Uma das conclusões do seu estudo é de que a inexistência do ciúme não é saudável para o relacionamento. Como explica esta situação?

De fato, são os sujeitos que manifestam ciúme moderado que evidenciam maiores níveis de satisfação sexual, podendo colocar-se a ênfase na perspetiva que encara o ciúme como protetor da relação e demonstração de interesse pelo outro. É possível até, em alguns casos, verificar um aumento do desejo associado ao ciúme, motivado pela competitividade. Por outro lado, os sujeitos que manifestam níveis de ciúme mais baixos são aqueles que se encontram mais insatisfeitos, o que coloca a hipótese de que a ausência de ciúme não é tão positivo como muitas vezes se ouve no senso comum, pois poderá evidenciar a falta de interesse pelo outro e o desinvestimento na relação. Este aspeto surge muitas vezes como algo pior do que ter um companheiro ciumento. Não nos devemos esquecer que estamos a falar em termos globais, onde as exceções não se incluem.

Porém, quando o ciúme aumenta, a satisfação sexual diminui, revela o mesmo estudo…

Poderá parecer contraditório…Vamos então desconstruir isto. A ausência de ciúme parece conduzir a uma menor satisfação, mas se o mesmo atinge níveis desproporcionais acarreta igualmente grande sofrimento a quem o vivencia e a quem é vitima do mesmo. Passamos de um ciúme baixo que demonstra falta de interesse para um ciúme de tal forma intenso que a obsessão e os pensamentos irrealistas se apoderam completamente da relação, destruindo-a. Encontramos esta ideia na frase que diz “Ao mesmo tempo que o ciúme é capaz de proteger o amor, pode destruir um relacionamento” (Fonseca, Nery & Benigno, 2005).

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Níveis de satisfação sexual mais elevados naqueles que têm mais habilitações literárias. Como se podem relacionar estes dois itens?

A experiência sexual é produto de um complexo conjunto de processos sociais, culturais e históricos e os estudos têm verificado que o nível educacional é uma variável que se associa positivamente com a satisfação sexual, tanto em homens como em mulheres. A área da sexualidade tem sofrido alterações culturais ao longo do tempo, sendo que aspetos considerados “anormais” antigamente surgem agora até como tratamento de várias disfunções sexuais, referindo-se como exemplo a masturbação, que antes era encarada como um ato “anormal”, e atualmente é parte integrante dos tratamentos para algumas disfunções sexuais.

Ainda assim…

Tem existido um esforço crescente por parte dos psicólogos em explicar às pessoas a abrangência da sexualidade, não a limitando à relação sexual propriamente dita e à reprodução. Esta envolve a expressão de carinho, o afeto, o amor, a promoção de valores culturais fundamentais que valorizam o bem-estar físico e psicológico do sujeito. É ainda uma forma de comunicação, prazer, ternura, uma terapia e abertura ao outro. Tudo isto é resultado de uma maior consciencialização junto da população, de um maior acesso à informação, o que possibilita uma vivência da sexualidade de forma mais livre, sem mitos e baseada na comunicação. E aqui podem estar inerentes, entre outros fatores, os aspetos culturais e educacionais.

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Ciúme emocional e o comportamental. Pode explicar melhor estes conceitos?

Aparentemente, o ciúme não se resume apenas a um sentimento ou a uma emoção. Este é bem mais complexo, englobando aspetos como o amor, o ódio, o medo, a raiva, a inveja, entre outros. Diria que este é, talvez, um conjunto de experiências emocionais que ocorrem perante a ameaça de um rival, quer este seja real ou imaginário. Parece-me também redutor falar de ciúme como um aspeto unidimensional, pois este engloba componentes emocionais, cognitivos e emocionais. Daí falarmos em ciúme emocional, cognitivo e comportamental. Conseguimos com esta distinção perceber de que forma os diferentes tipos de ciúme influenciam a relação amorosa.
Assim, ao falarmos em ciúme emocional referimo-nos a sentimentos negativos experienciados como resultado de uma ameaça percebida. Por exemplo, se um parceiro comenta como aquela pessoa é atraente, o outro membro do casal terá uma resposta emocional, que poderá ser tristeza, raiva ou até não despertar uma reação emocional negativa. Se a reação for negativa, falamos em ciúme emocional. Já o ciúme comportamental diz respeito aos comportamentos que evidenciam a existência de ciúme cognitivo e emocional, ou seja, o ciúme emocional e cognitivo expressa-se por comportamentos. Podemos exemplificar com o mexer nas coisas do parceiro, questionar sobre os paradeiros do mesmo ou ligar-lhe inesperadamente para o sondar.

E o ciúme doentio…como pode ser controlado? Como deve atuar o alvo desse ciúme?

É difícil saber quando o ciúme passa a ser patológico, quando este é visto por muitos como “normal”. Contudo, supõe-se que o ciúme apresenta uma dimensão patológica quando causa sofrimento à pessoa que vivencia ciúme ou que é alvo do ciúme. O aspeto patológico não é o ciúme em si mesmo, mas a ilusão de que o outro tenha cometido uma infidelidade que não ocorreu.
O ciumento duvida de si mesmo e não necessita de provas para acusar o parceiro. A linha divisória entre imaginação e certeza é muito ténue, sendo o ciúme delirante um conhecido fator de risco para a violência e homicídio. Nestes casos, a vítima deve zelar pelo seu bem-estar físico e psicológico, tendo consciência que uma relação que se diz “amorosa” não pode, em circunstância alguma tolerar a agressão (seja ela qual for) e a anulação de si próprio.Nestes casos, o tratamento psicológico é uma mais-valia, sendo que algumas estratégias passam pelo controlo da cólera e treino de assertividade e comunicação.

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As relações duradouras tendem a ser as menos “ciumentas”. Será um sinal de estabilidade positivo ou negativo no sentido do comodismo?

Podemos olhar para este resultado de formas distintas. A ausência de ciúme pode revelar perda de interesse ou a ideia de “bem-adquirido” que gera o comodismo. Todavia, os anos de convivência geram uma diminuição na perceção de ciúme pela partilha e confiança que se estabelecem entre o casal. E quando dizemos “tendem a ser menos ciumentas” não implica necessariamente a ausência total de ciúme. Assim, é necessário estar atento à conjugação com outros fatores que conjuntamente serão indicativos de uma estabilidade positiva ou da mera acomodação.

O sexo feminino regista maiores níveis de ciúme. Tem sido sempre assim ao longo dos tempos ou nota-se uma alteração à medida que a mulher vai ocupando uma posição mais ativa na sociedade?

São vários os estudos que obtêm este resultado, aliás, a maioria dos estudos revela isto. Isto pode dever-se a uma maior facilidade que as mulheres têm em demonstrar o ciúme percecionado. Para elas, o ciúme parece emergir como uma estratégia de manutenção e proteção da relação. Assim, os estudos a que tive acesso parecem não nos encaminhar nesse sentido, ou seja, desde o início dos anos 80 que têm sido registados valores mais elevados no sexo feminino, o que nos faz pensar que o ciúme é algo atemporal e que se mantém independentemente do papel que se ocupa na sociedade. Eventualmente, poder-se-ão denotar diferenças na manifestação do mesmo. O ciúme está presente desde os textos bíblicos, mitos, tragédias, obras de literatura, dança e pintura. Contudo, a liberdade concedida à mulher no domínio da relação conjugal nem sempre foi como hoje a conhecemos, daí que a forma como o ciúme se manifesta certamente se tem alterado com o evoluir dos tempos.

Consegue-se perceber se os portugueses são mais ou menos ciumentos do que os restantes europeus? Há estudos nesse sentido?

Não é possível afirmar quem são mais ou menos ciumentos. Começamos logo pela falta de estudos realizados em Portugal. O meu estudo é pioneiro na avaliação do ciúme nestes moldes, o que não deixa margem de comparação com outros estudos realizados em Portugal. Além disto, a maior parte dos estudos realizados nas últimas décadas decorreu nos Estados Unidos, sendo que Portugal necessita investir mais na investigação científica e nos apoios à investigação. Não deixa, contudo, de ser um bom mote para novos estudos.

E porque é importante estudar o ciúme?

O ciúme é frequentemente observado nas relações humanas, mas o caminho para a sua compreensão parece ser ainda longo, começando até mesmo pela própria definição do conceito, pois se é verdade que todos utilizamos a palavra “ciúme” com alguma regularidade, é igualmente uma realidade que se nos for pedido para a definir, a tarefa revela-se um pouco complexa.
Se o ciúme integra grande parte das relações amorosas, é importante que se compreenda de que forma influencia. O estudo científico do mesmo só se justifica se daí se retirarem conclusões que contribuam para a compreensão dos relacionamentos humanos e especificamente dos relacionamentos amorosos.

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