Henrinque só decidiu procurar ajuda médica quando já não conseguia ignorar mais os sinais enviados pelo corpo.

«Procurou-me porque o seu ritmo cardíaco se tinha tornado muito irregular. Estava a suar abundantemente quando me contou a sua história, tinha dores crónicas nas costas, bebia tanto álcool que o seu coração estava a começar a falhar», conta a médica Marianne J. Legato.

«Estava profundamente alienado da mulher e filhos, que tinham deixado de tentar conversar com ele», acrescenta a cardiologista e especialista em medicina do género, na sua obra «Porque Morrem os Homens Primeiro?», publicado em Portugal pela editora Caleidoscópio.

A história relatada pela especialista da Universidade de Columbia (EUA) revela as consequências de uma depressão não diagnosticada a tempo. Henrique passava a maior parte do tempo em casa em isolamento silencioso, a ver televisão. O seu trabalho tinha sido prejudicado e o seu sucesso como vendedor tinha diminuído ao ponto de temer ser despedido. «Quando lhe sugeri que falasse com um psiquiatra acerca do seu sofrimento óbvio, pôs imediatamente de parte essa sugestão: Eu sei qual é o problema, falar do assunto não vai ajudar», conta Marianne J. Legato.

A origem da depressão

As pessoas deprimidas evidenciam uma vulnerabilidade genética maior que faz com que desencadeiem estados depressivos, perante determinadas fontes de stress. «Contudo, as pessoas menos vulneráveis também podem sofrer uma depressão, quando são confrontadas com situações de elevado stress (desemprego, morte de familiares, entre outros fatores)», alerta o psiquiatra Luís Câmara Pestana. Na obra «Porque Morrem os Homens Primeiro?», a investigadora em medicina do género, Marianne J. Legato, revela que os homens estão especialmente vulneráveis à depressão, se estiverem desempregados ou reformados (mesmo que tenham escolhido fazê-lo).

Os sintomas incontornáveis

«Se, por um lado, as mulheres tipicamente verbalizam a sua tristeza e pedem mais prontamente ajuda para tratar a sua doença, os homens, por outro lado, isolam-se na televisão, nos videojogos ou noutros passatempos, ou voltam-se para as drogas. Tornam-se irritáveis e muitas vezes incaracteristicamente violentos», revela Marianne J. Legato.

O psiquiatra Luís Câmara Pestana confirma os mesmos sintomas, com base na sua prática clínica. Nos últimos anos, foram vários os casos semelhantes que lhe passaram pelas mãos.

«O isolamento, a irritabilidade, a agressividade e os pensamentos de cólera são os sinais mais evidentes de uma depressão nos homens. Já nas mulheres, a depressão caracteriza-se sobretudo pela labilidade emocional (maior facilidade em emocionar-se), pela atitude de vitimização e pelas afirmações com carácter pessimista», conta.

A culpa é da educação

Se para as mulheres não é fácil admitirem um estado depressivo, para os homens é ainda mais difícil. «Os homens não só vivem o estigma de que a depressão é uma fraqueza, mas também de que se trata de uma doença feminina, por ser mais frequente em mulheres», refere o psiquiatra. Perante uma depressão, muitos homens tendem a suprimir os sentimentos negativos que estão a sentir, sentem-se relutantes em falar acerca deles ou mesmo em admiti-los para si próprios, acreditando que fazer isso «não é uma atitude masculina».

A verdade é que, por razões culturais e sociais, eles não estão preparados para expressar os seus sentimentos. «Os homens são educados para desenvolver a sua independência e a sua aptidão técnica e profissional, o que condiciona a capacidade de  exprimir os sentimentos. Ao invés, as mulheres são educadas para promover o bemestar e é socialmente aceitável que exprimam o que sentem», explica o especialista.

Ele está deprimido?

Como lidar com quatro sintomas comuns:

1. Isolamento
Seja compreensiva. Durante algum tempo, ele não vai estar disponível para participar em eventos sociais e familiares. Convidá-lo para jantar fora ou ir ao cinema não é boa ideia quando ele não tem vontade de sair de casa.

2. Fadiga
Colabore mais. Se nota que o seu marido anda cansado e que está a manter com dificuldade a sua atividade profissional, liberte-o dos compromissos familiares, como ir levar e buscar os filhos à escola.

3. Tensão
Poupe-o de situações que possam ser uma fonte de stress. Se surgir um problema de carácter familiar ou económico e, se tiver a capacidade de resolvê-lo sozinha, não há necessidade de estar a expô-lo.

4. Falta de desejo sexual
Seja paciente e evite expectativas erradas. A motivação sexual será readquirida à medida que o estado emocional vai estabilizando. Esperar que o outro mantenha o comportamento sexual que tinha anteriormente, só vai causar frustração.

O risco de esconder os sentimentos

«A incapacidade de reconhecer a doença e de manifestar os sentimentos pode atrasar o diagnóstico de uma depressão nos homens e aumenta a probabilidade de desenvolver um estado depressivo crónico que se complica com outros problemas, como o alcoolismo e a tentativa de concretização de ideias de morte», alerta o psiquiatra Luís Câmara Pestana.

O diagnóstico tardio poderá ser, aliás, um dos fatores responsáveis pelas elevadas taxas de suicídio nos homens deprimidos, refere este profissional.

«A probabilidade de ocorrência de suicídio é três a quatro vezes superior nos homens, comparativamente com as mulheres», revela o especialista. «Quanto mais tarde for feito o diagnóstico, mais grave é a situação clínica e mais difícil será a capacidade de resposta ao tratamento», sublinha ainda o psiquiatra.

Os sinais que não pode ignorar

Detetar uma depressão num homem reservado e silencioso é mais difícil. Contudo, existem sintomas físicos que eles não conseguem esconder e que podem denunciar um estado depressivo. «Por vezes, os homens queixam-se de sintomas físicos, em vez de sintomas emocionais. Caracteristicamente, os homens deprimidos tornamse irritáveis e com tendência para acessos de raiva. aumentam o consumo de álcool ou de outras substâncias que criam dependência, são menos eficientes no trabalho, têm padrões de sono alterados (…) e sentem a perda da sua vitalidade, força e energia sexual», refere a especialista marianne J. Legato.

Como ajudá-lo a superar

Embora seja difícil para os homens admitir dor emocional, é possível ajudá-los a compreender que a depressão é uma perturbação que resulta de fatores genéticos e circunstanciais que, na sua maioria, não dependem de si. Essa explicação é feita pelo médico de família ou psiquiatra que diagnostica a doença, mas a família também pode ter um papel importante no reforço desta ideia. sempre que seja necessário, explique-lhe que a depressão pode surgir em qualquer pessoa e que não significa fraqueza. durante o tratamento, ajude-o a seguir à risca a terapia definida pelo médico, lembrando-o do risco de o suspender precocemente.

«Há pessoas que interrompem o tratamento assim que começam a notar as primeiras melhorias e, nesses casos, a probabilidade de recaída é muitíssimo elevada. É fundamental cumprir o tratamento até ao fim», alerta o psiquiatra Luís Câmara Pestana. «No dia a dia, evitar situações de stress é outra estratégia importante para uma recuperação eficaz», recomenda ainda a especialista.

Porque é menos frequente nos homens?

De acordo com um estudo recentemente realizado em Portugal, a depressão afeta 13% dos homens e 34% das mulheres. Estudos anteriores também mostram que elas são muito mais propensas a desenvolver uma depressão.

Segundo o psiquiatra Luís Câmara Pestana, «poderá haver uma maior predisposição genética para a depressão nas mulheres. Há estudos epidemiológicos que mostram que o sexo feminino apresenta com mais frequência história familiar de depressão, relativamente ao masculino», indica o especialista.

Na obra «Porque Morrem os Homens Primeiro?», a autora Marianne J. Legato refere que as baixas taxas de depressão nos homens podem estar relacionadas com os níveis de serotonina (hormona que promove o bem-estar) que são muito mais elevados nos homens.

Tristeza versus depressão

«Sentir-se triste durante alguns dias é uma reação natural a determinados acontecimentos da vida e não configura um estado depressivo. Contudo, se a tristeza e o desânimo permanecerem ao fim de duas semanas e surgirem outros sintomas como alterações de sono, nomeadamente dificuldade em adormecer, necessidade de isolamento, perda de interesse pelas atividades de lazer, dificuldades de memória e concentração, irritabilidade e dificuldade em relaxar, podemos estar perante uma depressão, com necessidade de tratamento específico», alerta o psiquiatra Luís Câmara Pestana.

Texto: Sofia Cardoso com Luís Câmara Pestana (psiquiatra no Hospital de Santa Maria em Lisboa)

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