Dei comigo a pensar que o estado é muito meu amigo, daqueles amigos que se preocupam mesmo que deixe de haver contacto. O estado cultiva o sentimento à moda antiga e manda-me cartas. E eu sinto-me importante, claro que sinto. Os Salgados, Sócrates e Isaltinos desta vida burlam milhões e ninguém lhes diz nada. Já eu, se ficar a dever um euro ao meu amigo estado, este vem logo atrás de mim, sem recurso a GPS, o que me leva a concluir que sou importante, caramba. Se convidar alguém para vir a Albergaria, perde-se. Mas se fugir ao fisco, dão com isto à primeira.

Esses que burlam milhões são a ralé, não passam de mimados convencidos com vontade de aparecer, que se excitam com a impunidade. Já eu, se incorresse na mesma trafulhice, ia preso, só para o estado me sentir perto e saber onde estou. Isto é de quem se importa comigo e não com eles. Têm-nos perdidos, tal e qual um animal vadio. São é de raça, não são como eu: um puro street dog - a raça mais nobre da favela. Certo é que, não adianta ter milhões, se não se tem carinho e atenção do estado.

O que ainda mais me magoa é que, se viessem ao meu funeral, era apenas para cobrar à minha família o euro que fiquei a dever ou para invalidar o mesmo pela hipoteca do meu caixão

O que me custa aqui é que, mais depressa eles tinham representação estatal no funeral, do que eu. Mas, como já sabem, Albergaria-a-Velha pode ficar fora de mão. Se bem que, via A8 e pelas SCUT - sem custos para o utilizador-, por cerca de 47 euros põem-se cá. Aliás, o que ainda mais me magoa é que, se viessem ao meu funeral, era apenas para cobrar à minha família o euro que fiquei a dever, ou para invalidar o mesmo pela hipoteca do meu caixão.

Como bom amigo que sou, senti-me na obrigação de contribuir para o estado social. Sou defensor da teoria que, acabando os estudos, deveríamos entrar directamente para a reforma, sem passar pela casa de partida e receber dois contos. 

Há uma beleza quase saudável nesta ideia. Ser reformado cada vez mais tarde, como é apanágio nos dias que correm, leva-me a correr o risco, chato, de falecer antes e não ser ressarcido por tudo aquilo que descontei. E todos sabem que, pior do que morrer, é ver esse dinheiro ser canalizado para terceiros que não perderam tempo a debruçar-se sobre o assunto, ou para um qualquer político corrupto, que precisa de um rendimento extra para comprar uma viagem para o Brasil ou para adquirir umas balas para impregnar numa qualquer Feteira - de forma a conseguir mais um subsídio extra, para sustentar uma vida de luxos e parca em escrúpulos.

Acabar os estudos e ser reformado é uma ideia que julgo benéfica para todos. Ganhávamos a hipótese de aproveitar a reforma com saúde, sem mazelas. Poupávamos nos "ais" das costas e ganhavamos nos "uis" de espanto e diversão. Aproveitávamos a reforma com saúde durante vinte anos - ou vinte e cinco, vá - e, lá para os quarenta e poucos ou cinquenta, voltávamos à actividade laboral, até que a morte nos separasse.

Quanto ao estado, esse amigo fiel, contribuidor de si próprio, sairia, também ele, a ganhar:

- Ai doutor. Dói-me muito as costas.

- E a mim, senhora? Estou aqui que nem posso - tinha alta e a vida seguia tranquilamente. Ela com as suas dores, eu com os meus achaques e o estado a poupar na comparticipação do medicamento que não se prescreveu.

- Doutor, preciso de baixa.

- Deixe-se lá de mariquices, que eu também cá estou a trabalhar com 80 anos - e a vida prosseguia. Ela sem a baixa, eu com o labor e o estado com a poupança na remuneração.

A idade obnubilava-me o discernimento e tornar-me-ia mais literal pelo que, se me aparecesse um anão a pedir o mesmo:

- Doutor, vinha ver se me arranjava uma baixa.

Eu ficaria todo contente e retorquiria:

- Finalmente alguém que vem cá, não para não trabalhar, mas com o intuito de constituir família - levaria de mim um abraço e, no receituário, a página dos classificados para adultos, deixando-me um sorriso de dever cumprido.

Se recorresse à consulta uma rapariga, muito contente por ter iniciado a prática de exercício físico com uma amiga, dizendo que cada uma tinha perdido 20 quilos eu, no auge da minha desinibição fronto-temporal, dar-lhe-ia os parabéns por, sem qualquer ajuda, ter rapidamente encontrado os 20 quilos de cada uma. De imediato ligava para o Zoomarine, confiante de que estaria a ligar para o 112, e enquanto aguardava que chegassem, molhava-lhe a pele, tentando que sobrevivesse.

Poderia, até, prescrever Valium para quadros de incontinência fecal:

- Então, senhor João, melhorou?

- Melhorei muito doutor. Mantenho a incontinência, mas agora não me importo.

E tínhamos mais uma pessoa contente com a sustentabilidade do Sistema Nacional de Saúde.

Teria, ainda, o estatuto da idade, que me permitiria dizer o que me apetecesse à custa do despedimento do bom-senso:

- Doutor, dói-me quando toco aqui. O que é que eu faço?

-
Simples, não toque aí - e tinha alta da consulta.

- Doutor, tem alguma coisa contra a dor de cabeça?

- Eu? Nada. Não tenho mesmo nada contra, pode tê-la à vontade – saindo, eu, com aquela sensação de realização pessoal e sentimento de missão cumprida.

- Doutor parti a perna em dois sítios. O que é que faço?

-
O meu conselho é que não volte a frequentar esses sítios - diria do alto do meu quadro demencial.

A faixa etária permitir-me-ia, também, chamar alguém pelo intercomunicador:

- Senhora da fístula anal.

A senhora entraria a correr pelo consultório, em fúria, gritando:

- Porque é que me chamou assim?

Ao que eu, imponentemente senil, argumentaria:

- Sigilo profissional. Não digo nomes.

O estado, esse grande amigo, quer que tudo isto aconteça. Caso contrário, não forçava, ano após ano, a perda de dignidade nem reforçava o desprestígio. Enfatizam, diariamente, a importância dos números e fazem sentir-nos um. Somos descartáveis e tóxicos como o plástico, que passa de uma vida útil a poluição à deriva no mar.

A idade absurda para a qual protelam a reforma leva-me a pensar, estupidamente, que não nos querem como pensionistas. E levo a peito, claro. Ao ponto de cismar com isso todos os dias. E convenhamos: esta cisma já é coisa de velho.

Se assim for, prefiro que me avisem já, que estou em início de vida e preciso de me organizar. Há políticos, bem relacionados, que já se anteciparam: Robles comprou um imóvel para ser habitado pela irmã, António Costa comprou uma casa para a filha e um ex-primeiro ministro tem dinheiro emprestado de um amigo, talvez porque o preço do pão já não dá para grandes luxos. Portanto, ou faço um PPR ou faço filhos, com o intuito de aumentar a família e esperar actos solidários desses. É que, o meu único e bom amigo é o estado, e esse não tem sido muito certo. E ao amigo que não é certo, com um olho fechado e outro aberto.

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