Esta podia ser uma história de amor com um final feliz. Até porque amor nunca faltou aos protagonistas. Uma história para conhecer e uma verdadeira lição de vida que não deixa ninguém indiferente.

Um final prematuro imposto por uma doença que todos tememos e que confirma que, afinal, não acontece só aos outros.

Ser jovem e ter pouco mais de 20 anos não nos torna imunes ao cancro. Afinal há que crescer rápido e sem ter tempo para nos prepararmos. Afinal há quem veja a vida fugir-lhe pelas mãos. Ana e Rafael. Jovens. Apaixonados. Namorados. Cúmplices. Dedicados. Discutiam pouco, viviam muito e intensamente cada momento. Fosse uma viagem de carro ao som das suas músicas favoritas ou uma ida às compras onde Rafael Duarte, pacientemente, ajudava Ana Maltez a comprar uma peça de vestuário ou um adereço.


Coisas banais e tão simples mas que, para este casal, significavam tanto. Rafael é o campeão de Ana. E Ana a namorada fiel, dedicada e que sempre o acompanhou durante toda a doença. Uma super mulher, dizem os que têm a sorte de partilhar a sua amizade e uma fortaleza que, apesar de ter pouco mais que um metro e meio, mostra a todos que as mulheres não se medem mesmo aos palmos e que a sua grandeza é, de facto, enorme.

A notícia mais temida


Ana Maltez e Rafael Duarte namoraram durante quase sete anos. Podia ter sido mais, não fosse um cancro no cérebro ter travado o percurso de felicidade do casal. A partir do momento em que o neurocirurgião que o acompanhava disse a Ana Maltez que não restavam mais de dois anos de vida ao namorado, na melhor das hipóteses, os dias da jornalista, que editou no início de 2012 «Para ti, Campeão» (Chiado Editora), começaram a tornar-se mais difíceis. «Começamos a ter noção de que o pior vai mesmo acontecer, mais cedo ou mais tarde», desabafa.


Até aí, o casal vivia confiante, com a ideia de que, juntos, iriam conseguir vencer a doença. «Acreditávamos que o nosso amor era tão forte que iria superar todas as adversidades», refere. Os primeiros meses foram, contudo, «meses de grande desespero», recorda. As conversas com especialistas que tinha e as pesquisas sobre as perspetivas de tratamento da doença que fazia não se materializam em nenhuma boia de salvação a que se pudessem agarrar.


Ainda assim, nunca baixou os braços, procurando manter o namorado positivo e otimista. Foi para que Rafael Duarte não desanimasse que sempre se recusou a revelar-lhe o (pouco) tempo de vida que lhe restava. «Pensei muitas vezes em como reagiria se soubesse quanto tempo tinha de vida», admite. Mas, apesar de tudo, não se arrepende. «Saber que fiz tudo o que podia fazer para o salvar tranquiliza-me», confessa.


Veja na página seguinte: Como foi viver a doença a dois

Viver a doença a dois


O cancro de Rafael Duarte foi detetado em 2002, quando tinha apenas 18 anos.

Os cinco anos que se seguiram não foram dos mais complicados mas, entre dezembro de 2010 e julho de 2011, o destino voltou a fintá-los.

A 14 de outubro de 2011, depois de um período em coma no serviço de medicina/neurologia do Instituto Português de Oncologia de Lisboa (IPO), Rafael Duarte morre.

Numa tentativa desesperada de superar a perda do namorado, no próprio dia do enterro, Ana Maltez começa a escrever. O que eram supostos ser desabafos e recados póstumos acabam por dar origem ao livro em que pretende relembrá-lo e homenageá-lo. «Ele faz-me falta em todos os passos que dou. O livro acaba também por ser uma forma de preencher um bocadinho esse vazio», frisa Ana Maltez.


Há uma pergunta que não é fácil de colocar mas que acaba por ser inevitável. Ana Maltez responde sem rodeios. «Recordo o Rafael da maneira mais bonita e feliz que se pode imaginar. Mas, na verdade, há o outro lado da recordação, aquilo que se quer esquecer mas que não conseguimos, porque a memória nos atraiçoa», admite. De quando em quando, a jornalista recorda o dia em que o namorado entrou em coma e os dias seguintes em que esteve internado, com todo o aparato de máquinas à sua volta, os dias do velório e o funeral.


«Às vezes acordo a meio da noite em sobressalto com estas memórias. Mas esta recordação é normal nesta fase. Talvez me acompanhe sempre, por ser tão dolorosa. Mas recordo os momentos maravilhosos que vivemos juntos e esses são muitos. Estamos sempre a falar dele cá em casa, sempre. Nunca baixamos a voz quando falamos no Rafael. Nunca evitamos falar nele porque continua presente nas nossas vidas», assegura.


«Não dá para fugir a isso. Nem quero. Se estou mais triste ou mais calada a minha mãe diz-me logo que o Rafael me está a ver. E, sem grande esforço, acabo por sorrir», partilha Ana Maltez. É com o mesmo sorriso que a sua vida volta ao normal. Sem pressas. A seu tempo. Ana está a aprender a viver sem o Rafael com quem partilhava tudo. E, com uma enorme força e uma luta constante, enfrenta os desafios que podem parecer banais aos olhos dos outros de forma ímpar.

O vazio do recomeço


Regressou ao trabalho três dias depois do funeral e agarrou-se à vida. Por mais que isso por vezes lhe custe. «Costumo dizer que ando em piloto automático. E, na verdade, é isso mesmo. Desde que acordo até ao momento em que me deito, tento distrair-me com imensas coisas. Seja com o trabalho, seja com o ginásio ou com cafés com os amigos, o importante é manter-me ocupada e não me obrigar a nada», sublinha.


«Se me apetece sair, saio. Se não me apetece sair, não saio. É tão simples quanto isto. Mas não há uma regra que esteja a cumprir. Antes houvesse», acaba por desabafar. As pequenas coisas, neste momento, funcionam como uma terapia. «Seja um abraço, um jantar em casa com as amigas que se prolonga até às três da manhã ou um passeio à beira-mar com os meus pais ao fim de semana», partilha Ana Maltez.


O livro que escreveu para o Rafael e ao qual dedica atualmente parte do seu tempo livre em ações de divulgação faz parte do seu processo de luto. «O importante agora é seguir a vida ao meu ritmo», refere. Neste momento, não há antecipações de nada. «Já há muito tempo que deixei de fazer grandes planos. É viver um dia de cada vez. Por mais banal que isso possa parecer para quem está de fora, é viver as mais pequenas coisas. É viver as coisas mais simples. É assim que tem de ser», convence-se.


Veja na página seguinte: As saudades da cumplicidade partilhada

Sempre o amor

Há quem tenha de facto esta capacidade para amar incondicionalmente sem pedir nada em troca. E é fácil apaixonarmo-nos por pessoas como Ana Maltez. Sentirmo-nos pequeninos perante a sua coragem e determinação. Porque também ela foi e é uma campeã.

Um exemplo que vale a pena conhecer. Um privilégio por tudo o que passou e por tudo o que nos pode ensinar. Infelizmente, Rafael Duarte já não está fisicamente presente neste mundo, mas a sua eterna namorada faz questão de o manter vivo perante os amigos e familiares.


E isso além de maravilhoso e único é a expressão mais genuína do amor. «À medida que o tempo passava, mais apaixonados estávamos. Aumentava a cumplicidade e já nem era preciso falar na maioria das vezes. Bastava-me olhar para ele. E que saudades tenho de olhar para ele!», desabafa. Ana Maltez vai ainda mais longe e fala também do amor vivido e partilhado pelos familiares e amigos.


«Cada um tinha o seu próprio papel e só assim o puzzle ficava completo. O mais importante é o amor dado por cada uma das partes. E é esse amor conjunto que compõe toda a história e que é muito importante na dura batalha contra o cancro», conclui. Juntos, não venceram a doença, mas conseguem demonstrar que há formas de lidar com ela e de ultrapassar as adversidades que por vezes surgem. Porque a vida só faz sentido assim.

Texto: Cláudia Pinto
Foto gentilmente cedida por Ana Maltez

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