Vivemos tempos de incerteza, com uma nova realidade com a qual vamos aprendendo a lidar, marcada por dúvidas que geram ansiedade e até, nalguns casos, medo. Para responder às interrogações mais comuns das pessoas que, numa época marcada pelo surto pandémico de COVID-19, causado por outro vírus, o SARS-CoV-2, também (con)vivem com vírus da imunodeficiência humana [VIH], a Prevenir promoveu, com o apoio do movimento Pensa Positivo, uma sessão de esclarecimento nas redes sociais.

Uma iniciativa que contou com a presença da médica infecciologista do Centro Hospitalar Universitário do Porto Josefina Méndez e de Cristina Sousa, presidente da Abraço, associação que presta assistência a pessoas que vivem com VIH/SIDA. A utilização de máscaras de proteção faciais e de luvas para travar o surto, o diagnóstico da patologia e as medidas preventivas a adotar no quotidiano foram algumas das questões esclarecidas pelas duas especialistas num webinar apoiado pela biofarmacêutica Gilead.

1. Tendo VIH, se achar que estou com os sintomas da COVID-19, como devo proceder?

A dúvida continua a existir. Josefina Méndez, médica infecciologista do Centro Hospital Universitário do Porto, é perentória. "Tem que proceder como todas as outras pessoas, não há nenhuma diferença. Atualmente, uma pessoa que suspeite ter a COVID-19 tem várias maneiras de chegar ao diagnóstico. Pode ir ao centro de saúde ou ligar para a linha SNS 24 [através do número 808 24 24 24]. A partir daí, será feito o encaminhamento para o centro de saúde ou para o hospital, dependendo da situação clínica do doente", esclarece.

"No hospital, também temos uma área dedicada à COVID-19, onde as pessoas que têm sintomatologia mais grave podem dirigir-se sem ter que pedir previamente uma consulta. Mas, se os sintomas forem mais leves, deve ir ao centro de saúde ou ligar para o SNS 24. A situação é igual para toda a gente e digo sempre nas consultas que as pessoas com VIH são iguais a todos os outros, não têm nenhuma peculiaridade. Por isso, deve proceder como qualquer pessoa da sua família", aconselha a profissional de saúde.

2. Nesta altura, se fizer um teste ao VIH e este der positivo, onde é que me devo dirigir?

Nesta fase, a receção de um diagnóstico já é mais fácil do que no início da pandemia. "Nestas últimas semanas, e penso que falo um bocadinho em nome de todos os serviços de infecciologia do país, temos feito um esforço para retomar a atividade normal. Claro que a atividade normal é a nova normalidade de que todos falamos, mas acho que não há nenhum hospital que não receba um diagnóstico novo", refere Josefina Méndez, médica infecciologista do Centro Hospital Universitário do Porto.

3. Estou em tratamento do VIH, corro maiores riscos de contrair COVID-19?

Aparentemente, não existem dávidas. "Neste momento, de tudo o que tem sido publicado na literatura científica, estar em tratamento para o VIH não é um fator protetor nem prejudicial, de alguma maneira, para contrair a COVID-19. Nem facilita nem impede de vir a ter a doença, é um fator neutro", frisa Josefina Méndez. "O que aconselhamos aos doentes que estão a fazer tratamento é que o mantenham como sempre fizeram e que recorram a nós se tiverem dúvidas", afirma.

"As consultas telefónicas têm existido desde o início da pandemia e, recentemente, começámos também a fazer algumas consultas presenciais no caso de doentes que apresentaram anomalias ou algum outro motivo que justifique, na consulta telefónica, pedirmos ao doente para vir a uma consulta", acrescentou a médica infecciologista durante a sua intervenção no webinar em que participou. "Penso que a telemedicina foi fundamental. Claro que não substitui o nosso contacto direto", frisa.

4. Não tenho possibilidades económicas para comprar máscaras. O que devo fazer?

Infelizmente, é uma realidade comum. "Junto dos utentes que já acompanhamos, que são aqueles que já conhecemos a situação social que os envolve, estamos a conseguir distribuir máscaras de tecido reutilizáveis nesses agregados. Estamos a fazê-lo num sentido muito psicoeducativo, ou seja, não basta ter a máscara, é preciso ensinar como é feita a sua colocação e a sua lavagem", sublinha Cristina Sousa, presidente da Abraço.

"Para outras pessoas que, economicamente, não têm capacidade para comprar uma máscara, nós aconselhamos a que entrem em contacto connosco, pois, se não têm essa possibilidade, provavelmente têm outras dificuldades económicas associadas", alerta a responsável. "Por isso, pedimos que entrem em contacto connosco para que possamos avaliar a situação num todo", sugeriu a especialista na sessão de esclarecimentos.

"Para as outras pessoas que não têm capacidade económica para comprar uma máscara e que, mesmo assim, não queiram dirigir-se à associação, aconselhamos a que façam uma máscara em casa", recomenda a presidente da Abraço. "Tentem costurar uma. Existem várias formas manuais de tentar criar uma máscara que proteja nas saídas à rua", referiu Cristina Sousa na resposta que deu para responder à pergunta que lhe foi colocada.

5. O meu irmão tem o VIH controlado mas vive sozinho e tenho-o achado muito ansioso. Há alguma forma de obter apoio psicológico gratuito?

A pandemia viral deixou muita gente ansiosa. Como explica a presidente da Abraço, "todas as respostas da associação são gratuitas. No entanto, a situação não pode ser vista de forma isolada. Tem de ser avaliada no seu todo, não só a nível psicológico, mas também a nível social, nutricional, e até poderá ser necessário um apoio domiciliário. Temos que avaliar o grau de dependência da pessoa e se necessita de algum apoio extra além do acompanhamento psicológico", refere.

"Se for só o acompanhamento psicológico, desde o dia 18 de maio [de 2020], com os centros reabertos, já pode ser feito atendimento presencial", informa a dirigente associativa. "Mas a pessoa será sempre vista, nessa consulta, por uma equipa multidisciplinar composta, não só por um psicólogo, mas também por uma assistente social, que farão uma triagem conjunta para se perceber em que condições esta pessoa reside", explicou Cristina Sousa no webinar.

6. Tenho VIH e continuo a ter receio de sair de casa mesmo depois do levantamento do confinamento. Devo tomar medidas acrescidas?

Esta dúvida também é partilhada por pessoas que não padecem do vírus. "As pessoas com VIH devem tomar as mesmas medidas que todos nós temos que tomar", reforça Josefina Méndez. Uma das medidas, continua a médica infecciologista, é o distanciamento social, "que não é emocional, porque estamos todos muito sozinhos nesta altura. Também têm que tentar usar máscara, nomeadamente nos locais fechados como os transportes públicos, entre outros", relembra a especialista.

"É fundamental que se use a máscara, pois esta doença transmite-se por gotículas. Se estivermos próximos de alguém que estiver a falar connosco, é provável que saiam gotículas da sua boca, gotículas essas que podem avançar até dois metros. Por isso, tem que se usar máscara quando se estiver próximo de alguém. Temos que ter todos as mesmas medidas de isolamento e higiene das mãos, isso vai ficar para a vida. Muitas destas medidas não servem só para prevenir a COVID-19", refere ainda.

7. Como é que deve ser, afinal, utilizada a máscara?

Apesar das informações transmitidas pelas entidades de saúde, continua a ver-se muita gente na rua que não a sabe usar. "É muito simples. Antes de colocar a máscara, deve lavar ou higienizar bem as mãos. A parte mais escura da máscara deve ficar virada para a frente. Nunca se deve tocar na parte da frente da máscara nem andar com a máscara fora da cara", alerta a médica infecciologista.

"E depois, importantíssimo, é o momento em que se retira a máscara, que deve colocada num sítio seguro onde ninguém vá mexer", exemplifica Josefina Méndez. É também importante seguir as indicações referentes a cada tipo de modelo de máscara de proteção facial no que respeita o número de horas ou a quantidade de vezes que as podemos usar e o modo como devem ser higienizadas.

8. As luvas substituem o uso da máscara?

Não, responde a médica infecciologista. "Nesta altura, as luvas são mais perigosas em termos de contágio porque as pessoas não têm noção que a luva contamina. Se a pessoa estiver num supermercado a fazer compras, a tocar nos produtos, e, depois, levar a luva à cara, aos olhos ou à boca e essa luva estiver contaminada, corre riscos. Se a pessoa tocou numa superfície com vírus, pode contrair a doença", avisa.

"O ideal é lavar as mãos antes de ir ao supermercado e, quando sair, não tocar em nada e lavar as mãos ou, então, levar uma embalagem de gel pequena e higienizar as mãos", aconselha a especialista. "Mais vale ter as mãos livres e lavá-las muitas vezes", garante. "As luvas devem ser utilizadas para uma situação pontual e concreta e, depois, deitadas fora", acrescenta ainda Josefina Méndez.

9. Como é que as pessoas de outras nacionalidades que têm VIH e estão, neste momento, em Portugal ou a viver cá há pouco tempo podem saber se têm direito a tratamento?

A dúvida é pertinente mas não tem sido muito abordada publicamente, apesar de serem muitos os cidadãos estrangeiros em território nacional que ainda não estão sificientemente informados sobre os direitos que o país lhes dá. "Em Portugal, qualquer pessoa de outra nacionalidade, mesmo sendo ilegal, e que tenha uma IST [infeção sexualmente transmissível], já tinha acesso ao tratamento e direito ao mesmo antes da pandemia", esclarece Cristina Sousa.

"Neste momento, existe até uma legislação em que todas as pessoas que estão neste país deveriam ou devem ter acesso ao número de utente, para facilitar todo o tipo de tratamento que não só o associado ao VIH. Por isso, as pessoas devem dirigir-se ao centro de saúde para que lhes seja atribuído um número de utente e possam ir ao hospital. Em Portugal, o acesso ao tratamento do VIH não pode ser negado, sendo estrangeiro ou não estrangeiro", elucida.

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