“Sit down next to me/Sit down, down, down, down, down/In sympathy”. Aos acordes vocais de Tim Booth, vocalista da banda britânica James, respondem com um uníssono sopro de maré vocal os milhares de fãs reunidos frente ao Palco Mundo do Rock In Rio Lisboa. Um coro a entoar “Sit Down” que, diga-se em abono da verdade, responde com competência e perseverança a uma tarde de 29 de junho que, não fosse a certeza dada pelo calendário, poderíamos ver decalcada de um princípio de outono competente.

E vão 20 mil refeições servidas no mercado pop-up de alta cozinha do Rock in Rio Lisboa
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Ao segundo fim de semana de festa, a Cidade do Rock recebe uma visita que não tem direito a camarim, a uma voltinha na roda gigante, ou visita ao mini Parque Jurássico, versão Lourinhã, instalada no recinto de festa. A chuva tamborila sobre os cinco palcos aqui erguidos. Chuva da grossa, de pingos generosos, a pedir aconchego.

Aquele que o articulista do presente artigo encontra não encostado aos 40 metros do Palco Mundo e à música dos James (que continua boa), mas sob um belo teto onde se aninha, neste 2018, uma das grandes novidades do Rock in Rio versão lisboeta.

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Pois, esta não é uma peça sobre música. Ou melhor, é uma peça que chega embalada pela música, mas onde os acordes tocam noutra amplitude dos sentidos, mais concretamente no palato e no olfato.

Isto porque, numa cidade capital que redescobriu a sua feição cosmopolita e mundividente e a tão bem traduz nas cozinhas e gastronomias de diferentes latitudes, tendências e talentos, o Rock in Rio Lisboa inaugurou um novo conceito.

Mais de mil metros quadrados de área reproduzem sobre os relvados do Parque da Bela Vista a versão em formato reduzido do Time Out Market, instalado desde 2014 no Mercado da Ribeira, no Cais do Sodré. Um conceito que aqui, onde se posta agora o repórter, reproduz na imagem, no conceito e na oferta um pouco daquilo que encontramos uma dezena de quilómetros mais a sul, à beira Tejo.

Ao longe, a uns bons 200 metros, sobe às alturas a música da banda de Manchester. Aqui, num dos pontos mais elevados do recinto do festival de música, entre a EDP Rock Street e o Palco Music Valley, o tom é outro, orquestrado por 14 espaços de restauração, mais um bar T0 ao centro.

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Ou seja, o que aqui temos é uma abordagem, chamemos-lhe gourmet, à paparoca festivaleira. De tal ordem com argumentos para atrair que me abstraio, de caminho, da vintena de quiosques de hambúrgueres, pitas, pão com chouriço, bifanas, contorno uma réplica fantasiada de Pirata das Caraíbas, versão lusa do homónimo vestido por Johnny Deep, ultrapasso um pelotão de Stormtroopers da Guerra das Estrelas, de aspeto agressivo e à cata de foto, e é com “Getting Away With It (All Messed Up)”, arrancado à voz de Tim Booth, que me acerco  das escadas que desembocam no grande átrio do Time Out Market.

E, como todos os grandes périplos, este, gustativo, obriga a um plano. Isto porque não é todos os dias que, em pleno relvado de festival de música, acalentamos a expectativa de encontrar a cozinha de dois chefes Michelin (Alexandre Silva – restaurante Loco - e Henrique Sá Pessoa – restaurante Alma), ao que acresce um `monstro` da cozinha nacional, Vítor Sobral, a cozinha no feminino da chefe Marlene Vieira e a comida de conforto de Noélia do restaurante de Cabanas de Tavira, no Algarve, “Noélia e Jerónimo”.

Isto para dar apenas um cheirinho, em jeito de aperitivo, a uma rota de degustação com preocupações ambientais. Toda a louça usada no espaço Time Out Market Rock in Rio é feita com matérias-primas vegetais. Ou seja, com fibras de cana de açúcar, reciclável, compostável. Acresce que todos os copos usados são reutilizáveis.

Rock in Rio Lisboa
Tim Booth, vocalista dos James, no decorrer da atuação a 29 de junho no Rock in Rio Lisboa. créditos: Rock in Rio Lisboa

Não fica mal esta mensagem ambientalista, como também não cai nada mal acercar-me do posto da chefe Noélia para perceber que o termo sustentabilidade também se aplica, aqui, a produtos de proximidade e uma preocupação por encostar o garfo e a faca a cozinha regional. Desperta-me a atenção o Arroz de limão e corvina (9,00 euros) que, por sinal, já me havia ocupado uma boa hora de vida em momento anterior a cozinhar orientado pela chefe Noélia.

“Lembra-se de quando me ensinou a cozinhar este arroz? Sai-me sempre bem”, lanço em jeito de abordagem. “Confesso que não me lembro”, avança Noélia com um sorriso, acrescentando que “tem sido um sucesso a presença aqui no Rock in Rio. Não diferencio a cozinha que aqui trago daquela que apresento no Algarve”. É com uma muito bem fornecida Sandes de atum (7,50 euros) que me acerco de um dos 400 lugares à disposição dos comensais.

rock in rio

Longe, sobe frenético, desde o Palco do Mundo, o som de “For What I Need”, malha inspiradora para me lançar à conversa com um estrelado Michelin. Alexandre Silva, dono e senhor do seu Loco, gesticula com veemência. “Não faço distinção entre o público que tenho no restaurante e o que procura aqui a minha cozinha. Estou centrado no produto e na origem e é isso que aqui trago”, sublinha o chefe que alcançou em 2016 a sua primeira estrela Michelin.

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Convenhamos, o elenco que de seguida aqui se lista não parece saído de um recinto de pratos descartáveis, antes de um menu de degustação para saborear sobre louça de assinatura e toalha de linho. Risoto negro, vieiras e algas wakame (11,00 euros), Sanduíche de lombo de atum com pickles e molho de alho e ervas (11,00 euros), Sanduíche de barriga de porco confitada, molho teryaki e pickles (11,00 euros), Sopa de morangos com gelado de requeijão de Seia (3,50 euros).  “O interessante é aplicarmos produtos portugueses à cozinha, independentemente de o prato ser nacional, ou não”, observa Alexandre Silva.

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Deleito-me com a macieza da carne de barriga de porco, enquanto espreito o menu versão Rock In Rio de outra “vaca sagrada” do repertório gastronómico nacional. Aqui, na festa da música, os acordes do chefe Michelin Henrique Sá Pessoa, tocam afinados numa Bifana de leitão crocante p´king (12,00 euros), um Tataki de salmão com massa vernicelli e molho agridoce (12,00 euros). Opto por uma Mousse de chocolate negro (5,00 euros), sem arrependimentos. Isto sabendo que, numa medida amiga dos níveis elevados de colesterol, me lançarei de seguida a uma dupla de pastéis de nata da Manteigaria.

rock in rio

Apraz-me saber que enquanto me entrego aos deleites calóricos Tim Booth, navega os seus 58 anos, sobre os braços da multidão (confirmaria mais tarde no conforto do sofá doméstico), enquanto executa a letra de “Laid”… “She said I'm so obsessed/That I'm becoming a bore”.

Não provei, mas que apetece, apetece, intrometer o garfinho nos petiscos do largo menu da chefe Marlene Vieira, com sete propostas que incluem três saladas, de polvo, sapateira, bacalhau (5,00 euros/unidade), umas pataniscas de bacalhau (7,00 euros) e uma francesinha clássica (10,00 euros)

Estando a minha competência digestiva à beira da rutura, resta-me fechar as lides gustativas, embora sem omitir uma viagem de circunavegação aos restantes espaços deste Time Out Market versão short story e que incluem os restaurantes Asian Lab, Sea Me/O Prego da Peixaria, Cozinha da Felicidade, Confraria, Manteigaria Silva, Monte Mar, Croqueteria, Olhó Bacalhau. Para provar nas imagens abaixo.

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