Em Portugal, a taxa de suicídio ronda os 10 por cada 100.000 habitantes, o que significa que, apenas num dia, suicidam-se cerca de três pessoas. Sabia que se estima que, por cada falecimento, existam cerca de seis pessoas em luto? Por isso, cada vez que uma pessoa comete o suicídio, diversas famílias são abaladas por um sofrimento e horror indescritíveis.

O suicídio pode ser a experiência mais avassaladora que uma família pode vivenciar. Enquanto evento traumático, origina um processo de luto com um risco acrescido de patologia, bem como de um dos membros da família recorrer ao suicídio para terminar com o sofrimento. Este risco é resultado da vivência de sentimentos de culpa, vergonha, revolta e rejeição, tendencialmente motivados pelo estigma e distanciamento da rede de suporte social e que facilitam o isolamento da pessoa em sofrimento.

Uma vez que as famílias sobrevivem ao suicídio, mas nunca ao sofrimento da perda, a ajuda precoce pode ser benéfica

Esta perda provoca um vazio e uma total desorganização na estrutura do sistema familiar, a qual exige uma reorganização dos papéis e das relações. Contudo, esta tarefa tende a ser dificultada pela diminuição da coesão familiar que é gerada pelo sofrimento da perda.

A crise familiar provocada pelo suicídio pode ser resultado de três fatores, designadamente: 

  1. As expectativas de cada membro em relação ao comportamento do outro;
  2. A perceção do papel do outro no suicídio;
  3. A existência de coerência nos padrões de comunicação da família.

No que remete para as expectativas, predomina a antecipação do apoio incondicional do outro. Porém, a pessoa pode ser surpreendida com uma resposta de total indisponibilidade emocional, dadas as dificuldades do outro em gerir o seu próprio sofrimento.

Tome-se como exemplo um adolescente que vivencia a perda de um irmão. Não raras vezes, este não perde apenas um irmão, mas os “pais do passado” e, inclusivamente, tende a existir uma sensação de troca de papéis na família.

Como reagir?

Em caso de ideação suicida ou se conhecer alguém em risco, procure um médico.

Em caso de emergência, ligue para o 112.

Mais contactos

Centro SOS-Voz Amiga (diariamente das 16h00 às 24hoo)

- 21 354 45 45

- 91 280 26 69

- 96 352 46 60

Linha Telefone Amigo (todos os dias das 17hoo à 01h00)

239 72 10 10

Linha Telefone Amizade (de segunda a quinta-feira das 16h00 à 01h00; sexta-feira e sábado das 19h00 às 21h00 horas)

- 800 205 535

Devido ao sofrimento, os pais encontram-se emocionalmente distantes e indisponíveis e, por isso, são as próprias crianças ou adolescentes que assumem o papel de cuidador. Apesar do medo, inseguranças e necessidade do colo das figuras parentais, estes recorrerem ao silêncio numa tentativa de as proteger do sofrimento.

Neste sentido, podem existir mudanças nas dinâmicas familiares, como a adoção de uma postura de constante hipervigilância ao comportamento dos outros. Por exemplo, os pais tendem a mudar as suas práticas parentais. Na maioria das vezes, surgem comportamentos de infantilização e desencorajamento da autonomia e independência dos filhos sobreviventes ou, por oposição, uma maior exigência e comparação com o irmão perdido.

Nestas situações, é exigido a crianças ou adolescentes para gerir o sofrimento da perda e, simultaneamente, a sensação de competição com o irmão perdido. 

No que diz respeito à perceção do papel do outro no suicídio, surge a culpa como a emoção predominante. Existe a tendência a responsabilizar o outro pelo suicídio e, por sua vez, a originar conflitos e o afastamento emocional entre os membros. Este comportamento é, na maioria das vezes, resultado da sensação de impotência e culpa da própria pessoa por não ter impedido a morte. Por exemplo, quando o suicídio é cometido por um idoso, o cuidador tende a ser invadido por pensamentos de responsabilização, bem como por sensações como a raiva e a indignação, ao percecionar o suicídio como um ato de egoísmo e desvalorização pelos cuidados prestados.

Nas situações em existiram ameaças que foram desvalorizadas pela família, potencialmente resultado dos mitos associados à terceira idade (por exemplo, que a tristeza e o isolamento são expectáveis na velhice e não um sinal de depressão) ou ao próprio suicídio (por exemplo, “Quando alguém comete suicídio, não faz ameaças, guarda os planos em segredo”).

Evitar a dor pode trazer problemas

Para o bem-estar e coesão familiar, são importantes padrões de comunicação semelhantes. Enquanto algumas famílias privilegiam a comunicação aberta acerca do impacto emocional do suicídio, para outras é o diálogo reduzido, ou até mesmo o silêncio, como estratégia de evitamento do contacto com a dor, que permite manter um aparente, mas frágil, equilíbrio familiar.

Os conflitos tendem a surgir quando um membro deseja expressar-se acerca da perda e os restantes exigem que seja mantido o silêncio, numa tentativa de evitar o contacto com o sofrimento. Esta incongruência na comunicação e expressão do luto explica, em parte, as taxas de divórcio aquando da perda de um filho. Devido aos papeis de género e expectativas sociais de que os homens devem assumir o papel de cuidador inabalável, surgem dificuldades em comunicar e expressar a dor, originando, não raras vezes, conflitos conjugais.

As investigações revelam que a vivência do suicídio se encontra associada ao desenvolvimento de ansiedade, sintomatologia depressiva e dificuldades escolares na infância e a comportamentos de risco

A existência de problemas financeiros pode agravar os conflitos familiares, particularmente quando originados pela perda. Tome-se como exemplo famílias que perderam o membro que providenciava o sustento económico. Simultaneamente à gestão do sofrimento, acrescem novos desafios e responsabilidades. O mesmo se aplica a situações em que o suicídio foi motivado, em parte, por dificuldades económicas, perante as quais a família se sente responsável.

As dificuldades na dinâmica familiar medeiam a crise que é vivenciada, individualmente, por cada um dos membros, com impacto na saúde física (por exemplo, risco elevado de doenças cardiovasculares, diabetes) e mental (por exemplo, depressão, ansiedade, stress pós-traumático).

Uma vez que as famílias sobrevivem ao suicídio, mas nunca ao sofrimento da perda, a ajuda precoce pode ser benéfica. Enquanto lugar seguro e ausente de julgamentos, a consulta especializada de apoio ao luto pode providenciar ferramentas para gerir o sofrimento do próprio e as mudanças nas dinâmicas familiares, no sentido de alcançar o bem-estar pessoal e familiar.

As investigações revelam que a vivência do suicídio se encontra associada ao desenvolvimento de ansiedade, sintomatologia depressiva e dificuldades escolares na infância e a comportamentos de risco, como o consumo de álcool e drogas, na adolescência.

As explicações são de Mauro Paulino e Sofia Gabriel, da MIND – Psicologia Clínica e Forense.

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