Vítor Laerte fala esta sexta-feira sobre o vírus do Zika no Dia Aberto do Instituto de Higiene e Medicina Tropical (IHMT), em Lisboa, durante o qual o instituto espera promover o contacto da população com a ciência e atrair os jovens para a investigação.

Entre outras atividades, o 5.º Dia Aberto do IHMT, que decorre entre hoje e sábado, inclui uma sessão sobre o Zika, na qual os investigadores Vítor Laerte e Luís Lapão vão falar sobre a doença de forma clara e, numa simulação de telemedicina, mostrar como as tecnologias estão a contribuir para a investigação sobre o Zika.

Em entrevista à Lusa, Laerte explicou que o grande desafio, para a sessão de hoje, mas também para a investigação sobre o Zika em geral, é que muito do que se diz agora pode mudar em poucos dias.

"Como o foco da investigação está muito em cima da doença, o conhecimento que vai sendo gerado em muito pouco tempo é muito grande, e às vezes pode ser até conflituante. Muito do que se está a discutir hoje pode ser refutado amanhã", exemplificou o investigador do IHMT.

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A questão é que, embora o vírus do Zika seja conhecido desde 1947, pouco se estudou até agora, pelo que quando a epidemia na América do Sul foi detetada o desconhecimento sobre a doença era grande.

Desde então, a comunidade científica tem-se desdobrado em esforços para conhecer melhor a doença, e quanto mais se conhece, mais assustadora parece.

"O Zika assusta muito porque a cada dia, a cada nova descoberta, agrega uma gravidade maior", disse Vítor Laerte, sublinhando que "o medo do desconhecido é maior do que o medo do que é conhecido".

Embora se soubesse, desde que foi descoberto, que o vírus tinha "uma predileção pelas células do sistema nervoso", só recentemente se descobriu a associação a doenças como o Síndroma Guillain-Barré, uma doença neurológica grave, ou a microcefalia, uma doença em que os bebés nascem com o cérebro anormalmente pequeno.

Além disso, exemplificou Laerte, há relatos de casos de mielite, uma infeção da medula espinal, de meninge, uma inflamação das meninges, e tem-se associado a alguns quadros neurológicos, não sendo de excluir que apareçam mais consequências.

Há também outras complicações relacionadas com a transmissão congénita, além da microcefalia: o vírus está associado a abortos, calcificações cerebrais e outras malformações congénitas, referiu.

Tendo em conta que o vírus é transmitido por um vetor que é difícil controlar, que já está provado que existe transmissão sexual, e que causa manifestações neurológicas, o Zika "é de facto assustador", admitiu o cientista.

"Não restam dúvidas de que estamos diante de uma doença que tem um componente que causa medo e pânico na sociedade. Mas não adianta a população se tomar de medo e pavor. É preciso ser racional e tomar as medidas para prevenir a transmissão", afirmou.

Para isso, alertou, "o principal cuidado é evitar a transmissão vetorial".

Aos portugueses, o cientista recomenda que tomem cuidados se viajarem para um local onde haja transmissão vetorial, o que muda com frequência, pelo que é importante verificar na Internet ou junto de uma consulta de medicina do viajante.

Durante a viagem, é importante evitar o contacto com o mosquito, e depois é preciso evitar o contacto sexual sem preservativo e evitar a gravidez nos primeiros meses após o regresso, devido ao risco de malformações fetais.

Isto é importante porque, na maior parte dos casos, a infeção pelo Zika não provoca sintomas, pelo que é possível que uma pessoa tenha o vírus mesmo sem saber.

O vírus do Zika, transmitido pelo mosquito 'Aedes aegypti', provoca sintomas gripais benignos, mas está também associado a microcefalia, doença em que os bebés nascem com o crânio anormalmente pequeno e défice intelectual, assim como ao síndroma de Guillain-Barré, uma doença neurológica grave.

O Brasil, o país mais afetado pelo surto de Zika, já registou mais de um milhão e meio de casos da doença e o número de casos confirmados de microcefalia subiu para 1.046, dos quais 227 bebés acabaram por morrer.

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