Começo precisamente pela pergunta do seu livro: porque andamos tão cansados?

Muitos de nós já acordamos cansados e engrenados numa rotina que nem percebemos o quanto se tornou automática. Assumimos o estar cansado como parte de nós. Afinal, quem não está? E quem sou eu para querer não estar?

As exigências do trabalho em si, as exigências da sociedade e as crenças coletivas sobre como devemos encarar o trabalho e as nossas próprias exigências, com perfecionismo, comparações com vidas alheias e crenças internas, fazem com que vivamos nesta engrenagem que parece não ter saída e fazer parte da vida adulta.

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E conformamo-nos com isso?

Sim, porque achamos que "a vida é assim!" Queremos ser os "mais" e os "melhores" no trabalho e, em todas as áreas da nossa vida. Queremos produzir o tempo inteiro. Dormir parece quase uma perda de tempo, um luxo. A competitividade assumiu o controlo das nossas vidas. O medo de perdermos algo também. É o chamado FOMU (fear of missing out).

Se nos começamos a sentir cansados e com vontade de parar, basta dar um “scroll" nas redes sociais para ver o colega que trabalha 12 horas por dia, vai ao ginásio e tem filhos mas parece dar conta de tudo e, lá vamos nós, tentar produzir mais mesmo com as nossas energias na reserva. E isto não tem só a ver se gostamos ou não do nosso trabalho. Pessoas que gostam do que fazem também se "autoabusam" e ultrapassam os seus limites como seres humanos.

Por acaso, colocaria gasolina ou gasóleo adulterado no seu carro e poria o seu carro a andar sem parar, sem períodos de descanso ou manutenção

O nosso corpo é uma máquina e, como qualquer máquina, precisa de manutenção. Por acaso, colocaria gasolina ou gasóleo adulterado no seu carro e poria o seu carro a andar sem parar, sem períodos de descanso ou manutenção? E o seu telemóvel, tem bateria suficiente para aguentar semanas e semanas ligado e funcional? Consegue fazer uma viagem por horas sem ele sobreaquecer?

Todos este autoabusos constantes e frequentes deixam-nos exaustos e mergulhados num cansaço crónico que levamos para todas as áreas da nossa vida, mesmo que sendo a origem no trabalho.

Vânia Castanheira, autora do livro
Vânia Castanheira, autora do livro "Porque andamos tão exaustos" créditos: Direitos Reservados

É por isso que o burnout é cada vez mais frequente?

Eu não digo que seja mais frequente, mas talvez se fale mais dele e de forma mais aberta. As pessoas começaram a aceitar as suas vulnerabilidades e a assumirem o ser humano que são. Não somos máquinas, precisamos de descanso. Precisamos de saber o que são as emoções, para que servem e saber estar com elas. E temos de deixar de tentar ser tão perfecionistas e a aceitar que o feito, muitas vezes, é melhor do que perfeito.

Os tempos estão a mudar e percebemos que não somos mais a profissão que exercemos. O nosso trabalho é algo que fazemos e não quem nós somos. Ainda há muita gente a assumir a sua profissão como a sua identidade e isso gera uma série de conflitos internos e insatisfações.

Precisamos de nos sentir experts em tudo. E isso não é possível. O nosso cérebro não consegue acompanhar toda a informação que passa à frente dos nossos olhos

Também existe a necessidade de produtividade exarcebada e equivocada. Afinal o que é que significa ser produtivo? Confundimos o ser produtivo com a quantidade de horas de trabalho. E ser produtivo é fazer o que precisa de ser feito. Não é porque trabalhamos mais horas que vamos ser mais produtivos. Às vezes tudo o que é necessário para ser mais produtivo, é fazer uma pausa. Às vezes é ter alguma qualidade de tempo fazendo algo por nós antes ou no meio, algo que nos dê prazer ou nos faça sentir vivos.

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Para além destes fatores, já reparou na quantidade de informação à qual estamos expostos? E aquela crença subliminar que precisamos de estar informados sobre tudo para que possamos ter assunto suficiente numa roda de conversa? Precisamos de nos sentir experts em tudo. E isso não é possível. O nosso cérebro não consegue acompanhar toda a informação que passa à frente dos nossos olhos. Antigamente, tínhamos 2 canais de televisão e o horário das notícias tinha hora marcada. Se quiséssemos saber notícias ou assistíamos ao telejornal ou comprávamos o jornal. A informação chegava-nos em doses homeopáticas. Tínhamos mais tempo e espaço para a absorvermos.

Como se pode prevenir o burnout?

Cuidando de si. Olhando para dentro, ouvindo o corpo, respeitando-se. O corpo fala, dá alertas tal como a bateria do telemóvel apita quando entra no modo pouca bateria. Precisamos de saber estar com as nossas emoções, impor limites nos diversos papéis da nossa vida e, neste caso mais específico, no trabalho.

Nós não somos o nosso trabalho. O trabalho é algo que nós fazemos. Temos de incluir atividades que nos dão prazer no nosso dia a dia, estar mais conectados com pessoas que nos trazem ao de cima o nosso melhor, conectarmo-nos com a natureza e, acima de tudo, conectarmo-nos connosco próprios. Precisamos de ter mais compaixão própria. Entendermo-nos e encontrar espaço para nós. Olhar para a nossa vida e equilibrar a nossa agenda.

Eu, pessoalmente, gosto de usar cores diferentes na minha agenda para os diversos papéis que exerço na minha vida. Temos que filtrar as informações que recebemos e que queremos ter no nosso cérebro. Não conseguimos dar conta de tudo.

No burnout, o trabalho está acima de tudo, até de nós próprios. Não existe uma rotina de bem-estar, de autocuidado. Acorda-se a pensar em trabalho, dorme-se a pensar em trabalho, ao ponto de nos isolarmos de eventos sociais e familiares

Eu, por exemplo, não tenho televisão há 5 anos. Escolho as informações que quero receber. O meu cérebro e o meu corpo são muito valiosos e não devem receber "qualquer coisa". Nós também nos alimentamos através das informações que recebemos. Por falar em alimentação, vai perceber neste livro a importância que ela tem na nossa saúde mental e na forma como damos significado aos nossos problemas do dia a dia. A mudança começa em nós. Não dá para fazermos mudanças efetivas, responsáveis e consistentes ao começarmos por fora. Quando nos conhecemos, sabemos o que queremos e para onde estamos a ir, muitas vezes até percebemos que não há assim tanta coisa que queremos mudar ou deitar fora.

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Quais os sintomas e sinais de alerta?

O burnout faz-nos sentir um cansaço crónico que nos carrega constantemente. Já acordamos cansados. Percebemos que não conseguimos ser tão produtivos como gostaríamos e entramos numa espiral de negatividade. É o "tudo acontece comigo".

No burnout, o trabalho está acima de tudo, até de nós próprios. Não existe uma rotina de bem-estar, de autocuidado. Acorda-se a pensar em trabalho, dorme-se a pensar em trabalho, ao ponto de nos isolarmos de eventos sociais e familiares.

Uma pessoa em burnout dorme menos que 7 horas por noite. Sente-se sobrecarregado o tempo inteiro e com a sensação de que não consegue dar conta das coisas. Existe uma sensação de beco sem saída. Dificuldade em focar-se e em concentrar-se. A intolerância e o julgamento permeiam os dias, o que pode levar a certa agressividade e ao isolamento dos colegas. Muitas vezes, para aliviar o stress, recorre-se ao álcool ou a drogas, mesmo que não se abuse.

A vida é só uma e queremos vivê-la ou sobreviver nela?

Em caso de burnout, como se trata? Que tipo de abordagem deve existir?

Eu sugiro duas frentes: individual e psicoterapia. No livro "Porque andamos tão exaustos?" Dou várias sugestões e tarefas de como começar por si. É importante haver um acompanhamento terapêutico. Procuramos tantas informações e, por vezes, esquecemos-nos do maior conhecimento que é possível ter para desenvolver uma vida com sentido e propósito: o autoconhecimento. A vida é só uma e queremos vivê-la ou sobreviver nela?

Quem é Vânia Castanheira?

Vânia Castanheira nasceu em Lisboa, em 1981, e estudou Comunicação Social e Cultural na Universidade Católica Portuguesa.

É autora do livro "O cancro foi a minha cura" e deu uma palestra no TEDx São Paulo Women, em 2015, no Brasil, país onde vive há 14 anos.

É autora do blog www.minhavidacomigo.com e do projeto social "Lenços da Solidariedade”.

É Membro do Institute of Coaching - da Universidade de Harvard.

Vânia Castanheira é Medical, Health, Wellness & Lifestyle Medicine Coach com certificações ACC pelo ICF - International Coach Federation; Medical Coach pelo Medical Coaching Institute of Israel; Health & Wellness Coach pela Wellcoaches e ACSM - American College of Sports & Medicine; Lifestyle Medicine Coach pela American College of Lifestyle Medicine.

A felicidade é uma ilusão ou é de facto almejável?

O que é ilusão é que a felicidade é um fim. O fim não é feliz. O fim é a morte. Desculpe-me se não sabia que vai morrer, mas esse é o seu fim. Não é ser feliz. A felicidade é o caminho, é um meio.

Não sabemos até quando dura a nossa vida. Não dá para ser feliz ontem, nem amanhã. Dá para ser feliz hoje. Felicidade é estar bem com a sua vida, com as suas decisões, com o seu dia a dia, sabendo que os passos que dá estão de acordo com os seus valores, com o que é importante na sua vida, com o seu propósito. É sentir que faz parte de algo e que a sua vida tem um sentido. E esse sentido parte sempre da premissa de ser feliz.

Não se é feliz o tempo todo. Todas as emoções são importantes. Sentimo-nos tristes, em alguns momentos, mas isso faz parte da vida e é importante viver a tristeza para melhor aproveitar os estados de felicidade. A vida é mesmo assim.

"Porque andamos tão exaustos", um livro de Vânia Castanheira créditos: Direitos Reservados

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