Além da função vital que exercem na nossa mobilidade, os pés assumem um papel importantíssimo na manutenção do nosso equilíbrio corporal, sendo essenciais na manutenção da postura correta no dia a dia. Afinal, são a base do nosso corpo. Por essa razão, são também uma das partes mais propensas a sofrer desgastes e tensões, apesar de muitas vezes menosprezados no que se refere aos cuidados diários.

Um estudo divulgado pelo jornal The New York Times, nos EUA, alerta que cerca de 75 por cento das pessoas sofrem de dores nos pés em algum momento da sua vida. Estar atenta ao tipo de calçado que usa, adequando-o ao seu tipo de pé e estilo de vida, manter uma boa mobilidade do pé e procurar um especialista em caso de dor intensa e prolongada, são os principais passos a seguir.

As deformidades mais comuns

Segundo Joana Azevedo, podologista, «as mulheres têm quatro vezes mais problemas nos pés do que os homens, devido ao calçado que usam». A presença de dor intensa e/ou prolongada, e de inflamação são sinais de alarme aos quais deverá estar sempre atenta. O joanete, a deformidade que atinge o dedo maior do pé (o hallux), é um dos problemas mais frequentemente relatados pelas mulheres nas consultas de ortopedia, segundo Delfin Tavares, ortopedista, especialista em patologia do pé e tornozelo, no Instituto CUF, em Lisboa.

Os fatores hereditários poderão estar na sua origem, mas a principal causa, segundo o especialista, é o uso de calçado inadequado. «Existe a ideia que esta deformidade é causada pelo uso de sapatos de salto alto, o que pode não corresponder à realidade. Na maioria das mulheres é provocada, principalmente, pelo uso de sapatos apertados. Os saltos altos podem apenas agravar a deformidade», alerta o ortopedista.

Conforto acima de tudo

Escolher uns sapatos confortáveis e adequados à forma do seu pé é, por isso, um dos cuidados mais importantes a ter. Não obstante, o especialista deixa um alerta. «Andar o dia todo com sapatos de salto alto pode ser fatal para a saúde da mulher, não só pelo desequilíbrio que se desenvolve na forma do pé, mas também noutras estruturas como os joelhos, as ancas e a coluna», adverte.

A observação médica atempada poderá prevenir, não só o agravamento das deformidades, como também o desenvolvimento de complicações. «As doentes procuram habitualmente ajuda médica numa fase muito avançada, pelo receio que existe em relação aos procedimentos cirúrgicos», acrescenta ainda.

«No entanto, atualmente, já existem técnicas minimamente invasivas, em que a dor é quase inexistente e a recuperação muito mais rápida», assegura Delfin Tavares. «Quando os joanetes não são dolorosos é preferível não operar, dada a taxa recidiva, que ainda é elevada (cerca de 30 por cento)», ressalva o especialista.

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Outros desequilíbrios frequentes

A metatarsalgia, uma lesão que ocorre na parte frontal do pé, mais particularmente nos metatarsos (ossos que articulam com os dedos) é outra consequência frequente, devido ao uso de calçado inadequado, especialmente de modelos apertados na zona frontal do pé e que não têm a palmilha devidamente almofadada. «Esta lesão surge habitualmente associada aos joanetes numa idade mais avançada e é muito comum nas doenças reumáticas que, por vezes, têm as suas primeiras manifestações clínicas nos pés», alerta.

Delfin Tavares acrescenta ainda que «uma dor no pé deve ser sempre vigiada, porque pode ser um sinal de uma outra doença, como acontece com a artrite reumatoide». O tratamento das metatarsalgias inclui o uso diário de palmilhas durante um período de tempo que pode variar entre três a seis meses e, em alguns casos, poderá ser necessário realizar algumas sessões de fisioterapia. A cirurgia só é recomendada quando não há melhorias com o tratamento convencional.

Os riscos do exercício abrupto

A forma como iniciamos uma atividade física também poderá afetar a saúde dos nossos pés. As fascites ou fasceítes plantares e as fraturas por stresse são lesões comuns nas mulheres que iniciam uma nova rotina de exercício físico de forma repentina. «São situações muito frequentes nas consultas de ortopedia, no período da primavera, porque há muitas mulheres que começam a fazer exercício físico repentinamente para emagrecer antes do verão», constata Delfin Tavares.

A corrida, principalmente nas passadeiras dos ginásios, são o exercício mais arriscado, segundo o ortopedista, «pelo impacto contínuo que atinge a zona plantar do pé», esclarece. Escolher uns ténis adaptados à atividade física é fundamental. Segundo o especialista, estes deverão ter um bom amortecimento posterior.

As fascites podem ser tratadas com a realização de alongamentos regulares e o uso de palmilhas especiais durante cerca de um mês. O tratamento farmacológico com anti-inflamatório ajuda a aliviar a dor. Já as fraturas por stresse obrigam à imobilização do pé afetado durante cerca de três semanas.

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Como evitar infeções

Além das deformidades e lesões, os pés também podem ser afetados por outros problemas, como as infeções fúngicas e os calos ou as calosidades. De resolução mais simples e rápida, estas disfunções não devem ser, contudo, menosprezadas. As infeções fúngicas dividem-se entre as onicomicoses, que atingem as unhas, e as dermatomicoses, que atingem a pele dos pés.

O chamado pé de atleta, como é conhecido popularmente, designa um dos tipos de dermatomicoses mais comuns. «É uma infeção causada por um fungo que se desenvolve entre os dedos do pé. O seu aparecimento é frequente, uma vez que, muitas vezes, o calçado cria o ambiente ideal, para a propagação de fungos (quente, escuro e húmido)», explica Joana Azevedo.

«O calor e a humidade presentes em piscinas, chuveiros e balneários também são fatores desencadeantes. Por essa razão, esta é uma infeção tão frequente nos atletas», explica ainda a podologista. «As onicomicoses são tratadas com a aplicação de anti-fúngicos tópicos, em forma de spray, creme ou gotas, e com tratamentos de limpeza periódicos numa consulta de podologia. No caso das dermatomicoses, convém aliar o tratamento oral e seguir alguns cuidados de higiene essenciais”, aconselha Joana Azevedo.

«Secar os pés muito bem com uma toalha depois do duche, especialmente entre os dedos dos pés, trocar de meias todos os dias e alternar o calçado diariamente, para que este seque e areje», são regras a não descurar, segundo a podologista. Os calos e as calosidades devem ser tratados numa consulta de podologia e não no salão de beleza. «Existem técnicas e instrumentos especializados para remover as calosidades dos pés que se podem obter numa consulta de podologia», refere a especialista.

Texto: Sofia Santos Cardoso