Os distúrbios do sono afetam, no seu conjunto, até 50% das crianças. É uma percentagem elevada e tem custos diretos para a saúde dos mais pequenos: sobretudo a sonolência diurna, que como bem sabemos, vai manifestar-se como irritabilidade, problemas comportamentais, dificuldades de aprendizagem e, consequentemente, mau desempenho escolar.

No entanto, os distúrbios do sono dos mais pequenos também têm custos indiretos, sobretudo na extrema privação de sono que desencadeiam nos pais e como tal, maior irritabilidade e pior desempenho. Como sabem, a privação de sono é um motivo reconhecido como causa de acidentes rodoviários. O impacto real da saúde do sono das crianças é como tal, desconhecido. Mas não pode ser ignorado.

Os distúrbios do sono nas crianças são portanto frequentes:

- Desde o ressonar ou a apneia obstrutiva do sono - durante o sono, porque a criança está deitada e relaxada, verifica-se uma alteração da arquitetura dos tecidos da garganta que leva ao seu colapso parcial, fazendo com que a criança ronque ou total, gerando períodos de pausa respiratória, que levam a múltiplos despertares durante o sono

- Passando pelo clássico chichi na cama, que pode afetar uma parcela significadtiva das crianças até aos 5 anos sem contudo constituir um problema de saúde.

- Sem esquecer as parasónias (assim designadas em conjunto), que incluem sonambulismo, o falar durante a noite, o ranger os dentes e terrores noturnos.

- E por fim, não posso deixar de referir o grande grupo dos problemas comportamentais, como a insónia comportamental clássica, o atraso de fase do sono e a insónia motivada pela dependência de dispositivos eletrónicos.

Há, como podem verificar apenas pelos magros exemplos citados, todo um mundo de patologia de sono para desvendar: alguns problemas são mais frequentes, como os terrores noturnos, outros bastante mais raros, como o síndrome de pernas inquietas.

Por hoje, escolhi abordar um tema simples da primeira infância – os terrores noturnos. Para mais informações sobre outros distúrbios comuns do sono, pode consultar este link.

O que são os terrores noturnos?

Os terrores noturnos afetam entre 30 a 40% das crianças, podendo iniciar-se em torno de um ano de idade, embora classicamente ocorram entre os dois e cinco anos. Cada episódio tem uma série de características em comum: ocorre tipicamente na primeira metade da noite, precisamente quando as crianças se encontram em sono profundo (apesar de tudo, os terrores noturnos também poderão acontecer durante as sestas).

Trata-se de um despertar súbito: a criança acorda a gritar, os pais encontram-na sentada na cama, agitada, transpirada, com o coração a bater muito rápido, com um comportamento agitado, que parece combater que lhe toquem ou que a tentem consolar. Por vezes é difícil controlar o episódio em si, mas costuma ser benéfico que fiquem perto da criança, lhe falem com uma voz tranquila mas assertiva e se for necessário acendam as luzes! O que vai acontecer é simples: a criança, serenada, vai voltar a adormecer e na manhã seguinte - pasme-se (!) - não se lembra rigorosamente de nada. Para os pais é que é mais complicado, porque depois de uma sessão terrorífica de berros, quem é que volta a adormecer?

A príncipio, parece quase um pesadelo, mas há características diferentes: os pesadelos afetam crianças mais velhas, frequentemente acima dos 5 anos (idade escolar, ao invés da idade pré-escolar) e ocorrem na segunda metade da noite.

Os pesadelos ocorrem na fase de sono REM – Rapid Eye Movement – uma fase de sono ativo, em que a criança tem o corpo habitualmente todo relaxado, pálpebras fechadas, mas os globos oculares não páram; esta fase de sono tende a ocorrer a cada 60-90 minutos e é responsável pelos sonhos.

À medida que a noite avança, os períodos de sono REM são mais prolongados, daí que tendencialmente tenhamos mais sonhos durante a madrugada. Os pesadelos são sonhos angustiantes e as crianças despertam do pesadelo. No entanto, ao contrário dos terrores noturnos, as crianças conseguem recordar que despertaram assustadas, podendo, obviamente, não ter uma memória muito coerente da narrativa do sonho (até nós, os adultos, temos dificuldades em recordarmos-nos dos sonhos...). E na manhã seguinte, lembram-se que despertaram com um pesadelo.

E que problemas podem trazer os terrores nocturnos?

Na prática, aqueles que referi no início do texto: sonolência excessiva no período diurno, irritabilidade, problemas de comportamento... No entanto, há alguns sinais de alarme que devem ser tomados em conta: se episódios frequentes na mesma noite, se episódios de despertar associados a movimentos rítmicos da face ou dos membros, então será conveniente fazer uma avaliação mais detalhada. Precisamente na fase de sono profundo, em que as ondas elétricas cerebrais são mais lentas, podem ocorrer outros distúrbios que merecem uma avaliação cuidada.

Os terrores noturnos acabam por se extinguir naturalmente à medida que as crianças crescem, mas existe um estudo muito interessante que associa a prevalência de terrores noturnos na primeira infância com o desenvolvimento de sonambolismo em idade escolar, avaliando grupos familiares específicos.

Ambos os distúrbios ocorrem nos pequenos despertares durante o sono profundo, ou de ritmo lento, que é mais frequente no início da noite. Nas crianças mais velhas, o sonambolismo pode ser responsável por falar durante o sono (um fenómeno independente em si), o levantar-se da cama, o desempenho de atividades frequentemente estapafúrdias, mas por vezes arriscadas, como abrir portas e janelas, praticamente sem memória para o evento na manhã seguinte.

Globalmente, cerca de 30% das crianças com terrores noturnos podem vir a manifestar sonambolismo. Mas esta percentagem é maior quando um dos pais tem história pessoal de sonambolismo (47%) ou ambos os pais (60%).

Como é que se trata um problema que, no fundo, é fruto das características genéticas de uma família? Raramente os terrores noturnos carecem de medidas farmacológicas dirigidas. Como pediatra tento sobretudo tranquilizar os pais e contextualizar a situação de cada criança, face à história familiar. Por fim, não deixo nunca de recomendar as medidas comportamentais de higiene do sono, embora a sua eficácia possa ser limitada nestes casos. No entanto, para situações mais complicadas, que careçam de apoio mais especializado (múltiplos despertares na mesma noite, presença de movimentos anómalos), faz todo o sentido consultar um especialista do sono.

Um artigo da médica Joana Martins, especialista em Pediatria.

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