Podemos vê-la como um vício saudável, como uma necessidade socialmente imposta ou como uma forma de afirmação e reinvenção. Mas uma coisa é certa. Poucas de nós ficam indiferentes ao poder da maquilhagem. No filme «Diário da Princesa», a já bonita Mia, interpretada por Anne Hathaway, só é apresentada ao mundo como um membro da família real e não como a miúda tímida que vivia com a mãe num apartamento em São Francisco, depois de se submeter a uma transformação que envolveu:

a) desfrisar o cabelo
b) depilar as sobrancelhas
c) trocar os óculos por lentes de contacto
d) aplicar maquilhagem

As primeiras palavras da sua avó, a rainha, quando a viu foram «Melhor, muito melhor». Ficou mais bonita? Não consigo dizer que sim. Afinal de contas, ela já era lindíssima e, aqui entre nós, todos aqueles preparos, divertidos de ver, não nego, envelheceram-na uns bons 10 anos. Independentemente do contexto de conto de fadas moderno, uma coisa aconteceu. Mia tornou-se naquilo que esperamos de uma princesa.

Curiosamente, ou não, é também aquilo que nos habituámos a esperar de uma advogada, de uma assistente de bordo, de uma vendedora ou de uma apresentadora de televisão. Em suma, aquilo que nos habituámos a esperar de qualquer mulher social e profissionalmente ativa. Ainda que contrariada, para corresponder às expetativas, Mia, arranjou-se. Como muitas de nós fazemos. A verdade? Assim que se habituou, ficou feliz com o resultado.

Poder emancipador

A pressão social para que as mulheres se preocupem com o rosto com que saem de casa todas as manhãs é inegável. Aliás, basta acompanhar a imprensa para rapidamente se constatar que não usar maquilhagem é notícia. Pobres celebridades, não podem ir à mercearia sem sofrer um rigoroso escrutínio. «Afinal não é tão bonita como na televisão», dirão as manchetes mais delicadas, enquanto outras farão alusão a uma provável doença, abuso de drogas ou depressão.

E até que o esquecimento se imponha, as imagens do deslize serão partilhadas vezes sem conta nas redes sociais. Em resposta a isto, muitas caras famosas, como Rihanna, Lady Gaga, Beyoncé e até Snooki (agradável surpresa), do reality show «Jersey Shore», publicaram nas suas contas de Twitter autorretratos de rosto completamente lavado, como quem diz «É assim que somos e então?». E não estão sozinhas.

Em 2009, num momento marcante, a edição francesa da revista Elle dedicou a edição de abril à beleza natural de alguns rostos femininos bem conhecidos. Eva Herzigova, Monica Bellucci, Sophie Marceau e Charlotte Rampling, entre outras, todas au naturel sem maquilhagem nem retoques digitais, num gesto aberto e sincero para mostrar (e bem) que é possível ser-se bonita sem todos os artifícios a que estamos presas e com alguns defeitos de fabrico que dificilmente veríamos na capa de uma revista.

A maquilhagem como forma de emancipação

Algumas vozes, como a da célebre maquilhadora americana Bobbi Brown, afirmam que a maquilhagem emancipa as mulheres. Outras argumentam que a maquilhagem é uma barreira para quem busca a igualdade de género, que abranda esse caminho e o que tem de necessário. Será que a maquilhagem diminui a autoestima das mulheres ou será que a eleva? A pergunta obriga a uma reflexão.

Na prática, para qualquer mulher fiel à maquilhagem, ou indiferente a esta, o lado mais real dessa autoestima pode ir de um mimo que já merecíamos (diremos nós) a uma transformação estética profunda (necessária, alegou Bobbi Brown!). Os seus caminhos e razões certamente nascem do que acontece à nossa volta mas, no essencial, são de uma subjetividade nem sempre fácil de decifrar.

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As mulheres bonitas sentem-se feias sem maquilhagem?

Gosto de pensar que são motivadas, em dose idêntica, pelo que acontece dentro de nós e por uma qualquer vontade indómita de fazer o que nos dá na gana. O que não significa que o resultado nos dê sempre o que desejamos. A experiência de Nana Benjamim, uma das mais experientes maquilhadoras nacionais, ensinou-lhe que mesmo as mulheres mais bonitas se sentem feias sem maquilhagem, tal como no vídeo viral da Dove «Real Beauty Sketches», que marcou a agenda nas redes sociais.

As mulheres veem muitos mais defeitos em si do que têm na realidade. Adivinhemos as razões. Condicionamento social? Uma autoperceção influenciada por um meio onde a beleza é fator eliminatório? Um vício saudável? Doentio? Tendo a votar na tal subjetividade nem sempre fácil de decifrar. A história da maquilhagem, e o modo como a encontramos presente ao longo dos últimos milénios, prova que esta nos permite multiplicar as representações que temos de nós mesmas.

«As mulheres veem muitos mais defeitos em si do que têm na realidade», escreveu uma vez Maria João Marques, autora do blogue The Beauty Routine. Do proverbial arranjar-se à autêntica destruição criativa. Com tudo o que isso possa ter de decisivo numa trajetória pessoal, social ou profissional. Como sempre, o cinema conta bem a história e pinta-a a rigor. E não faltam exemplos!

A lista de referências dessa transformação, mais ou menos contemporâneas, é extensa e abrange filmes como «Pretty Woman – Um sonho de mulher», «My Fair Lady», «Grease», «O Diabo Veste Prada» ou «Encontro em Manhattan», entre tantos outros. Mas a história obriga-nos a recuar muito mais no tempo. A arte, o ofício ou o costume da maquilhagem não foram inventados ontem.

O que damos de nós e o que recebemos em troca

Pense-se em Nefertiti ou Cleópatra, nas geishas japonesas ou em Maria Antonieta e respetiva corte real. O que as liga a quem hoje se maquilha? Senão o resultado, pelo menos a intenção. Que ninguém fique indiferente à sua imagem no espelho. Um estudo de Nancy Etcoff, psicóloga clínica e professora da Universidade de Harvard, comprovou aquilo que mais temíamos. Usar maquilhagem tem, de facto, um efeito na forma como as mulheres são percecionadas profissionalmente.

Uma mulher que use maquilhagem (na dose certa, alega o estudo) passa por mais profissional e competente do que quem anda de rosto lavado. Por outro lado, demasiada maquilhagem faz com que, aos olhos de quem nos vê, não sejamos tão confiáveis. Daniel Hamermesh, economista e autor do livro «Beauty Pays», arruma a questão de forma prática, indo ao encontro do que também eu sinto.

Sim, preferíamos viver num mundo em que a aparência não fosse tão importante e não conferisse um tratamento diferenciado aos mais atraentes, mas há que ser realista. «Se há uma recompensa social à mão, a um batom de distância, porque não nos aproveitarmos dela?», questiona Nana Benjamim, maquilhadora. Se há uma recompensa social à mão, a um batom de distância, porque não nos aproveitarmos dela?

Também ela, adepta de produtos de cosmética desde há muito, concorda. A partir do momento em que as mulheres percebem que basta usar (de forma correta) dois ou três produtos (adequados) para se sentirem, nas suas palavras, «divas de revistas», ganham uma nova confiança em si mesmas, nas suas capacidades e atributos. «Afinal sou mesmo bonita», é comum ouvir, mesmo quando a maquilhagem que fez é praticamente invisível.

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O significado de tudo isto

Quanto a mim, que usar maquilhagem deve ser sempre uma escolha, não uma obrigação, quer seja imposta por nós próprias quer pelos outros, seja o marido, o patrão ou a sociedade). Diane Von Furstenberg, por exemplo (e um óptimo exemplo), diz-nos que a maquilhagem deve ser algo divertido, mas o que verdadeiramente nos torna atraentes é sermos nós próprias, naturais e esquecermo-nos de que a estamos a usar. Sentirmo-nos bonitas deverá sempre ser um prazer, e nunca (mais) um motivo de ansiedade.

Faça isto em casa

O preceito da maquilhagem perfeita para o dia a dia é simples. Escolha aquela que a fizer sentir-se bem e bonita. Idealmente, deverá ser rápida, não demasiado carregada, brilhante ou marcada, se a ideia for realçar a sua beleza natural. Estes são os passos a que deve recorrer para valorizar (ainda mais) a sua imagem:

1. De rosto lavado e, sobretudo, hidratado, aplique corretor nas zonas que mais a preocupam, tais como as olheiras, as abas do nariz e o queixo. Não precisa de utilizar um pincel (apesar deste conseguir um acabamento mais perfeito), pode fazê-lo mesmo com os dedos, através de toques ligeiros e com pouca pressão.

2. De seguida, e só se ainda sentir que precisa, aplique a sua base, BB Cream ou pó compacto (este último para quem abomina brilhos). Espalhe bem mas de forma delicada, sem esquecer a zona do maxilar, patilhas e linha do cabelo. Evite o efeito máscara escolhendo sempre uma base do tom exato da sua pele.

3. Quanto aos olhos muito pode ser dito, mas não há nada mais prático para uma maquilhagem matinal do que uma boa dose de máscara de pestanas e... já está!

4. Por fim, a cor! Um pouco de blush em creme dar-lhe-á um corado natural e praticamente imperceptível (o chamado «Uau, que gira que está hoje!»), enquanto que um batom vivo, gloss ou mate, a gosto, podem ser o acessório perfeito para a sua toilette.

5. Os verdadeiros truques são, segundo Nana Benjamim, evitar as sombras nacaradas, que exigem perícia, e usar sempre corretor no tom idêntico ao da pele. Fuja de tons mais claros ou esbranquiçados. A aplicação da cor deve ficar para depois. Usar apenas blush ou bronzer, sem corrigir primeiro a pele, pouco fazem para que se sinta bonita e luminosa.

Texto: Maria João Marques (autora do blogue The Beauty Routine) com Nana Benjamim (maquilhadora)

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