Aos 65 anos, Henri Pagnoncelli conta com uma vida carregada de experiências entre duas grandes áreas: medicina e representação. O ator sempre conseguiu conciliar ambas, o que lhe deu um vasto conhecimento tanto a nível pessoal como profissional.

Foi no Brasil que nasceu, mas deste sempre teve um carinho especial por Portugal, país para onde se mudou no ano passado e onde reside atualmente. Aliás, por cá integra o elenco da novela 'Valor da Vida', da TVI.

A viver uma nova fase, o artista esteve à conversa com o Fama ao Minuto, revelando o que mais o cativa no nosso país, sem esquecer o lugar que o viu nascer.

Henri fala também das dificuldades que hoje o Brasil enfrenta e partilha algumas recordações que ficaram para sempre na sua memória.

Como é que surgiu o convite para integrar o elenco da novela ‘Valor da Vida’?

Vim morar para Portugal, descobriram-me aqui e convidaram-me.

Então está neste momento a morar em Portugal?

Sim. Estava a acabar uma novela no Brasil, até maio, e já tinha vindo aqui acertar as coisas por causa do apartamento. Vim em junho para morar cá. Tive de voltar depois ao Rio de Janeiro para fazer um filme e assim vou levar agora a vida. Quero ficar a morar aqui, mas eventualmente dar um salto ao Brasil. Em julho recebi o convite [para gravar a novela portuguesa] e disseram-me que ia começar a gravar em outubro. E deu tempo de fazer as minhas coisas.

Num momento em que está mais delicado no Brasil, queria dar um tempo. E este tempo pode ser para o resto da minha vida ou não

Porque é que decidiu vir morar para Portugal?

Desde os anos 80 que vinha cá como turista e como curioso, com um afeto por Portugal. Vamos criando laços e vamos vendo que é uma boa oportunidade. Nesta altura da minha vida o meu filho já está grande, a minha mulher escreve e pode fazê-lo em qualquer lugar do mundo… Então, fico mais tranquilo para fazer esta experiência de morar um tempo fora. E num momento em que está mais delicado no Brasil, queria dar um tempo. E este tempo pode ser para o resto da minha vida ou não. Graças a Deus tenho essa liberdade na minha vida.

Como estão a correr as gravações? Facilmente se integrou na equipa?

Maravilhosas. [A equipa acolheu-me] muito bem. O pessoal acolheu-me muito carinhosamente. Sinto-me em casa. As conversas, as contracenas são muito gostosas. Só tenho a agradecer. Está a ser uma experiência maravilhosa que quero que se repita.

Além da representação, é ainda formado em medicina… Ainda exerce a profissão?

Já estou aposentado. Sou médico há 42 anos e ator também. Estava no primeiro ano da faculdade quando acabei por conhecer um grupo de teatro. Tinha uns amigos que estavam nesse grupo e como eu tinha carro fui buscá-los lá. Olhei e vi que tinham umas garotinhas bonitinhas e tal [risos]. Até que me desafiaram a participar. Começaram a adorar o meu trabalho até que os diretores aconselharam-me a fazer certos cursos. A primeira vez que fiz uma peça profissional foi no meu último ano de medicina. Em 1976 foi o início. Em medicina estava na área das doenças infecciosas e parei. Depois retomei como dermatologista. Hoje em dia exerço mais consultoria e faço a parte social no Brasil.

Sempre gostei de estudar muito. Quem gosta de futebol vai entender o que vou dizer agora: Sou o cara que pega na bola e corre de uma ponta à outra

Mas como é que conseguiu conciliar tudo?

Sempre gostei de estudar muito. Deixei as doenças infecciosas porque exigia muita emergência. O que faço agora não exige nada de emergência. Quem gosta de futebol vai entender o que vou dizer agora: sou sou o cara que pega na bola e corre de uma ponta à outra.

Recordando a infância, quais as melhores recordações que guarda?

Sou nascido e criado à beira da praia… Um cantinho que é o Leme. Somos sete irmãos, todos homens, então jogávamos muito futebol, na praia, e todos os desportos… Tenho também a lembrança de tocar piano. A minha mãe e todo o mundo a tocar piano...

Aos 65 anos, qual foi a melhor fase da sua vida? Porquê?

A melhor acho que têm sido estes 10/15 últimos anos. Ficar mais velho, mais maduro, a minha relação com a minha família, a minha mulher, com o meu filho… Acho que a felicidade não é uma coisa constante. É uma coisa de momentos. A fase mais sofrida é a da adolescência. A maneira como encaramos a vida, com a idade é que foi amadurecendo.

Lisboa é o Rio de Janeiro que deu certo. O povo generoso, a geografia da cidade, essa proximidade, essa interação com a água, com o mar

Como recorda as primeiras pisadas que deu em terras portuguesas?

Em 86 foi a primeira vez que vim cá e desde a primeira vez que vim que me senti muito bem. Fiquei logo com vontade de viver aqui. Numa das vezes que vim aqui as pessoas começaram a gritar na rua quando me viam: ‘É ele’. Porque estava a passar uma novela que eu fazia e estava muito popular cá.

O que o cativou logo no primeiro dia no nosso país?

A gentileza e a proximidade. Lisboa é o Rio de Janeiro que deu certo. O povo generoso, a geografia da cidade, essa proximidade, essa interação com a água, com o mar, é muito como no Rio de Janeiro. É uma proximidade muito grande. Sinto-me muito à vontade aqui.

Como tem sido a sua estadia?

Deliciosa. Há muita coisa para conhecer, muita história. É muito interessante…

Nestes últimos meses já viveu alguma experiência caricata?

Já tive experiências no Brasil que foram engraçadas. Quando fazia de vilão na novela ‘Laços de Família’ e estava com a minha família, a minha mulher, quando uma mulher me 'xingou', chamou-me à atenção como se fosse um filho mal criado. A mulher entrou na loja e não parou. Então, fui ter com a minha mulher e entrei nos provadores [para fugir da mulher] e escondi-me lá. Ela ia bater-me por causa da minha personagem… Uma vez, numa outra novela que fazia, estava a andar no meio da rua quando ouvi um grito do outro lado: ‘assassino’. Era uma maneira de reconhecer o meu trabalho. O meu obrigado pela audiência e pela retribuição ao meu trabalho.

Vi na sua conta do Instagram que pratica exercício físico... É importante para se manter jovem?

É! E acho que não é só para me manter jovem, mas também saudável. Manter-nos jovens só é possível com uma saúde mais equilibrada. Faço exercício de forma moderada. Vou ao ginásio e gosto muito de fazer caminhadas.

O que me entristece é que culturalmente a proposta do governo de Bolsonaro é nula, eles não têm a menor noção da importância da cultura para o bem estar de um povo

Já conta com uma carreira de mais de 40 anos no mundo da representação, o que mudou comparando com o início desta longa caminhada?

Hoje acho que tenho mais tranquilidade e menos ansiedade para encarar e descobrir as personagens. Mas a expectativa e o prazer permanecem como no início da carreira.

Jair Bolsonaro foi eleito presidente do Brasil. O que é prevê para o seu mandato?

Temos sempre esperança e torcermos para que tudo dê certo e o país melhore. O que me entristece é que culturalmente a proposta deste governo é nula , eles não têm a menor noção da importância da cultura para o bem estar de um povo.

Como é que hoje em dia se vive no Brasil, comparando com há 20 anos?

O país é muito lindo e com todas as potencialidades. Mas a vida é muito cara no Brasil e a injustiça social enorme.

O Brasil é muitas vezes notícia pela falta de segurança. Há, de facto, um medo constante quando vamos na rua, por exemplo?

Não vejo 'vontade política' de melhorar a segurança, o que, na minha opinião, só se consegue dando prioridade à educação e a saúde .

O que ainda lhe falta concretizar?

Não levo a vida pensando no 'fim'. Para mim, a melhor personagem está por vir, a próxima será sempre um maravilhoso desafio a encarar. E a dramaturgia reserva aos 'idosos' personagens fantásticas. Então, -'Que venga el toro!'

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