O convite do momento atual é que consigamos observar os benefícios das sinergias que se apresentam nos nossos caminhos. Poderá ser um grande desafio, pois efetivamente pode soar mais fácil do que é na realidade. Porquê? Porque existe toda uma geração que cresceu a ouvir os seus educadores dizerem "tens que estudar para ser alguém na vida", "tens de ser independente", e também, principalmente no caso das mulheres, "não podes depender de um homem".

Pois bem, existem muitas crenças nas expressões supramencionadas, e são crenças que podem limitar bastante a forma de estar na vida e nas relações, sejam elas de cariz amoroso, profissional, familiar ou de amizade.

É importante reforçar junto das crianças que não é o que escolhem estudar aos 14 anos de idade que as definirá para sempre, tal como não será a sua profissão que as vai definir por si só. Serão sim, o seu caráter, os seus valores, os seus princípios, observados então na expressão dos seus comportamentos, da gentileza das suas palavras, na sua compaixão e empatia pelo lugar do outro.

Depender de alguém ou de alguma circunstância, pressupõe que não estamos a exercer o nosso poder pessoal, que não estamos dotados da nossa inteligência emocional. Contudo, quando nos encontramos numa dinâmica de interdependência podemos verificar que estamos a colaborar, que estamos em sinergia, que estamos disponíveis para apoiar o outro, e, também, recetivos para aprender e para criar espaço para o outro mostrar os seus dons.

Naturalmente que é difícil conceber o conceito de dar espaço para o outro evidenciar os seus dons. Digo, naturalmente com tristeza, que não temos sido educados para apoiar o outro, e sim para sermos 'o melhor'. Mas nunca poderemos ser melhores em nada se não existir um lugar de humildade, onde reconhecemos que precisamos do outro para escutar o que queremos ensinar, comprar o que estamos a vender e partilhar feedback da experiência que teve connosco.

Um benefício óbvio que podemos nomear do momento da quarentena é a solidariedade que se gerou em pequenas comunidades. E se há quem olhe e só consiga ver o copo meio vazio - e existem sempre pessoas com uma incapacidade para ver a prática do bem - felizmente, existe quem consiga sempre olhar e ver um copo meio cheio, através de um lugar empático, amoroso e generoso.

Ao vivermos esta energia da era de aquário, e sentimos agora um cheirinho do que poderá vir a ser, constatamos que as sinergias são cruciais. Percebemos que pedir ajuda não é para fracos e sim para corajosos, para inteligentes que identificam as suas vulnerabilidades, os seus pontos fracos, e, dotados desta inteligência, recorrem ao outro.

Mulheres e homens devem ocupar os seus lugares, devem honrar a sua natureza, e tanto faz se é uma mulher a pedir ajuda ou se é um homem a fazê-lo.

Tendemos a ignorar o facto de que fazemos parte de um sistema maior, de que, porventura, seremos a espécie menos capaz de se orientar sozinha. Hoje em dia vamos notando que existem cada vez mais pessoas a assumirem que fazem terapia, e ainda bem que assim é. Para quê condicionar o mundo a uma caixinha mental que alimento com uma narrativa tóxica, onde me julgo porque não me sinto competente, confiante, seguro, se posso curar as minhas feridas através de um olhar atento aos meus padrões, se posso adotar medidas distintas, se posso pedir a um colega ajuda para desenvolver um trabalho que irá ficar muito mais rico com o seu contributo?

O nosso ego é incapaz de aceitar a vulnerabilidade. Porquê? Talvez porque educamos os nossos filhos dizendo-lhes que eles são a coisa mais importante da nossa vida, que eles são a pessoa mais especial do mundo. E assim crescem as crianças, sob a ameaça de que não poderá haver ninguém mais especial, porque isso irá colocar em causa quem são. Se conseguíssemos transmitir que o outro é igualmente especial, que a pessoa mais importante da nossa vida somos nós próprios, estaríamos eventualmente a ser  um melhor exemplo.

Existem demasiadas crianças com um papel de salvadoras na sua família, existem demasiadas crianças que medem cautelosamente o que escolhem dizer para não ferir suscetibilidades (o ego) dos seus pais. Têm que ser fortes, tem que ser as melhores do mundo, têm que SER alguém na vida, sem que nunca lhes seja transmitida a verdade do que é SER alguém na vida, pois o conceito está desvirtuado e intimamente vinculado a um lugar da matéria, do TER, do poder, da hierarquia. E é aqui que muitas vezes falhamos:  ignoramos a ancestralidade, desvalorizamos o respeito pelo lugar de quem é mais velho, mais experiente, mais sábio. Importa ter, não importa ser.

Ser é respirar, não há outra forma de sermos, não há outra forma de estar aqui e agora, presentes, palpáveis, à distância de um abraço, se não estivermos a respirar.

E quem é que ensina as crianças a respirarem? A urgência de dizer 'pronto, pronto, já passou' é corriqueira, não abre espaço para a criança reconhecer as sensações e emoções que a invadem. Vamos assim, instalando a ansiedade, a frustração, o medo de ser fraco ou 'inferior'.

A parentalidade consciente vem trazer uma nova abordagem à educação das crianças, e, apesar das opiniões divergirem, acredito que é benéfico a criança sentir-se como alguém que é vista e considerada, de acordo com a natureza do que é: uma criança. Quando um educador consegue transmitir este princípio, SER este exemplo, a criança em causa irá conseguir também reproduzi-lo, futuramente, com as pessoas que se cruzarem na sua vida.

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