Palavras, imagens e pistas baseadas em movimentos. Eis os três tipos de recursos de que se pode servir para memorizar uma coreografia. A revelação foi feita em 2010 pela investigadora Ruth Day, então diretora do Memory for Movement Lab, uma organização do Departamento de Psicologia e Neurociência da Universidade de Duke, nos EUA, após observar centenas de aulas, entrevistar bailarinos e conduzir experiências em laboratório.

O Dia Internacional da Dança é comemorado anualmente a 29 de abril mas todas as alturas são boas para começar a dançar, nem que seja em casa. Porque, sobre os benefícios para a saúde, ninguém tem dúvidas. A ciência demonstra o seu papel na promoção do desenvolvimento infantil, na preservação de capacidades físicas e cognitivas na velhice, como catalisador de atividade física e social ao longo da vida. Do que está à espera?

Para além dos efeitos positivos comprovados que tem ao nível da saúde mental, a dança também tem benefícios com repercussões no organismo, nomeadamente musculares, articulares, cardíacos, pulmonares e circulatórios. Frequentar aulas de dança ou dançar durante uma hora, entre três a cinco vezes por semana, é tão saudável como praticar desporto ao ar livre ou no ginásio. No entanto, as danças não são todas iguais, como pode ver de seguida.

Danças latinas

Modalidades latino-americanas como o samba, rumba, cha-cha-cha, paso doble e jive integram o leque das danças de salão, mas as suas versões mais populares, fiéis à tradição de rua, dão cartas nas escolas de dança. Estilos como o merengue, rumba negra e bachata são liderados pela rainha destas danças, a salsa.

"Os trabalhos de figuras com os braços são característicos, tal como os jogos de pés e o trabalho da cintura pélvica, do tronco e da cabeça, que são adornos de interpretação musical", explica Bibi Fernandes, uma das docentes da Escola de Danças Sociais e Artes de Espectáculo (EDSAE).

O contacto social informal é o grande trunfo destas modalidades, que continuam a ser muito procuradas um pouco por todo o mundo. O sentido de ritmo, a coordenação motora, a tonificação muscular, a extroversão e o convívio que proporciona são, na opinião dos que as praticam e/ou ensinam, os seus pontos fortes.

Folk

Em português diríamos folclore, mas o folk abrange danças tradicionais um pouco de todo o mundo. Polka, masurca, scottish, chapelloise e valsa são algumas das mais populares. "A palavra-chave é diversão", considera Alexandre Matias, professor de dança e criador da associação Tradballs, uma cooperativa cultural criada em 2005.

"Há danças binárias, ternárias, quaternárias, em grupo, a par e a solo e há danças animadas por um mandador ou mestre de dança. Muitas implicam troca de par, promovendo o contacto entre as pessoas", explicou, há uns anos, em declarações à edição impressa da revista feminina Saber Viver. A maior parte dos bailes envolvem música ao vivo.

Por todos estes motivos, "as danças tradicionais são um modelo alternativo de convívio, mesmo como opção para sair à noite", refere. "Estamos a redescobrir e reiventar a tradição antiga", congratula-se. Os pontos fortes desta dança são a extroversão, o convívio, a diversão, o contacto social, a integração e o espírito de grupo.

Sapateado

É outra das danças que dão espetáculo. "Sapatear é dançar com os pés", afirma Dante Martinho, professor de sapateado. "Os movimentos são impulsionados para se chegar ao som, cada passo tem um ritmo como objetivo", esclarece. Flamenco, irlandês e americano são os principais estilos, com origens e características distintas.

"O irlandês exige muita postura e é feito com música tradicional irlandesa", explica o especialista. "No americano, o corpo fica mais à vontade, uso vários tipos de música, como jazz, brasileira, funk, hip hop, e também há números sem música", esclarece ainda o profissional da dança.

Indicado para crianças a partir dos cinco a oito anos, pode ser iniciado em qualquer idade ao longo da vida. Os seus pontos fortes são a coordenação motora, o sentido de ritmo e musicalidade, a descontração e extroversão que proporciona, o fortalecimento muscular de pernas, tornozelos e pés e a disciplina e trabalho de grupo que incute.

Danças orientais

Popularizada no ocidente como dança do ventre, centra-se nos movimentos da zona pélvica, mas envolve braços, pernas, tronco e o corpo de forma global. Originária da região do Médio Oriente, "pensa-se que surgiu no ano 5000 antes de Cristo, era usada em ritos de tributo aos deuses pela fertilidade dos campos e das mulheres", explica a bailarina e professora Cris Aysel, uma das criadoras do Estúdio Mantab.

A riqueza cultural de que é fruto justifica a existência de diferentes estilos, do clássico ao folclore, passando pelo uso de acessórios como o bastão e pela ênfase de zonas específicas do corpo, como a cabeça e cabelos. Véu e cintos de moedas são acessórios característicos. Os pontos fortes deste tipo de dança são a consciência dos músculos da zona pélvica, pernas e ancas, a feminilidade e a autoaceitação e autoestima que proporciona.

Dança contemporânea

Tem origem nos anos da década de 1970, já em pleno século XX. Pina Bausch, dançarina e coreógrafa alemã, falecida em junho de 2009, com 68 anos, é considerada a grande precursora deste estilo, associado ao movimento expressionista. "Vai beber a áreas como as artes plásticas, a arquitetura e, principalmente, o teatro", explica Carla Ribeiro, ex-bailarina profissional e professora de dança.

Distanciando-se da tradição do balé clássico, "é uma dança mais voltada para o indivíduo e para a exploração do próprio corpo. Não é tão exigente a nível técnico, mas exige mais improvisação, capacidade de libertação e entrega", considera. Melhora a postura, a consciência do centro do corpo, a força, a elasticidade, o autoconhecimento, a exploração do corpo e das emoções, o improviso e o trabalho de grupo.

Hip-hop e ragga

Dinâmicos e energéticos, são dois estilos urbanos complementares muito em voga em Portugal. Enquanto o hip-hop "surgiu nos anos de 1970 em Nova Iorque, onde as comunidades jamaicanas, latinas e afroamericanas se reuniam", o ragga "tem raízes afro-americanas e inspira-se numa espécie de reggae eletrónico, misturado com a batida do hip-hop", explicou à edição impressa da Saber Viver Osvaldo Magalhães, professor de dança.

"A primeira aula pode ser assustadora, mas é normal não se conseguir acompanhar os movimentos", avisou na altura. "É preciso dar tempo ao corpo, sentir a música, relaxar e deixar-se contagiar", recomenda o docente. Os pontos fortes destas danças são o aumento da coordenação motora e da capacidade de concentração, bem como da consciência e do controlo do corpo, para além da intencionalidade dos movimentos.

Danças africanas

Funaná, kuduro, semba e kizomba, as mais populares, "integram-se na cultura de música tradicional e social dos países africanos de língua oficial portuguesa, dançada em baile", explica Ricardo Sousa, professor de dança. Originário de Cabo Verde, o funaná é dançado a par, tal como o semba ou o kizomba de Angola, enquanto o também angolano kuduro "é individual, mais libertador e de improviso", explica o especialista.

Ricardo Sousa destaca a ascensão internacional do kizomba. "Não é difícil de aprender. A batida e a melodia são cativantes. Há passos básicos, mas também se improvisa. As pessoas aprendem nas aulas e praticam ao fim de semana nas discotecas", refere. Os pontos fortes destas danças são o seu sentido de ritmo, a componente social, o trabalho de grupo a que obriga, a integração e o sentimento de extroversão que proporciona.

Danças brasileiras

Samba, axé e forró compõem o arco-íris de ritmos brasileiros ensinados em muitas escolas de dança em Portugal. Une-os a animação, garante Éli Fagundes, professora de dança. "Ninguém fica parado ao ouvir as músicas", refere mesmo. Enquanto no samba, natural do Rio de Janeiro, o trabalho é feito sobretudo com os pés e a cintura, o axé, baiano, é um estilo coreografado em que são executados os movimentos indicados na própria música.

Já o forró, "uma espécie de salsa meio lambada", como Éli Fagundes o descreveu à Saber Viver, é dançado a par. Na maioria das aulas, misturam-se os três estilos e trabalham-se variações, como o samba carnavalesco, o maroto, a pontinha do pé ou o miudinho. Os pontos fortes deste tipo de danças são, sobretudo, o facto de queimarem muitas calorias e a desinibição, a boa disposição, a extroversão e o contato social que proporcionam.

Danças de salão

Foxtrot, valsa inglesa, valsa vienense, tango e quick step são algumas das mais populares. Com regras rigorosamente definidas e figuras altamente estilizadas, as cinco modalidades clássicas das danças de salão são os maiores símbolos do valor do virtuosismo em palco. Mas Ricardo Amoêdo, criador da Companhia 25, recusa a ideia de rigidez.

"São danças educadas, mas têm fluidez de movimento, musicalidade e ritmo, sobretudo se não forem executadas num contexto de competição", refere o especialista. O papel do cavalheirismo, até pela importância que estas modalidades acabaram por ter noutras épocas, acaba por ser realçado.

"O facto de o senhor comandar a senhora e de haver regras de convite para a dança e agradecimento no final, torna-as elegantes e dá prazer a quem dança e a quem assiste", referiu ainda à revista Saber Viver. Os pontos fortes deste tipo de danças são a elegância, a postura, a sedução, a coordenação motora e a tonificação muscular.

Jazz

É outra das danças espetáculo. "Foram formadores de balé clássico que criaram a dança jazz, porque tinham possibilidade de fazer coisas que o clássico não permitia. É mais despojada e à vontade", descreve Eduardo Holanda, professor de dança. Nesta modalidade, trabalham-se os movimentos en dedans, para dentro, em detrimento dos en dehoer, os chamados para fora, característicos do balé.

Predominam aqui, por exemplo, "posições com o pé em linha reta ou mais para dentro, em vez da ponta do pé muito para fora", esclarece Eduardo Holanda. Há aulas de iniciados para todas as idades e até há escolas que as disponibilizam online. Os pontos fortes deste tipo de dança são a flexibilidade, o equilíbrio e o fortalecimento da musculatura do tronco e das costas que proporcionam.

Texto: Rita Miguel com Alexandre Matias (professor de dança folk), Bibi Fernandes (professora de dança), Carla Ribeiro (professora de dança contemporânea), Cris Aysel (professora de dança oriental), Dante Martinho (professor de sapateado), Eduardo Holanda (professor de jazz), Éli Fernandes (professora de dança brasileira), Osvaldo Marques (professor de hip-hop e ragga), Ricardo Amoêdo (professor de danças de salão) e Ricardo Sousa (professor de dança)

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