O Hospital Garcia de Orta, em Almada, já prestou assistência a algumas mulheres mutiladas e a diretora clínica Fátima Romão não tem dúvidas em afirmar que há quem realize esta prática dentro das comunidades imigrantes em Portugal.

Em conversa com os jornalistas no final da sessão que ontem assinalou o Dia Internacional de Tolerância Zero à Mutilação Genital Feminina (MGF), prática que já afetou 130 milhões de mulheres e que põe em risco três milhões de meninas anualmente, Fátima Romão, diretora do serviço de ginecologia e obstetrícia do Garcia de Orta, realçou: “Não acredito, sinceramente, que estas famílias tenham condições económicas para irem todas aos países de origem, [ou] mandar as meninas de férias [para o] fazerem. Deve haver alguém cá a fazê-lo, e seria importante identificar essas situações.”

Reconhecendo que não existe uma “indicação formal” de que esta prática tenha sido alguma vez realizada em Portugal, a médica confessa ter uma “suspeição” de que sim.

“Estamos convencidos de que, dentro da comunidade, há alguém que faz as coisas, do mesmo modo que havia aborto clandestino antigamente”, compara.

Por outro lado, sublinhou a médica, os serviços de saúde não têm “obrigatoriamente de fazer uma notificação”, a não ser que haja um pedido da polícia ou do Ministério Público.

“Há situações em que [a notificação] é obrigatória, mas não é este o caso. Temos que respeitar o pedido sigiloso da mulher”, explicou, acrescentando que “fica tudo registado” para o caso de as autoridades pedirem informações.

Explicando que “não se consegue calcular” a periodicidade com que são recebidas mulheres que sofreram esta prática no hospital de Almada, a médica refere que “nem sempre é fácil identificar estas situações”.

“Se fosse passível monitorizar estas mulheres e estas crianças, era um pouco mais fácil, mas não há nada organizado nesse sentido”, lamenta Fátima Romão.

Uma coisa é certa, “quando aparecem, aparecem com complicações”, de infeção ou retenção urinária, de hemorragia, de cicatrização mal feita. Ao recorrerem aos serviços, as mulheres tentam “subtilmente” escapar a explicações sobre a origem do que as levou ao hospital, conta. “São situações muito, muito camufladas”, descreve.

As mulheres mutiladas que tiveram bebés recentemente, sobretudo meninas, são confrontadas pelos serviços no sentido de “as pouparem” no futuro e de compreenderem que uma excisão “não é boa para as suas filhas”. A recetividade destas mulheres – diz a médica – “é muito relativa, porque isto para elas é cultural”.

7 de fevereiro de 2012

@Lusa

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