O cancro colorretal, em Portugal, destaca-se entre as doenças malignas por ser das mais frequentes, mas também uma das mais mortais. De uma forma geral, afeta pessoas acima dos 50 anos mas, por motivos ainda não totalmente esclarecidos, está a aumentar mundialmente, de forma preocupante, entre as faixas etárias mais jovens.

Dados estatísticos da Globocan publicados em 2018 mostram que, em Portugal, o cancro colorretal ocupa o segundo lugar nos carcinomas mais comuns quer nos homens, quer nas mulheres, e a primeira posição quando combinados ambos os sexos. Ocupa, ainda, o segundo lugar na mortalidade por carcinoma, sendo que morreram, em média, 11 pessoas por dia quando combinados os dados do cancro do cólon e do reto.

Apesar destes números, existem fatores muito positivos neste cancro em que devemos investir todos os nossos esforços: é uma doença que se pode prevenir, se os pólipos forem removidos antes da sua transformação maligna, além de, quando diagnosticada precocemente, a taxa de cura é extremamente elevada.

Neste ponto, há que distinguir entre prevenção e rastreio. O investimento na prevenção deve ser um dos objetivos fundamentais a atingir pelos cuidados de saúde primários, através da informação e incentivo da população sobre os estilos de vida saudáveis e o controlo adequado de determinadas doenças relacionadas. A luta contra a obesidade, um dos grandes fatores de risco para o desenvolvimento, é urgente. Praticar exercício físico, consumir uma dieta rica em fibras, não fumar e evitar beber bebidas alcoólicas são estilos de vida associados a um menor risco de CCR.

Outra forma de prevenção é a excisão de pólipos, através de colonoscopias de rotina. O CCR tem início na transformação maligna de pólipos que crescem no interior do intestino, ao nível da sua camada mais interna – a mucosa. Se os pólipos forem removidos, diminui a possibilidade de desenvolvimento de cancro.

Porém, nem sempre tal acontece e, mesmo numa colonoscopia completa e efetuada em condições ideais (com uma excelente preparação), pode não ser possível observar todos os pólipos existentes. Apresentar um intestino bem preparado no dia da colonoscopia é fundamental para que se observem e removam o maior número de pólipos possível. Na ausência de história familiar de CCR, a primeira colonoscopia de rastreio deve ser efetuada aos 50 anos.

Para outras pessoas, portadoras de mutações genéticas de síndromes hereditários, como a Polipose Adenomatosa Familiar, a prevenção pode passar por cirurgias mais radicais, com excisão completa do intestino grosso antes de o cancro se desenvolver.

O rastreio com pesquisa de sangue oculto (PSOF) não visa tanto a prevenção (excepto se a causa do sangue oculto for um pólipo ainda não maligno) mas, sim, o diagnóstico precoce. Este diagnóstico precoce, em estádios mais iniciais da doença, está diretamente relacionado com uma maior sobrevida e taxas de cura mais elevadas. Em Portugal, o rastreio está preconizado pela DGS através da pesquisa de sangue oculto nas fezes de 2 em 2 anos, entre os 50 anos e os 75 anos. Este rastreio consiste na recolha de fezes e análise microscópica da presença de sangue. Se for positiva, há maior probabilidade de existir uma neoplasia, pelo que o paciente deve realizar uma colonoscopia. Não raramente, a perda de sangue microscópica deve-se a patologias benignas, como hemorroidas ou pólipos benignos, mas é sempre importante excluir a presença de cancro. De salientar que, por vezes, um teste negativo não significa a ausência de cancro e, em caso de sintomas ou idade superior a 50 anos sem nunca ter sido realizada uma colonoscopia, esta deve ser efetuada independentemente do resultado da PSOF.

Na grande maioria das vezes, o doente com CCR não apresenta qualquer sintoma, pelo que o rastreio assume uma importância crucial para o diagnóstico precoce da doença.

Quando os doentes apresentam sintomas, de uma forma geral, o estádio da doença já é mais avançado. Os sintomas mais frequentes são:

- Distensão abdominal, vómitos e paragem de trânsito para fezes - neste caso, o tumor provoca uma obstrução do intestino e não deixa passar as fezes (oclusão intestinal). Quando isso acontece, pode ser necessária uma intervenção cirúrgica de urgência ou poderá ter condições e indicação para colocar uma prótese (depende do tipo do tumor, da localização e do estado clínico do doente) para desobstruir o intestino e ser operado de forma diferida em melhores condições;

- Anemia, que se traduz clinicamente por cansaço e palidez - mais frequente no caso do cólon direito;

- Aangue vermelho vivo com as fezes, geralmente traduz um tumor mais perto do ânus (reto ou cólon sigmóide);

- Emagrecimento, mau estado geral, cansaço, massas palpáveis - muitas vezes associado a cancros já metastizados ou localmente agressivos (mas nem sempre).

A cirurgia de urgência em doentes debilitados acarreta um risco maior de complicações mas, quando necessária, pode salvar a vida naquele momento. No entanto, a recuperação do doente após a cirurgia é muitas vezes longa e pode colocar em questão o tempo ideal para iniciar outros tratamentos importantes no controlo da doença, como seja a quimioterapia.

Por todos estes motivos, o objetivo no tratamento do CCR é poder tratar com cirurgia na fase mais precoce possível. Um rastreio adequado vai permitir diagnosticar cancros em fases mais precoces e em que os doentes não têm qualquer sintoma e o seu estado geral ainda não foi atingido. Como tal, a informação e o acesso fácil da população aos programas de rastreio é fundamental para cirurgias de sucesso no futuro. Quanto menos espaço o tumor ocupa e menos estruturas à volta envolve, mais fácil é a cirurgia e mais rápida é a recuperação.

Atualmente, a cirurgia do CCR efetua-se, na maioria dos casos, através da laparoscopia, ou seja, através de incisões mais pequenas e com o apoio de uma câmara para efetuar a cirurgia intra-abdominal. Este tipo de cirurgia traz comprovados benefícios para o doente, como menos dor pós-operatória com necessidade de menos analgésicos, recuperação mais rápida e menor probabilidade de hérnias. Mas, em tumores volumosos e avançados, muitas vezes não é possível efetuar este tipo de cirurgia, sendo necessário recorrer à cirurgia  aberta clássica.

Além do tumor, também os fatores do doente têm extrema importância numa cirurgia de sucesso. Por exemplo, a obesidade é um factor de risco não só para a doença como para as complicações cirúrgicas, especialmente as infecções cirúrgicas e as tromboses pós-operatórias. Também a cirurgia laparoscópica é mais difícil nos indivíduos obesos.

Finalmente, uma cirurgia de sucesso significa uma cirurgia que, além de ter uma baixa taxa de complicações, apresenta uma técnica adequada à excisão radical do tumor, de forma a garantir o melhor resultado oncológico possível. A experiência das equipas cirúrgicas e a disponibilidade de material cirúrgico adequado e tecnologicamente avançado também têm relevância para uma cirurgia de sucesso. Vários estudos mostram que uma equipa experiente e com protocolos de atuação bem definidos diminuem as taxas de complicações cirúrgicas. Assim, uma cirurgia de sucesso inicia-se com um diagnóstico precoce e consolida-se com uma relação estreita entre o cirurgião e o doente, em que ambos trabalham para o melhor resultado possível perante a situação específica do doente.

Por vezes, o tratamento inicial do CCR não é a cirurgia mas, sim, a quimioterapia, associada à radioterapia, no caso do carcinoma do reto. Este tipo de terapias antes da cirurgia denominam-se neo-adjuvantes e são uma ponte para permitir uma cirurgia com intenção curativa após o controlo da doença. Após a cirurgia e conforme o resultado histológico da análise da peça operatória, poderá existir indicação para quimioterapia adjuvante, de forma tentar prevenir o reaparecimento da doença, nomeadamente noutros órgãos que não o intestino. Quando os tumores estão numa fase tão avançada que a cura já não é possível, podem ainda ter indicação para quimioterapia paliativa, permitindo um prolongamento da vida com uma qualidade razoável da mesma.

Do lado do doente, existe um grande caminho a percorrer desde o diagnóstico ao tratamento, passando pela forma como lida com a notícia da doença, como a partilha com os entes queridos e como vive o inesperado constante do futuro. Nesse percurso, o apoio, a empatia e o esclarecimento efectuados pelos mais variados profissionais de saúde são fundamentais para o entendimento e a tranquilidade do doente.

E tudo começa no rastreio, de forma a diagnosticar precocemente uma doença frequente e mortal quando detetada tardiamente. A época COVID levou ao adiamento deste rastreio a nível nacional e, mesmo agora, as pessoas não estão a aderir da forma como deviam. Estamos atualmente a assistir, a nível hospitalar, a um aumento de tumores diagnosticados em estadios avançados, em que já existem outros órgãos atingidos, como o fígado e o pulmão.

Um artigo da médica Eva Barbosa, Cirurgiã Colorretal no Hospital Lusíadas Porto.

Dada a elevada importância do rastreio do CCR e a necessidade da sua divulgação maciça, o Hospital Lusíadas Porto resolveu efetuar uma ação de informação e de rastreio grátis, para 300 pessoas, de 21 a 30 de setembro de 2020 em parceria com a Synlab, a Europacolon e a Ethicon da Johnson-Johnson. Faça a sua marcação através do mail rastreio.porto@lusiadas.pt ou telemóvel +351 931 102 523.

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