Com os números a indicarem que já morreram 311 pessoas devido à doença provocada pelo novo coronavírus, a história de Cláudia e da família (o marido e uma das filhas também infetados) será a de muitas outros milhares de portugueses, a serem seguidos em casa e com sintomas ligeiros. Segundo as estatísticas, são 80% dos infetados

Mas é também diferente. Fechou-se em casa com a família por suspeitas de que o marido podia estar infetado, passou a dormir com uma das filhas (que por sinal nunca foi infetada) para que ele pudesse ficar isolado, e afinal era ela que tinha levado a doença para casa e quem tinha posto a filha a “dormir com o inimigo”. E acabou por ser ela o agente de transmissão.

Parece confuso mas Cláudia explica. Sérgio, o marido, é professor e foi colocado em quarentena, isolado em casa, a 12 de março, porque uma das suas alunas se revelou positiva à doença. Cláudia, que trabalha num instituto público era quem saía de casa, por esses dias.

Sérgio não tinha qualquer sintoma, mas tinha contactado com uma pessoa positiva e passou a ser seguido pelo delegado de saúde, com contactos telefónicos diários. Cláudia acabou por deixar de ir ao trabalho a partir do dia seguinte, sexta-feira, 13, passado a trabalhar a partir de casa.

E no sábado, 14 de março, foi ela quem acabou por sentir febre, que nem reportou ao delegado de saúde porque não chegou a 38 graus (era a indicação de só reportar a partir dos 38 graus). A febre continuou no domingo e na segunda-feira já estava praticamente bem. Além de alguma tosse seca, pouco incomodativa e pouco frequente, estava tudo normal.

“Na altura não associava a nada, e cada vez que falávamos com o delegado de saúde ele também minimizava. A probabilidade de a aluna ter passado a doença ao Sérgio era quase nula, porque ela estava assintomática e na escola ninguém tinha sido infetado”, conta.

Mas as desconfianças voltaram na segunda-feira, 16 de março. Quando Cláudia falou (pela rede whatsapp) com os colegas de trabalho e descobriu que dos 20 havia pelo menos 12 que se queixavam de febre ou de tosse. E que um dos colegas teve mesmo que ser hospitalizado e que as análises revelaram estar infetado com covid-19.

Sérgio, 55 anos, começou nesse mesmo dia com febre e alguma tosse, que passou no dia seguinte. E dois dias depois a filha mais velha, Sofia, 20 anos, ficou também com febre e sentiu-se cansada, sintomas que também desapareceram rapidamente.

Com um colega comprovadamente infetado, as desconfianças recaíam agora sobre Cláudia, especialmente quando, a meio dessa semana, percebeu que tinha perdido completamente o olfato.

“Era estranho porque não sentia nada, estava bem, mas não sentia qualquer cheiro, nada”, conta agora à Lusa.

E foi esse um dos motivos que levou o delegado de saúde a mandar que se fizesse o teste à família, duas vezes, a segunda a 31 de março, no hospital Curry Cabral.

Cláudia, Sérgio e Sofia estavam infetados. Inês, a filha mais nova, 18 anos, não. Alteram-se as rotinas de casa, Inês passou a ser quem estava isolada.

E sentem-se bem? Cláudia responde que sim, que a filha só teve febre um dia e que depois esteve sempre bem, que tiveram uma sensação de cansaço, mas também passageira, que só ela perdeu o olfato, que entretanto já recuperou. E diz que dos colegas de trabalho seis testaram positivo, embora nem todos tenham feito o teste, ainda que só um tenha sido hospitalizado.

E sentem-se acompanhados? “Super acompanhados, o mais possível”, afiança. Todos os dias, por vezes mais do que uma vez por dia, lhes ligam médicos do Curry Cabral e das unidades de saúde. “Se temos alguma questão e mandamos um mail no minuto seguinte estão a ligar-nos”, conta.

E saem de casa? Não, diz também, garantindo ainda que nunca sentiu qualquer discriminação por parte de vizinhos, antes solidariedade.

“Saí de casa até o meu colega dar positivo. Fui ao supermercado, fui à farmácia. Sempre com muito cuidado, que andava desconfiada, mas penso nisso, se passei a alguém foi porque não sabia. Chateia-me mesmo, que eu é que tenha ido à rua e na verdade eu é que andava com o vírus”.

Cláudia de resto pensa que fazem todo o sentido as medidas de confinamento, recorda que há pessoas que podem ser seriamente afetadas, e está tranquila na reclusão. “Em termos de saúde, numa situação normal, nada disto nos impedia de fazer fosse o que fosse. Trabalhei sempre a partir de casa”.

Sérgio volta a fazer o teste já na terça-feira e caso dê negativo repete, pelo que pode ter alta no fim desta semana. Ela e a filha só vão repetir o teste no dia 16. São preciso dois testes negativos para terem alta, e para passarem para o outro grupo, ainda restrito, de 140 pessoas consideradas curadas.

Até lá é ficarem em casa, mesmo a Inês, que nunca teve qualquer sintoma e a quem o teste deu negativo, ainda que tenha dormido com a mãe quando ela já estava infetada.

“Ficar em casa é acertado, é sensato, porque o Serviço Nacional e Saúde (SNS) não ia aguentar se houvesse uma subida exponencial de casos”, e depois é preciso criar a “tal imunidade de grupo”, para “as novas vagas de doença que vierem”, diz Cláudia.

E nem tem muitas queixas. A doença passou por casa quase sem se dar por ela, esteve sempre a trabalhar, o acompanhamento médico tem sido perfeito e a falta de olfato foi passageira e não teve consequências, tirando o dia em que deixou queimar a sopa.

No final, contas feitas, isolamento à parte, numa família quase feliz escapa apenas um lamento a Claudia. “Estamos há três semanas sem nos tocar”.

O novo coronavírus, responsável pela pandemia da covid-19, já infetou mais de 1,2 milhões de pessoas em todo o mundo, das quais morreram mais de 70 mil. Dos casos de infeção, mais de 240 mil são considerados curados.

Depois de surgir na China, em dezembro, o surto espalhou-se por todo o mundo, o que levou a Organização Mundial da Saúde (OMS) a declarar uma situação de pandemia.

Em Portugal há registo de 311 mortes associadas à covid-19 e de 11.730 infetados, com 10.631 a recuperar em casa, segundo a DGS. Há 140 doentes recuperados.

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