As causas e a paixão são o que nos move. Se bem que as causas têm menos ímpeto sexual.

Talvez acreditássemos mais nesta premissa se o mundo não nos trocasse as voltas mais rápido do que a Joana Amaral Dias troca de partido. Não fosse a ironia estar de serviço nessa altura e ler-se-ia, por aí, que "gente que não se vende tem de agir".

O ser humano gosta do que não tem, atrai-se pelo proibido e, de forma inerente, pelo abismo. Se antigamente a maravilha estava onde o sol não brilha, actualmente, com tudo destapado, parece que até fico saudavelmente nauseado. Se o desconhecido nos incita, a banalização desalenta. Não estranho que, com cintos a tirar emprego a saias e tops minguados por lavagens a altas temperaturas, comecemos a sentir um apelo lascivo por collants, casacos de penas e meias de licra na cabeça, tal qual um assaltante bancário. Na volta, o tempo ainda nos ensina que a roupa que a nossa mãe nos vestia, no ensino básico, era sexy.

Percebo que se use a sensualidade sem falsos moralismos - até porque a moral nunca pagou contas

Sou defensor da liberdade - gosto de pensar que somos todos- de se utilizar o corpo como instrumento político, motor de busca ou caça ao like. E sim, quando digo "caça" estou ciente de que a cedilha é que segura a frase. Percebo que se use a sensualidade sem falsos moralismos - até porque a moral nunca pagou contas. O problema é que da exaltação à banalidade é um ápice. O que não gosto aqui é que me enganem, já se sabe que ter princípios é uma pedra no sapato. Senão vejamos:

- Raparigas que postam fotos das nádegas na praia, com a legenda: "Vitamin Sea", estão a enganar-me. Todos sabemos que a vitamina que querem não é aquela e que do mar só querem besugo.

- Quando no Inverno colocam fotografias do Verão passado com a legenda: "Volta Verão, estás perdoado", estão a enganar-me. Todos sabemos que quem não perdoou durante todo o Verão foram elas e que apenas querem desculpar-se pelo que não conseguiram fazer, por falta de tempo.

- Quando põem uma fotografia do decote com a frase de Fernando Pessoa, tirada do Citador: "Tenho em mim todos os sonhos do mundo", estão a enganar-me. Todos sabemos que querem dizer que engordaram porque enfardaram todas as sobremesas do natal. Isto porque também sabemos que a única coisa que lêem é a informação nutricional dos sumos detox e continuam a achar que Os Lusíadas são uma equipa de râguebi do Cacém, quando muito treinada pelo épico Luís Vaz de Camões.

- Quando publicam fotografias de costas para a câmara com o rabo assado e com a legenda: "Saudades do Verão" estão, obviamente, a enganar-me. Todos sabemos que as saudades que têm não são do estio, mas do rolo de carne que levaram ao forno em Julho passado.

Quando as pessoas querem ser diferentes, por norma aderem a modas que as tornam todas iguais. Não contentes por vestirem de igual, despem-se da mesma forma, mas por causas. Admito que posso ser desatento, mas nunca vi nada ficar diferente só porque alguém se desnudou por uma causa.

Distraidamente, logo começo a imaginar que, se tiver um restaurante e vier para a porta mostrar a genitália, estou a alertar para o facto de haver cachorros, num apelo urgente para a causa “almoço”.

Se em meio laboral nos alertarem para um problema e o nosso ímpeto for tirar de imediato a roupa, com o intuito de ajudar na celeridade do processo, imediatamente seremos acusados de atentado ao pudor. Ou seja, ao tentar resolver um problema, outro será criado.

Imaginem que a causa de um rebarbado é ver pessoas peladas.  Dificilmente haverá alguém que o ajude nesta luta pessoal. Portanto, pessoas que se despem por causas: coerência não é o vosso forte. É que isto está tão na berra que até já houve bombeiros a despirem-se, presumo eu que para mostrarem a falta de material existente nos quartéis, num apelo ao estado para a renovação e extensão das mangueiras.

Sei que sou distraído, mas se relembrarem o que já resolveram todos nus rapidamente concluem que apenas resolveram apanhar um quadro de doença aguda que motivou a recorrência ao médico de família - mesmo que devessem ter recorrido ao veterinário, tal é a dose de cavalo que terão de fazer de medicação.

Resolvi ceder e tentar perceber este conceito, tão em voga no mundo actual. Inclusive tentei testá-lo para resolver uma crise conjugal. Enchi-me de amor e entrei em casa despido. Pela causa, claro. E não só não resolvi nada, como ainda arranjei outro problema. É que, talvez por ser distraído, entrei na casa errada.

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