O que é uma catástrofe abdominal?

É uma situação de inflamação severa da cavidade abdominal que poderá ser espontânea ou resultante de um incidente após um traumatismo ou cirurgia que complicou. Estas situações podem chegar a uma mortalidade de 50% nos doentes afetados. Muitas vezes é designada de peritonite grave que poderá estar contaminada ou não com conteúdo intestinal.

Ramos Horta, em Timor Leste, e a antiga ministra da saúde sueca Anna Lindh tiveram ambos catástrofes abdominais. Ela não sobreviveu, embora estivesse muito mais suportada em termos de meios técnicos. Porquê?

Ambos sofreram lesões severas atingindo pulmão direito, fígado e vísceras. Tradicionalmente a postura de alguns cirurgiões é o de efetuar uma reparação definitiva de todos os orgãos lesados. Isto é válido nos casos com repercussão limitada no estado geral do doente. A filosofia seguida na cirurgia de catástrofe é de fazer 'apenas' o suficiente para controlar a hemorragia e contaminação deixando as reparações definitivas para mais tarde para não arriscar um esgotamento da reserva fisiológica do doente e consequente falência de orgãos e morte.

Esta abordagem inicial de uma cirurgia apenas para controlo de danos foi realizado num hospital de campanha em Díli por um cirurgião-geral canadiano e um enfermeiro português para manter o doente vivo. Posteriormente ao longo de uma semana fez-se mais outras duas cirurgias de reparação definitivas em Darwin na Austrália. A outra senhora, após seis horas de cirurgia com reparação definitiva de todos os órgãos afetados pelos respetivos cirurgiões especialistas, acabou por sofrer uma falência múltipla de orgãos que resultou na sua morte.

Por que motivo?

Devido à falência múltipla e progressiva de sistemas, isto é do sistema cerebral-nível de consciência cerebral; sistema renal-filtragem de tóxicos e síntese de substâncias essenciais pelos rins; sistema hepático-filtragem de tóxicos e síntese de substâncias essenciais pelo fígado; sistema respiratório-trocas gasosas e oxigenação do nosso organismo em geral; sistema hematológico-sistema de sangue com renovação celular, combate a infeções, manutenção de estanquicidade de feridas e hemorragias pelo nosso organismo. Foi uma cascata de eventos que culminou com a sua morte. A sua reserva fisiológica simplesmente esgotou.

O que significa reserva fisiológica?

Trata-se da capacidade do organismo em manter todos os sistemas de órgãos a funcionar e regulados.

Quem está em risco de sofrer uma catástrofe abdominal?

Qualquer pessoa que sofra de uma inflamação severa da cavidade abdominal que poderá ser espontânea ou resultante de um incidente após um traumatismo ou cirurgia que complicou cujo diagnóstico não precoce pode levar a um elevado grau de inflamação abdominal (peritonite), sendo mais frequente, mas não exclusivo, em pessoas com obesidade mórbida, imunodeprimidos, pancreatites agudas severas, traumatismos do abdómen com múltiplas lesões e contaminação intestinal.

No caso de a catástrofe abdominal ser espontânea, quais as causas?

Podem ser múltiplas mas as causas mais frequentes são a pancreatite aguda grave, isquemia mesentérica intestinal (entupimento dos vasos sanguíneos para o intestino), obstrução intestinal com intestino estrangulado ou hérnias estranguladas.

International Masterclass on Abdominal Wall Reconstruction

Nos dias 25 e 26 de maio vai decorrer na Universidade de Coimbra um curso científico reconhecido e validado a nível europeu para partilhar conhecimento sobre catástrofes abdominais.

Mais informação no website:

https://masterclassawr2022.admeus.pt/

As pessoas em maior risco devem estar atentas a que sintomas em concreto?

Após um incidente abdominal, traumatismo ou cirurgia, verificando-se inflamação abdominal e abdómen distendido, por vezes acompanhada de febre e dor abdominal intensa com os movimentos que carecem sempre de uma avaliação médica para despiste de peritonite.

Como se previne?

Virtualmente impossível porque estamos todos sujeitos a acidentes e doenças!

Em termos de incidência em Portugal, há dados?

A base de dados ainda está em construção no nosso país, mas em termos do Registo Europeu de Tratamento de casos com necessidade de manter um abdómen aberto temporariamente para tentar controlar uma peritonite, chega a ser de 7% destes doentes graves tratados.

Como se trata?

O tratamento é multidisciplinar sendo fulcral o envolvimento inicial para controlo do foco inflamatório e contaminação pela Cirurgia Geral (Cirurgia de Emergência e Trauma nos países aonde existe...) com suporte e funcionamento de órgãos sempre orientado fundamentalmente pela Medicina Intensiva, envolvendo Nutrição, Enfermagem e Fisiatria na fase inicial destes eventos.

Quais os riscos de não tratar?

Morte ou incapacidades severas permanentes.

A sociedade e a comunidade médica estão suficientemente sensibilizados para a catástrofe abdominal?

A comunidade em geral, naturalmente, tem conhecimento limitado sobre toda a informação relacionada com estas situações. Na realidade a pressão das instituições médicas é para tratar o maior número de doentes de forma programada, sendo mais cómodo efetuar sub-especializações nas áreas de cirurgia eletiva para cumprir este desígnio.

Sente que há atenção em relação à catástrofe abdominal por parte de outros colegas médicos, nomeadamente internistas e médicos que lidam com episódios de emergência médica?

Esta situação cada vez mais é uma preocupação entre vários colegas e daí a criação desta Masterclass (ver caixa), mas também é algo que poderá ser melhorado com a criação da sub-especialidade de Medicina de Emergência tal como a sub-especialidade em Cirurgia de Emergência e Trauma.

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