Mas esta distância obriga-me a algo que desconheço na maior parte do ano: o enfoque em mim. Na Alda-pessoa que, no dia-a-dia, é quase sempre a Alda-mãe. Permite-me trabalhar sem a urgência de voltar a casa (para quê, se o que me espera é um quarto de hotel vazio?). Permite-me caminhar lentamente no fim da tarde, apreciando as gentes, o pôr-do-sol, o cheio da terra estranha. E permite-me conhecer pessoas que, de outro modo, não se cruzariam comigo.

Há sítios em que a comunicação é fácil. Em que os outros nos recebem sempre de braços abertos. Em que estranhos nos acompanham durante 10 minutos a pé só para nos mostrarem onde fica a padaria do bairro. Em que sorriem e cumprimentam quando se cruzam conosco. E em que nos contam histórias e estórias que se entranham em nós.

Ela tem 32 anos e, com o seu corpo esguio e perfeitamente delineado, exibe uma figura imponente. Confiante e determinada. Uma imagem que rapidamente se esbate quando, depois de meia dúzia de palavras, troca o sorriso pelas lágrimas e a assertividade pela insegurança. Quando nos revela que perdeu o amor da sua vida para uma outra pessoa. E que, com isso, perdeu os seus amores menores: os seus filhos. Pequenos (tão pequenos que ainda lhe cabiam no colo), os meninos foram viver com o pai para outro continente, levando com eles a alegria desta mulher.

Ouvi a história como se a vivesse na primeira pessoa. Sentindo a angústia das palavras, a amargura da revolta, a tristeza que se instalou naquele coração de mãe. E perguntei-lhe porquê. Porque é que ela não tenta ficar novamente com os filhos. “Porque aqui eles não teriam futuro”, respondeu-me.

Ela deixou os filhos partir para que um dia sejam alguém. Para que estudem em escolas em que os professores são formados para tal. Para que possam, mais tarde, ter um emprego que lhes dê mais que um ordenado que mal dá para pagar um tecto. Para que tenham comida na mesa.

É isto o amor de mãe. É esta perda total e absoluta do egoísmo de os querer, é este desejo imenso de que, mesmo longe, eles tenham mais do que teriam debaixo das nossas asas.

Parece-me fácil dizer que eu não seria capaz de o fazer. Mas a verdade é que daqui a poucos dias não existirá um continente a separar-me dos meus filhos. E que esta certeza de voltar me tolda a nitidez do raciocínio.

Voltarei com o coração cheio - de saudades deles e de experiências. Mas regressarei sobretudo  com a certeza redobrada de que ser mãe é ser capaz de os tornar menos nossos. Para que eles se tornem mais deles.

Alda Benamor

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