O meu primo António Sérgio é pastor. Costuma brincar com a família dizendo que é radialista, porque também acorda muito cedo em prol do rebanho.

Há uns dias o António Sérgio acordou feliz porque, ao ler o jornal, percebeu que os média também assim estavam. Sentiu um certo alívio ao perceber, pelo título das notícias, que Portugal também já tinha um caso positivo de um tal de coronavírus. Os média estavam relaxados por já terem notícia, que isto de terem pessoas em quarentena num hospital público e os resultados darem todos negativos já estava a ser uma chatice. Para infortúnio, já basta o caso de sucesso do avião que aterrou sem uma roda. O meu primo sentiu-se parte integrante do mundo porque, pela primeira vez, as coisas chegaram cá a tempo. Não é só depois, quando passam de moda. O seu receio era que esse tal vírus chegasse cá na altura dos incêndios porque, em boa verdade, ninguém quereria saber. A não ser que quem ateasse o fogo tivesse comprado os fósforos na China e as acendalhas em Milão.

O António Sérgio parece que se sente cada vez mais um homem do mundo dado que, depois de tudo o que leu, é mais um a querer fazer parte integrante do problema e nunca parte integrante da solução. Nem lhe interessa saber que, em Portugal, tenham morrido mais de três mil pessoas devido à gripe no último ano e, em todo o mundo, tenham morrido mais de três mil pessoas com esse tal vírus. Não é que o meu primo goste de desvalorizar um problema ou de alertar para outro. Ele não gosta é de números, gosta de ovelhas.

O problema do António Sérgio foi quando leu que, para reduzir a exposição e a transmissão da doença, devia evitar o contacto desprotegido com animais selvagens ou de quinta. Ora bem, se por um lado estava tranquilo porque em Vila Nova de Rinchão nunca avistou um puma nem um leopardo, por outro invalidava todo e qualquer contacto com animais de capoeira. O seu problema deixou de ser o vírus, para ser a forma como vai confessar à sua mãe que está apaixonado pela galinha da Rita, sua sobrinha. Ele sabe que a mãe não vai achar piada porque a Rita é da família, o que pode trazer problemas de consanguinidade com a galinha. A mãe do António sabe do que fala porque os seus pais são primos.

O meu primo está de rastos. Ainda tentou forçar a paixão por um animal doméstico, porque leu algures que não há evidência de que tenham sido infectados e possam transmitir o tal vírus. Mas acha que aquela língua áspera dos gatos e as unhas afiadas lhe poderiam comprometer a vida íntima. Não consegue esquecer aquela ausência de peças dentárias da galinha da Rita e sonha em fazer a melhor omelete prensada de Vila Nova de Rinchão, naquela cloaca.

O coronavírus mata, é certo. Mas viver uma vida sem poder exprimir os sentimentos, rouba a vida a qualquer humano. Ao António Sérgio também.

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