são posturas erradas. O problema, se calhar, começa na escola porque as nossas carteiras antigamente não eram direitas. Eram ligeiramente inclinadas e isso obrigava-nos a estar direitos.

Hoje, sentamo-nos todos tortos e toda essa mudança do corpo faz com que estas nossas crianças cheguem a uma altura em que têm dores e, nesta fase da vida, isso não é normal. Não é normal!

No outro lado da barricada, temos o caso de pais que obrigam os filhos a ter trinta mil atividades, muitas delas exigentes, para não estarem fechados em casa…

Eu acho um bocadinho complicado quando metemos um miúdo a fazer alta competição, como fazem muitos pais. Muitos obrigam-nos a levantar-se às seis da manhã. Eu acompanho dois miúdos que acordam a essa hora para fazer treinos loucos e, depois, ao final do dia, treinam outra vez. Temos de ver que o desporto faz bem mas, em excesso, faz mal e estraga.

Eu já apanhei crianças que o faziam e que, depois, chegam aos 18 e aos 19 anos e já não temos atletas. Não há estruturas em Portugal que ajudem estas crianças. Se fosse nos EUA, usariam tecnologia de ponta e teriam suportes brutais. Lá, têm fisioterapeutas, massagistas, profissionais de saúde mental, médicos e nutricionistas que as ajudam e, aqui em Portugal, não existe nada disso.

O que é que existe então?

Existe a escola, os professores e os treinadores que querem ter resultados e pais que querem que os filhos sejam melhores do que eles. Os pais projetam aquilo que não foram nos filhos…

Texto: Luis Batista Gonçalves

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