A mulher que alertou a polícia - "escandalizada com o comportamento" dis seus vizinhos - orgulha-se da sua atitude nas redes sociais, abrindo um debate sobre o regresso da delação em plena crise da COVID-19.

A questão é particularmente sensível em um país atormentado pela sua história, onde a denúncia chegou a ser quase uma doutrina estatal sob o regime nazi e depois na República Democrática da Alemã (RDA), durante o regime comunista que reinou na Alemanha Oriental. 

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Os tweets com a palavra #Denunziant ("denunciante", em português) inundam a rede e multiplicam-se as comparações com o III Reich ou com a polícia política da ex-RDA. "Tudo isso reforça um preconceito arraigado dos alemães contra si mesmos", estima Christian Stocker, professor de psicologia no semanário Spiegel.

Mas, para ele, não se trata de algo específico da Alemanha. Em todas as partes do mundo, perante climas de ansiedade, a população divide-se entre reflexos de solidariedade e aspiração à ordem, com a consequente sanção dos infratores.

Denúncias mais comuns em cidades

Muitos países que recomendaram o confinamento para conter a disseminação da COVID-19 vivem situações idênticas. Na Nova Zelândia, um site especialmente dedicado a denúncias deixou de funcionar ao ficar sobrecarregado com queixas.

Na África do Sul, um casamento foi interrompido após uma chamada anónima e, em França, o número de emergência para denúncias esteve congestionado durante vários dias.

"O fenómeno é universal, mas com características regionais diferentes. Isso ocorre com mais frequência em aglomerações urbanas, onde muitas pessoas dependem umas das outras", comentou à AFP Rafael Behr, professor de criminologia e sociologia na Academia de Polícia de Hamburgo.

Segundo ele, "quanto mais o estado de emergência durar, mais a atitude pró-social diminui e mais a desconfiança aumenta".

Na Alemanha, a polícia recebe centenas de queixas diariamente, por telefone, e-mail e nas redes sociais. Sven Muller, porta-voz da polícia de Munique, explica que recebem entre 100 a 200 denúncias por dia. 

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Em Brandemburgo, a polícia atuou 2.930 vezes por violações das recomendações sanitárias entre 20 de março e 7 de abril. "Quase dois terços dessas operações estavam relacionadas com reclamações de cidadãos", disse a sua porta-voz, Stefanie Klaus.

A maioria dos casos foi de acesso a locais públicos proibidos, como estádios, ou de festas em apartamentos. "No entanto, nem todas as ligações envolvem sempre intervenção", diz Heidi Vogt, porta-voz da polícia de Berlim.

No final de março, a polícia da capital alemã pediu no Twitter que os habitantes parassem de saturar o número de emergência 110, "que não é voltado para denúncias de violações do confinamento".

Preocupação ou vingança pessoal?

O senador para Assuntos Internos de Berlim, Andreas Geisel, pediu aos eleitores que tenham discernimento. "Com um confinamento leve, como na Alemanha atualmente, a liberdade relativa está na capacidade de obrigar a si mesmo (a cumprir as recomendações)", explica à AFP o historiador e cientista político Klaus Peter Sick. Na ausência de autodisciplina, comportamentos considerados "irresponsáveis" podem ser denunciados.

No entanto, além de proteger a comunidade denunciando crimes, alguns podem querer tirar proveito da situação para acertar contas pessoais.

Esse é sempre o caso em tempos de crise, especialmente quando dão origem a novos regulamentos que permitem evocar a justiça. Quem tem ciúmes do vizinho agora tem a possibilidade de denunciá-lo pela menor violação das regras do coronavírus", resume Behr.

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