Quando o email caiu na caixa de correio eletrónico com o assunto, “YogurtNest é a primeira iogurteira de cortiça do mundo”, estava dado o mote para um contacto que acabou em amena conversa à mesa de um estabelecimento lisboeta. Poucos minutos antes de nos sentarmos, travo conhecimento com Miguel Leal e Ana Jervis, ele Biólogo, ela formada em Ciências Agrárias e Biológicas.

Miguel e Ana atravessam a pululante avenida lisboeta carregados com peças-chave de um negócio que, a partir de sacolas de bom gosto, produz iogurtes saudáveis, amigos do ambiente e saborosos. Mais, podemos produzi-los em número infinito.

Quando a cortiça se junta ao algodão temos uma iogurteira 100% nacional
Miguel Leal, o pai desta YogurtNest. O empreendedor com dupla nacionalidade, portuguesa e canadiana, quer estender o conceito a outros países da Europa. O produto já recebeu encomendas de países terceiros, como a Alemanha e a Áustria.

Poderíamos crer que os dois empreendedores chegados do Norte, de Paredes, mentores da PrimaLynx – Sustainable Solutions, a empresa que criaram, transportam tão-somente meia dúzia de mochilas. Estas fazem-se com tecidos de aspeto cuidado e robusto e padrões atraentes, alguns florais, outros a remeterem-nos visualmente – e emocionalmente - para os areais portugueses. O que faz sentido. Estas mochilas têm nome e chamam por Ericeira, Cascais, Algezur, Moledo, Nazaré, apenas para citar alguns nomes.

O que a simpática dupla me vai mostrar na próxima hora são as suas multifuncionais iogurteiras. Apresentações feitas, sentamo-nos rodeados de sacolas. A primeira impressão foi boa, visualmente atrativas. Agora, na prática sensitiva, testo-lhes o toque. Tecido de algodão e um agradável restolhar entre os dedos. Este ninho de iogurtes, nas versões Large e Baby, têm um forro nascido num dos ecossistemas mais bem-sucedidos, criado pelo homem, o Montado.

Quando a cortiça se junta ao algodão temos uma iogurteira 100% nacional
Uma versão muito campista da iogurteira integralmente produzida com materiais portugueses.

Sim, é de cortiça granulada o material que mantém o calor necessário à produção destes iogurtes. Nada de eletricidade, nem de plásticos, estes com as consequências nefastas sobre o nosso tão castigado planeta. A fechar a sacola, uma almofadinha confortável. Finalmente um atilho que remata a boca, espantosamente grande, da mochila.

Esta, como todas as histórias, tem um porquê e Miguel Leal e Ana Jervis explicam-me a razão que nos traz a falar hoje desta YogurtNest.

“Tudo nasceu num negócio que criei em 2010 e que mantenho, com a construção de colmeias amigas do ambiente. Isto na empresa TimberBee. Utilizam matéria-prima local, recorrem a mão-de-obra da região onde vivo e ao uso de materiais amigos do ambiente. Isto construindo colmeias esteticamente agradáveis e duráveis”, adianta Miguel.

Tem a criatividade destas coisas. O empreendedor, que tornara o hobby num negócio, matutava nos princípios das colmeias que havia criado. “Certo dia sou contactado por um amigo que queria fazer iogurte em casa. Explico-lhe os princípios e tenho o clique”. Miguel Leal, consumidor ávido de iogurtes, “desde 2008 ano em que adquiri uma iogurteira terei consumido dezenas de milhar”, cria a sua própria iogurteira biológica. “Utilizava as sobras de madeira das colmeias e a serradura para manter o calor necessário para fabricar os iogurtes”.

iogurteira

A ideia funcionou, Miguel divulgava as suas iogurteiras entre os amigos. “Certo dia houve um derrame de leite, a serradura embebeu-o e pensei: ´tenho de ir por outro caminho´”. O avô da YogurtNest evoluiu, Miguel e Ana estabeleceram parcerias, uma delas com a Amorim Cork Ventures, (a cortiça, naturalmente) entidade que apoia startups. “Foi uma apresentação aqui em Lisboa, para apoio do projeto, que me deixou os ´nervos em franja`”, confidencia-nos o nosso interlocutor. Somou-se o recurso a têxteis da região de onde são provenientes os dois empreendedores.

Em finais de 2017, a YogurtNest saiu do ninho, ganhou identidade e publicidade, algo que não tinha até então, não obstante “já existirem encomendas, muitas delas fruto do `passa a palavra`, provenientes da Alemanha, França, Áustria, Suécia, Itália, Estónia, e mesmo da América do Norte”.

Um princípio de produção simples mas eficaz

O princípio para a produção destes iogurtes personalizáveis é simples e desarmante. Para mais considerando que o dispêndio em equipamento é relativamente reduzido: 35,00 euros para a versão Large e 33,00 euros para a Baby. “Em poucos meses recupera o investimento”, diz-me Ana.

É também Ana Jervis quem me explica os rudimentos da confeção destes iogurtes de leite (vaca, cabra, ovelha, leite sem lactose) e leites vegetais (amêndoa, arroz, coco, soja). “Aquece leite a 50 ºC, depois verte-o para os frascos e adiciona uma colher de café de iogurte. Mexe e guarda na YogurtNest. No caso dos leites vegetais junta um espessante, como goma de guar”.

“Não tem um termómetro para leitura da temperatura do leite?”. Resposta negativa. Miguel dá-me a receita caseira: “tem de conseguir segurar o frasco quente nas mãos por dez segundos”. Em alternativa, pode aquecer o leite entre dois a três minutos no micro ondas.

Quando a cortiça se junta ao algodão temos uma iogurteira 100% nacional
Ana Jervis, em menina já passeava pelas praias fascinada com o elemento marinho. Hoje é também um dos rostos deste YogurtNest. Procura novas receitas, novos caminhos para a iogurteira ecológica.

Tão simples quanto isto. Depois, quem trabalha é a sacola. Em seis horas de fermentação temos os iogurtes. Dentro do ninho pode colocar “até 16 frascos e produzir em extremo, 3,5 litros” assegura-nos Ana. Um quase milagre da multiplicação, fruto da proliferação das bactérias na base de todos os iogurtes. Ana e Miguel garantem-me que basta mesmo uma porção do iogurte que fica na tampa da embalagem mãe para produzir a prole. “Certa vez aceitei um desafio. Produzir um litro de iogurte a partir de uma gota de um outro iogurte. Não só o fiz, como o elaborei a partir de um quarto de gota”, assegura-me Miguel.

Quando a cortiça se junta ao algodão temos uma iogurteira 100% nacional
créditos: Nouvelle Vague

Uma sacola que também é um desafio à criatividade. Pergunto a Ana até onde podemos ir com esta YogurtNest. “Podemos experimentar diferentes sabores, fazer iogurte grego, levedar massas para pães e pizas, até mesmo usar a mochila como estufa slow cooker, para arroz, massas, sopas, estufados”. Acrescenta Miguel: “o interessante é que se usarmos a boca da sacola na horizontal, conseguimos introduzir-lhe um tacho de dimensões generosas”.

Pergunta sacramental: onde podemos encomendar e comprar uma destas YogurtNest? No site da marca há uma loja virtual com todos os modelos disponíveis de momento. Na mesma página encontramos informação detalhada sobre os métodos de produção dos iogurtes, dicas e receitas, pensadas e testadas por Ana Jervis. Em espaço físico, vai encontrar, por exemplo, as mochilas ecológicas na Maria Granel (Lisboa).

Fim de conversa, sem antes deixar a Miguel uma questão que me baila no espírito desde o primeiro minuto. Isto, antevendo a resposta. Que outra utilidade encontramos para estas YogurtNest? Sai a resposta concordante com o meu sorriso: “uma excelente almofada. Já a utilizei dessa forma várias vezes”. No final da sesta tem o seu iogurte para o pequeno-almoço pronto a consumir. E pode fazê-lo com este ainda morno.

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