A cirurgia plástica e estética conquista cada vez mais adeptos, quer pela sua funcionalidade, quer pelas inúmeras possibilidades de melhorar a aparência física. Apesar de ainda ser acometida por estigmas, há cada vez mais homens e mulheres e quebrarem a barreira do preconceito e da vergonha a assumirem que podem e querem melhorar o corpo com que se movem.

É comum chegarem-lhe pedidos de cirurgia estética ou plástica irrealistas?

Não diria comum, mas sim, chegam ao meu consultório alguns pacientes com pedidos irrealistas. Hoje, vive-se muito pela imagem dos outros, por ícones como Kim Kardashian ou Irina Shayk, por exemplo, no caso das mulheres. Mas nem os glúteos da Kim Kardashian nem os lábios da Irina Shayk servem a toda a gente. Todos os corpos são diferentes, têm estruturas dispares e, por isso, o modelo "X" não fica bem a qualquer pessoa. Há que analisar caso a caso e perceber se as mudanças que os pacientes sonham fazem sentido para o seu corpo, se seriam uma boa hipótese e se seriam equilibradas ou se, pelo contrário, iriam pôr em causa a imagem, a individualidade e até a saúde do paciente. Cabe a nós, médicos, explicar ao paciente que nem tudo é válido e que nem tudo faz sentido, alertando-o para os riscos da sua escolha. 

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Como se lida com esses pedidos desproporcionados? 

Estamos a falar de expectativas e de sonhos de pessoas que, muitas vezes, procuram estas cirurgias em períodos de labilidade emocional ou por pressão/influência de terceiros, por isso é preciso ter muita cautela ao dar um feedback quando achamos que o pedido não é viável. Na minha prática clínica, tento sempre demonstrar o porquê de achar que não é viável uma certa opção. Por norma, os pacientes percebem os porquês e aceitam. Em casos em que os pacientes insistem em procedimentos que possam colocar em risco a sua imagem ou saúde, recuso-me a avançar com a solução cirúrgica. Para mim, é importante que os resultados sejam realistas, naturais e proporcionais. Há toda uma “arquitetura” do corpo que deve ser respeitada.

Como se desmobiliza a intenção de um doente em fazer uma cirurgia eletiva que pode ser prejudicial? 

Gosto de mostrar aos meus pacientes como ficariam fazendo uma simulação digital, utilizando uma imagem real do paciente e acrescentando o procedimento que solicitou. Curiosamente, muitas vezes, ao ver os resultados no simulador, são os próprios pacientes a perceberem que determinado procedimento, ou determinado tamanho, no caso de aumento de mama ou de glúteos, não lhes ficaria bem. Às vezes, só isso chega para demovê-los. Outras vezes, vêm à procura de algo que não sabiam que pode ter certos efeitos negativos e, na maioria das vezes, após serem informados, compreendem. O período de consulta é o momento certo para, sem tempo limite, ter a certeza que o paciente recebe e processa toda a informação. Como clínicos, é nossa obrigação dar e explicar essa informação.

João Bastos Martins, Médico e Cirurgião Plástico
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Quais são os procedimentos estéticos mais procurados?

Cada vez mais os homens procuram a cirurgia estética. Vêm ter comigo para tratar da zona abdominal através de lipoaspiração de alta definição. Esta técnica de lipoaspiração permite-nos moldar o chamado “six pack”, retirando a gordura de sítios estratégicos, para que tanto os abdominais como os peitorais e os músculos das costas fiquem mais salientes e definidos. Também é frequente procurarem corrigir o nariz, seja através de rinoplastia (cirurgia) ou de rinomodelação (não-invasivo), esta última quando se trata apenas de uma questão estética, sem necessidade de correção funcional.

No caso das mulheres, as solicitações que surgem em maior número são, sem surpresa, o aumento de mama, a lipoaspiração e, em casos de pós-gravidez e de grande perda de peso, as abdominoplastias. O rejuvenescimento do rosto também mantém grande procura, seja numa lógica de melhorar a estética da pele, o que pode ser feito com mesoterapia, passando vitaminas para a pele, ou para dizer adeus às rugas. Hoje, muitas mulheres vêm colocar botox muito antes das rugas surgirem, o que demonstra uma grande preocupação e o que lhes permite ter resultados ainda mais extraordinários, já que a pele e o tecido de suporte não chegam a estar tão danificados.

Outro procedimento que tem ganho grande relevância nos últimos anos é o aumento de glúteo. A gluteoplastia não se refere apenas ao aumento do glúteo: é um excelente complemento à lipoaspiração, uma vez que a forma mais natural e com menos complicações a longo prazo é utilizar a gordura aspirada. Removemos a gordura de áreas onde está em excesso e infiltramos essa mesma gordura (após preparação) nas áreas que desejamos. Desta forma, vai permitir um resultado mais radical na obtenção das curvas que traduzem sensualidade.

Se os implantes forem de qualidade e adequados a cada situação, podem durar toda a vida, sem necessidade de troca

A cirurgia plástica é palco de vários mitos. Quer destacar alguns?

Existem, de facto, muitos mitos, apesar das pessoas estarem cada vez mais informadas. A redução dos pequenos lábios, por exemplo, gera muita preocupação, com muitas mulheres a acharem que poderão perder o prazer sexual. Não é verdade e pode até ocorrer o oposto. Com o procedimento, a mulher vai sentir-se mais confiante e predisposta, o que fará com que aproveite melhor a sua atividade sexual e tire daí mais prazer. Além disso, se no procedimento se incluir remodelação do clitóris, deixando-o mais exposto, também poderá ter mais prazer.

Os implantes mamários também geram algumas dúvidas: aumentam o risco de cancro? Tenho de trocá-los de 10 em 10 anos? Nada disso é verdade. Se os implantes forem de qualidade e adequados a cada situação, podem durar toda a vida, sem necessidade de troca. Nestes casos, como em toda a cirurgia plástica, é importante procurar pelas melhores soluções e não pelas mais baratas. Optando por soluções mais baratas, aí sim podem surgir alguns problemas.

Sendo o botox um dos componentes mais procurados para tratar do rosto e das suas rugas, é importante também desmistificar o mito de que se pode ficar sem expressão facial ao aplicá-lo. O botox é uma toxina (toxina botulínica) que serve para paralisar os músculos, mas que só é aplicada exatamente na zona a tratar, para atingir rugas específicas e não na cara toda, pelo que não há risco de perda total da expressão facial. É preciso, para isto, que cada rosto seja estudado ao pormenor antes de se injetar a toxina.

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É possível fazer cirurgia plástica sem cicatrizes ou isso é um mito?

É mito. No caso de procedimentos estéticos, como injeção de botox ou ácido hialurónico, não há quaisquer cicatrizes associadas, mas quando falamos de cirurgia é impossível não haver cicatrizes. Tratam-se de procedimentos invasivos, que requerem cortes na pele, ainda que possam ser muito pequenos. O que tentamos fazer é colocar as cicatrizes em zonas estratégicas, para que possam ser quase que “escondidas”. Mas claro que nem sempre é possível.

A cirurgia plástica é vista por algumas pessoas como tendo uma finalidade estética, não sendo reconhecida a sua funcionalidade. Concorda?

A cirurgia plástica tanto pode ser estética como reconstrutiva, mas, vulgarmente, as pessoas associam-na apenas à parte estética, esquecendo a outra vertente. Na cirurgia estética, como o próprio nome indica, tratam-se que questões estéticas, mas há situações em que se junta o útil ao agradável. É o caso das rinoplastias, que, frequentemente, são realizadas não apenas para melhorar a imagem do nariz, como para tratar problemas respiratórios. O mesmo se coloca em reduções mamárias: apesar de ser uma cirurgia muitas vezes classificada como estética, grande parte das vezes é realizada por questões de saúde, seja pelo peso da mama estar a gerar problemas de costas, seja por ser a causa de dificuldades de higiene e de mobilização. A redução mamária está mesmo classificada como uma das cirurgias que mais impacto tem na melhoria da qualidade de vida.

Depois, há toda a vertente da cirurgia plástica reconstrutiva. No meu caso, além de trabalhar em clínicas privadas mais direcionadas para a cirurgia estética, exerço num hospital público, onde me dedico exclusivamente à reconstrução. Grande parte do meu trabalho passa por tratar situações de pós-cancro, reconstruindo mama, pescoço e outras partes do corpo afetadas pela doença. No caso de reconstrução de partes do corpo queimadas, trata-se também de um trabalho de cirurgia plástica. São casos em que este tipo de trabalho assume grande importância, com a finalidade de recuperar função e eliminar o estigma de um acidente ou doença, para que as pessoas possam ter uma vida o mais normal possível.

De que forma é que uma rinoplastia pode melhorar a vida de um doente?

Além de poder melhorar a autoestima, trazendo mais confiança, já que trata da parte estética, pode também ser relevante para apagar a memória de traumas, por exemplo em casos de maus-tratos. Na parte funcional, traz também grandes benefícios: o desvio do septo nasal leva a dificuldades respiratórias, obstrução nasal, inflamação dos seis paranasais, hemorragias nasais e até dor de cabeça, além do tão incómodo ressonar. Com a rinoplastia (neste caso, rinosseptoplastia), conseguimos tratar também desse desvio e afastar todos estes problemas da vida do paciente.

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Que outros procedimentos da cirurgia plástica podem aumentar a funcionalidade de um utente?

A hipertrofia mamária, que é quando a mama é demasiado grande, é um desses casos. É altamente incapacitante, levando a dores de costas, má postura, dificuldades de mobilidade e higiene, podendo levar a infeções recorrentes na mama. Aqui, a diminuição do tamanho da mama traz grandes benefícios sentidos no dia-a-dia, eliminando todas essas limitações.

A cirurgia da mão, seja para reparar lesões nervosas em acidentados ou para tratar de queimados, é um outro exemplo em que a cirurgia plástica devolve a funcionalidade do membro ao paciente.

Em 2014, passei uma temporada na Jordânia, num campo de refugiados sírios, a operar vítimas da guerra, enquanto voluntário. Eram pessoas que tinham sido apanhadas por explosões e que, do nada, viram partes do corpo serem destruídas e que não teriam forma de as recuperar sem a ajuda de médicos de todo o mundo que se voluntariaram para fazer esse trabalho. É também nestes casos que a cirurgia plástica faz a diferença.

A cirurgia estética ainda é vítima de algum preconceito?

A cirurgia plástica não pode ser banalizada, nem pode ser encarada como uma moda. Por muitas tendências e ideias de beleza que nos tentem "vender", temos sempre que ter em conta a saúde e a individualidade de cada um, fazendo escolhas que sejam válidas para agora e que continuem a ser válidas daqui a 10 anos. Manter proporções equilibradas, saber quando parar e procurar sempre os melhores produtos são condições fundamentais para obter bons resultados e resultados que façam sentido durante um longo período de tempo. É também essencial ter plena confiança no médico, para ter a certeza que lhe irão recomendar a melhor solução. Por outro lado, e num lado completamente oposto, há quem ainda veja a cirurgia estética com algum estigma e não faz sentido que assim seja.

Fazer este tipo de cirurgias não tem de ser motivo de vergonha ou incómodo, desde que sejam escolhas conscientes e que tragam benefícios para os pacientes, sejam físicos ou emocionais. Não deve ser criticado nem quem opta por fazer, nem quem não gosta. Ambas as opções são legítimas e devem ser respeitadas.

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