A pandemia de COVID-19, com o seu vírus procedente de um morcego, expôs os perigos das interferências cada vez mais significativas entre as atividades humanas e a natureza. Mas o risco de epidemias também pode ser gerado pelas mudanças climáticas, que provocam o deslocamento de mosquitos portadores da malária ou da dengue, e o início do degelo do permafrost, onde micróbios de outras épocas estão presos.

"O nosso maior inimigo é nossa própria ignorância, porque a natureza está cheia de microorganismos", principalmente no permafrost, "verdadeira caixa de pandora", disse à AFP Birgitta Evengard, microbiologista da Universidade de Umea, na Suécia.

Uma parte "importante" dos solos permanentemente congelados pode se descongelar em 2100, libertando dezenas ou centenas de milhares de milhões de toneladas de gás de efeito estufa, segundo os especialistas do clima da ONU (Giec).

E não é só isso. "Os microorganismos podem sobreviver num meio congelado por muito tempo", alerta o professor Vladimir Romanovsky, da Universidade de Alasca, em Fairbanks.

Mamutes e neandertais

Esses organismos revividos atacam somente as amebas. Mas nessas regiões geladas, "os neandertais, mamutes e rinocerontes peludos adoeceram, morreram, caíram. É possível que todos os vírus que causaram seus problemas ainda estejam no solo", alerta o professor Jean-Michel Claverie.

O número de bactérias ou vírus aprisionados é incalculável. O que preocupa é saber se são perigosos e, neste ponto, os cientistas estão divididos. "O antraz prova que uma bactéria pode dormir no permafrost por centenas de anos e ser revivida", destaca Birgitta Evengard.

Em 2016, na Sibéria, uma criança morreu vítima de antraz mesmo quando essa bactéria estava desaparecidada região há 75 anos.

Outros agentes patogénicos conhecidos, como os vírus da gripe de 1917 ou da varíola, também estariam preservados nas camadas geladas dos cemitérios árticos onde as vítimas de velhas epidemias foram enterradas.

O "verdadeiro perigo", segundo o professor Claverie, estaria nas camadas profundas que podem ter 2 milhões de anos e que potencialmente escondem agentes patogénicos desconhecidos. Mas, em todo caso, esses patógenos precisariam de um hospedeiro para sobreviver. Um encontro que a mudança climática pode proporcionar.

Doenças tropicais

O aquecimento global pode tornar-se também num bom aliado para vírus mais atuais, que já causam estragos no mundo.

Malária, dengue, chikungunya, zika... Alguns mosquitos vetores de doenças tropicais podem chegar à Europa e à América do Norte. É preciso um hospedeiro, assim como "condições específicas de temperatura para que o patógeno possa reproduzir-se no mosquito", diz Cyril Caminade, epidemiologista da Universidade de Liverpool.

Até ao momento, o Centro Europeu de Prevenção e Controlo de Doenças (ECDC) relatou apenas alguns casos autóctones de doenças que podem ser transmitidas: cerca de quarenta casos de dengue entre 2010 e 2019, muitos deles na Madeira, dois casos de zika em França em 2019 e várias centenas de casos de chikungunya entre 2007 e 2017, principalmente na Itália.

O Aedes aegypti, principal vetor da dengue, também está sob vigilância. "Um aumento da temperatura média poderia levar a uma transmissão sazonal da dengue no sul da Europa se o A.aegypti infectado pelo vírus se estabelecer", alerta o ECDC.

Já o risco de retorno da malária nas regiões onde já foi endémica, na Europa e América do Norte, é menos claro.

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