O espetro da doença associada aos miomas uterinos pode ter implicações significativas na vida das mulheres: aumento do volume do útero com alteração do volume do abdómen e desconforto abdominal; dor abdominal; aumento do volume das perdas durante a menstruação ou perdas hemorrágicas irregulares habitualmente abundantes.

10 doenças perigosas que não apresentam qualquer sintoma
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As perdas de sangue, para além de comprometerem a atividade diária da mulher, podem acarretar a anemia e mesmo deficiência de ferro com implicações no bem-estar geral, fadiga fácil, falta de concentração e força muscular e ainda irritabilidade.

A opção cirúrgica do tratamento dos miomas, e pela respetiva experiência, tem sido a mais divulgada com evolução progressiva para uma abordagem mais limitada, o que tecnicamente se denomina de cirurgia minimamente invasiva, ou ainda a possibilidade de realização de atos médicos como a radiologia de intervenção para a embolização (colocação de próteses de reduzidas dimensões) com a redução da vascularização dos miomas.

No entanto, atualmente existem opções não cirúrgicas para corrigir os sintomas associados aos miomas, nomeadamente as perdas hemáticas abundantes. As evidências científicas progressivamente demonstram que tais opções podem ser úteis em mulheres que estão indecisas em relação à cirurgia ou que necessitam de controlo das perdas de sangue e equilíbrio da anemia ou deficiência de ferro antes da programação da cirurgia, ou mesmo em mulheres que podem não necessitar a longo prazo da intervenção cirúrgica.

2 milhões de mulheres com miomas em Portugal

Em Portugal, estimam-se 2 milhões de mulheres com miomas e das quais podem existir casos com sintomas associados. A localização dos miomas pode inclusivamente interferir com a fertilidade da mulher. Nestas condições, todos os esforços devem ser realizados para a preservação uterina no sentido de garantir uma posterior gravidez.

Nos anos de 1970, a histerectomia (remoção cirúrgica do útero) como o sem anexectomia (remoção das trompas e dos ovários), era o tratamento de escolha para miomas com hemorragias uterinas abundantes, anemia, dor abdominal e pélvica. Nos últimos 30 anos, ocorreu uma evolução significativa para uma abordagem menos invasiva dos miomas. A miomectomia (remoção apenas do mioma) tem sido mais difundida, quer com a visualização do mioma na cavidade do útero (histeroscopia), quer com a visualização do mioma na cavidade uterina (laparoscopia).

Pode-se inferir que numa mulher com miomas em que a principal queixa corresponde a perdas hemáticas abundantes, a opção de tratamento médico pode ser equacionada.

Histerectomia: que implicações a longo-prazo?

Esta abordagem no tratamento dos miomas deve ser considerada na falência de tratamentos anteriores, nas mulheres que não pretendem preservar o seu útero e naquelas que aceitam os riscos cirúrgicos e anestésicos.

São reconhecidas consequências a longo-prazo desta cirurgia: a vertente abdominal associa-se com maior impacto sexual; as mulheres submetidas a cirurgia têm maior probabilidade de atingir a falência ovárica (prematura ou não) antes da idade mais reconhecida (50 a 51 anos) e podem ter aumento do risco de doença e mesmo mortalidade (por doença cardiovascular, osteoporose e fragilidade fraturária, doenças neurológicas e psiquiátricas).

O acetato de ulipristal, tratamento por via oral, constitui um desafio estimulante na abordagem médica dos sintomas associados aos miomas e pode redefinir a estratégia de abordagem das mulheres com queixas e miomas uterinos.

As evidências na prática clínica são crescentes, quer na capacidade em reduzir a quantidade de perda de sangue, quer na melhoraria dos parâmetros da anemia. Recentemente surgiram dados que revelam a sustentabilidade da medicação e a extensão do tratamento por um período longo com boa tolerância na maior parte dos doentes.

Um artigo do médico Joaquim Neves, especialista em ginecologia e obstetrícia e presidente do Conselho Fiscal da Sociedade Portuguesa de Contraceção.

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