Comer, beber, dormir, rir, chorar... O corpo humano está em constante comunicação consigo mesmo para conseguir coordenar todas as suas acções e, para isso, criou uma espécie de mensageiros internos exclusivos: as hormonas.

As hormonas são men­sageiros do organismo. Avisam se temos fome, se temos de acordar ou se devemos passar da infância à adoles­cência. Provêm de uma glândula ou órgão do sistema endócrino e são tão poderosas que basta uma pequena quantidade destes men­sageiros para provocar grandes efeitos sobre o organismo. Existem muitas mas, neste arti­go, vamo-nos focar nas que actuam especifica­mente na mulher.

Problemas que podem ocorrer:

1. Acne

Quando as glândulas se­báceas da pele são activadas pela influência das hormonas (andro­génios), podem produzir mais sebo do que o normal, causando as típicas borbulhas.

Como tratar? Tomar a pílula durante algum tempo pode ser a solução se a acne for severa e se o médico assim o indicar.

2. Atraso na puberdade

A passa­gem de «menina a mulher» começa entre os oito e os 14 anos. Deve consultar-se um especialista se não houver desenvolvimento mamário ou pêlos genitais e axilares depois dos 14-15 anos ou se a menstruação não tiver aparecido depois dos 16.

Como tratar? Se a origem for hormonal, pode administrar-se estrogénios e progesterona para induzir a puberdade de forma artificial.

3. Excesso de pêlos

Podem aparecer dois tipos: a hipertricose (aumento em todo o corpo) ou o hirsutismo (quantidade excessiva em zonas masculinas, como as patilhas, peito...).

Como tratar?
Se o problema for o excesso de hormonas ováricas ou supra-renais, resolve-se com tratamento hormonal.

O que acontece na época fértil?

A partir das mudanças que ocor­rem na adolescência, o corpo da
mulher prepara-se para conceber. As hormonas produzidas pelos ovários
preparam o organismo para uma eventual gravidez, num ciclo que se repete
a cada 28 dias aproximadamente. Divide-se em três fases:

1ª fase: Os estrogénios produzidos pelos ovários es­timulam a
proliferação das células do endométrio para que a sua mucosa se vá
preparando para a chegada do óvulo fecundado.

2ª fase: Depois da ovulação (que ocorre por volta do 14º dia do
ciclo, se for de 28), o nível de progesterona aumenta e a mucosa do
endométrio alcança as melhores condições para o óvulo nidificar.

3ª fase: Se não houver fecun­dação, os níveis hormonais des­cem e
o estado do endométrio degrada-se até que, por volta do 28º dia,
começam a cair, dando início à menstruação.

Problemas que podem ocorrer:

1. Desajustes menstruais

Uma menstruação é considerada nor­mal
quando aparece num intervalo que varia entre os 21 e os 35 dias e que
dura, aproximadamente, quatro dias, com uma perda de sangue equivalente a
quatro tam­pões ou pensos higiénicos diários. Qualquer mudança pode ser
consi­derada um desajuste, por excesso ou defeito na sua frequência,
quantidade ou duração.

Como tratar? O médico deve fazer um historial clínico detalhado e
alguns exames (check-up gineco­lógico e citologia). Se a causa for
hormonal, costuma optar-se por anticonceptivos orais.

2. Endometriose

É a presença de tecido endometrial fora do útero,
que também sangra durante a menstruação, formando nódulos e quistos que
podem bloquear as trompas de Falópio, levando à infertilidade.

Como tratar? É necessário operar com uma laparoscopia (sem abrir),
para remover os focos de tecido anómalo. Depois da intervenção,
regula-se a actividade hormonal com fármacos específicos.

O que acontece na gravidez?

Quando um óvulo é fecundado ocorrem uma série de mudan­ças no corpo
da mulher para se adaptar a esta nova situação e facilitar o
crescimento do bebé: a produção hormonal aumenta e o sangue materno fica
com um nível elevado de progeste­rona, estrogénios, gonadotropina
coriónica (HCG) e lactogénio placentário (HPL). Cada uma destas hormonas
desempenha uma função concreta para impe­dir qualquer alteração no
feto:

Progesterona: Impede as contracções antes do tempo e acelera o
metabolismo para assegurar o fornecimento de nutrientes e oxigénio ao
feto. É responsável por alguns incó­modos da gravidez, como prisão de
ventre, ardor no estômago e mudanças de humor.

Estrogénios: Regulam o cres­cimento dos músculos do útero e fazem
com que estes se tornem fortes para o parto. Ajudam a formar as
glândulas mamárias e conseguem que a grávida tenha uma pele mais
flexível.

Hormonas HCG e HPL

Geram energia adicional para o
desenvolvimento do feto e, assim como os estrogé­nios, contribuem para o
aumento das mamas e para o desenvolvimento das glândulas mamárias.

Problemas que podem ocorrer:

1. Diabetes gestacional

A influência da HPL na gestação pode
provocar diabetes mellitus (tipo 2) durante a gravidez. Apesar de ser
uma patologia tem­porária, se não for controla­da aumenta o risco de
voltar a manifestar-se mais tarde, para além de aumentar, durante a
gravidez, o risco de contrair infecções, ter um parto prematuro e
provocar hipertensão na mãe.

Como tratar?
Na gravidez, a mulher com este tipo de patologia
recebe insulina através de uma injecção ou é ensinada a usar
dispositivos para verificar os níveis de açúcar e ajustar a dose de
insulina. Depois do parto costuma desaparecer.

2. Hipertensão gestacio­nal

Corresponde a uma subida de pressão
arterial
, no fim da gravidez, acima dos valores habituais (antes de
engravidar), associada à pre­sença de proteínas na urina.

Como tratar? É importante controlar a pressão arterial durante a
gravidez.

O que acontece na puberdade?

Nos primeiros anos de vida, o sistema hormonal está em repou­so,
mas paulatinamente, o relógio biológico hormonal activa-se e a puberdade
chega. Assim, «o início da puberdade corresponde a vários passos
progressivos da maturidade do sistema nervoso central (hipotálamo e
hipófise), sincronizado com a promoção do crescimento e desenvolvimento
dos orgãos genitais (periférico)», explica Clara Bicho, ginecologista e obstetra.

Trata-se da «transição biológica entre a função reprodu­tiva
imatura para a função repro­dutiva adulta».O corpo demora algum tempo
até controlar este processo, por isso observam-se mudanças físicas –
que, por vezes se tornam incómodas – como a acne ou o excesso de pêlos,
ou as mudanças de comportamento.

  • Os ovários começam a pro­duzir estrogénios e progesterona,
    responsáveis por uma grande parte das mudanças que ocorrem na mulher
    (desenvolvimento das mamas, distribuição feminina da gordura,
    crescimento esquelético, crescimento e desenvolvimento do canal vaginal e
    do útero).
    De acordo com Clara Bicho, «as glândulas supra-renais também
    se envolvem nesta modifica­ção, estimulando a produção de androgénios,
    responsáveis pelo aparecimento de pêlos nas axilas e nos genitais».

  • Com o passar do tempo, a secreção destas hormonas passa a ter um carácter cíclico e regular (ciclo menstrual).
  • Quando o útero dispõe de estrogénios suficientes, ocor­re a
    primeira menstruação ou
    menarca. Nos primeiros ciclos menstruais não costumam existir óvulos, já
    que demoram cerca de oito a 10 meses a amadurecer depois dessa primeira
    menstrua­ção (ciclos anovulatórios).

  • Também ocorre um aumen­to na secreção de prolactina (responsável
    pela produção de leite na gravidez) que é poten­cializada pelo
    estrogénio para um crescimento da estrutura mamária normal.

E na menopausa?

É o final da idade fértil. A passagem dos anos esgota a
capacidade hormonal dos ovários.

  • Com o tempo, os ovários ficam menos receptivos à estimulação pela
    hormona folículo-estimulante (FSH) e da hormona luteíni­ca (LH),
    segregadas pela hipófise. Por conseguinte, os ovários segregam menos
    estrogénios e progestero­na e, no final, a ovulação desaparece.

  • A menopausa come­ça um ano após a última menstruação (ausência de
    fluxo menstrual durante 12 meses) ou com avaliação bioquímica (FSH e LH
    elevadas). A idade média em que ocorre é aos 50 anos.

Problemas que
podem ocorrer:

Sintomas menopáusi­cos físicos:
afrontamentos, suores, mal-estar
geral, palpitações, inflamações da bexiga e da vagina e secura vaginal.

Psicológicos: fadi­ga, diminuição de memori­zação, irritabilidade,
insónias e nervosismo.

Como tratar? A melhor op­ção é a terapia hormonal de substituição à base
de estro­génios e progesterona.

Saiba mais sobre menopausa aqui

Contracepção hormonal

Como funciona?

«A contracepção hormonal fundamenta-se simplesmente na
inibição da ovulação, isto é, inibe a secrecção das gonadotro­finas (FSH
– hormona que estimula o crescimen­to dos foliculos e LH – hormona
responsável pela ovulação-libertação do folículo).»

É segura?

«Se seguir o aconselhamento médico e as orientações da bula, é
segura na inibição da ovulação. Quanto aos problemas secundários da
pílula (varicosidades, etc), estão relacionados com a resposta
individual ao produto e, por isso, a importância de uma consulta
personalizada baseada na história familiar e pessoal.»

Em que idade?

«O ideal é começar a ser seguida antes de iniciar
actividade sexual e com aconselhamento médico. Mesmo que já tenha
iniciado por iniciativa própria, deve consultar o médico para evitar as
situações graves nos casos em que não deve ser prescrita a pílula.»

Terapêutica Hormonal de Substituição (THS)

Em que casos deve ser utilizada?

«Os estudos científicos comprovam a
ocorrência de uma série de alterações na menopausa: fadiga, nervosis­mo,
cefaleias, insónia, depressão, irritabilidade, dor muscular e
articular, tonturas, palpitações, dispareunia (dor durante o coito),
diminuição da libido, alteracões vasomotoras e atróficas, etc.

Estas
fazem parte do ciclo da vida da mulher, como a menarca ou a gravidez, em
que há maio­res variações hormonais (ainda que a resposta à diminuição
das hormonas seja variável; há mulheres que passam por este período sem
queixas).

A THS permite à mulher, na sua idade madura, decidir se quer
evitar estas alterações e, portanto, viver com qualidade de vida. Cabe à
mulher, juntamente com o seu médico, planear o futuro.»

Em que casos não deve ser utilizada?

«Nos casos de cancros
hormono-dependentes, isto é, sensíveis aos estrogénios, está
contra-indicada. Também existem outras contra-indicações meta­bólicas
para o uso da THS, todavia, merecem sempre a consideração médica.»

Leia também:
O poder das hormonas

Texto: Fernanda Soares com Clara Bicho (ginecologista e obstetra)