A prática desportiva está associada a inúmeras vantagens orgânicas, vantagens essas que são, na grande maioria, conhecidas por todos. Mesmo os que teimam em ser alérgicos ao desporto sabem bem o que estão a perder, mas preferem poupar-se porque, convenhamos, o movimento cansa. A coordenação entre o aumento das frequências respiratória e cardíaca, associada a um movimento corporal vigoroso, com tudo o que isso implica, só de pensar dá dor de burro.

O mundo anda viciado em desporto. Eu é que sou saudável, não tenho vícios. Quando muito sou saudavelmente gordo, vá. Mas não olhem para mim assim. Se virem bem, há pessoas no ginásio que estão saudavelmente doentes, tal e qual a fruta do hipermercado: atraente (leia-se discutivelmente atraente) por fora e podre por dentro.

Passámos de uma população extremamente sedentária para uma população que faz mais quilómetros por ano do que o carro de 1986 do meu avô

O que me espanta é que as mulheres são capazes de reclamar do preço da fruta, mas são as primeiras a apaixonar-se por homens que passam horas a levantar quilos de ferro, a deixá-lo no mesmo sítio e a voltar no dia seguinte para repetir a proeza. Exibem umas pernas de fazer corar um alicate de pontas e um tronco mais inchado do que a região pudenda do Nélson Évora, vestido com umas calças XS. Esquecem-se, claramente, é dos efeitos colaterais dos esteróides a nível testicular, pelo que namorar com um homem elevado ao cubo é o mesmo que comprar tomate chucha e levar cherry, sem desconto em cartão nem vales da Galp.

Passámos de uma população extremamente sedentária, que era capaz de andar meia hora às voltas de carro, para o estacionar à porta de uma loja de roupa - porque não é permitido estacionar ao balcão -, para uma população que faz mais quilómetros por ano do que o carro de 1986 do meu avô.  Mas está-nos no sangue oscilar entre antípodas com a velocidade de um Concorde, apesar de este estar mais extinto do que a credibilidade de um qualquer Sócrates.

Passámos de tardes inteiras a fazer os 1500 metros sofá-cama, para uma gradação de corridas de estrada, meias maratonas, maratonas, trails, ultramaratonas ou ultra trails. Correm tanto que são capazes de fazer Porto-Lisboa numa tarde e prejudicar os lucros da Ryanair. Claro está que, além dos benefícios inerentes ao desporto, de toda aquela libertação quase orgásmica de endorfinas, associados à capacidade de superação e de fazer mais e melhor em menos tempo, faz com que se queira aumentar distâncias e o grau de dificuldade.

Isto, também, porque somos portugueses e gostamos de exibicionismo e recordes mundiais. Orgulhamo-nos se tivermos a maior caldeirada de cloaca de andorinha do mundo ou se lavarmos milhares de pratos de um almoço, feito numa ponte, só com uma gota de detergente. Isto é orgulho nacional. E é extrapolado para o desporto, como é o caso do surf.

Garret McNamara e, posteriormente, Rodrigo Koxa foram aclamados por terem surfado a maior onda do mundo. O verdadeiro português não acha isso propriamente um feito, dado que somos apreciadores da catástrofe. Português que se preze, pára quando há um acidente. Primeiramente, não está focado no auxílio, apenas em ser espectador de algo alheio a si, pensando - "podia ser eu. Mas não fui". Aliás, até acho que param num acidente de viação, não para verem o acidente que aconteceu, mas para criarem outro e poderem ver tudo em directo, de início. Daí que muita gente não ache uma proeza alguém surfar uma onda de 24,38 metros e chegar cá baixo todo seco, sem nenhum percalço pelo caminho.

O português de gema preferia que fosse notícia alguém surfar uma onda, esbardalhar-se a meio dando sensação de estar em risco de vida, o jet ski de apoio ficar atolado no lodo da tinta de um choco, vir uma baleia na onda seguinte e dar uma chicotada no queixo do condutor do jet ski, com o impacto desatolar o veículo, aparecer um bacalhau e rabear nos cherry do surfista e este nunca mais poder ser pai. Isto sim, era sensacionalista, já que tudo o resto é, aos olhos de terceiros, puro exibicionismo.  Mas sem que ninguém se magoasse, porque no fundo não queremos uma verdadeira catástrofe. Queremos um "quase". "Quase" que se afogava, "quase" que surfou a onda, "quase" que a bola entrou. O "quase" dá-nos a emoção que a certeza nos tira.

É que, convenhamos, difícil não é descer uma onda de quase 25 metros. Difícil era subi-la, que a descer todos os santos ajudam. Difícil não é surfar uma onda com uma prancha. Difícil era surfar uma onda com um pau de marmeleiro, que a prancha só facilita e tira emoção. Difícil não é surfar uma onda na Nazaré, qualquer um com uma tábua o faz, pode é não chegar ao fim. O difícil, mesmo, é surfar uma onda em Albufeira. Isso sim, é meritório.

Certo é que, para surfar alguma coisa, é preciso um bom par de tomates chucha e eu apenas fui contemplado com uns “quase” cherry. E digo quase, para vos deixar com uma emoção que a certeza, certamente, vos tiraria.

Uma crónica do humorista e médico Carlos Vidal.

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