A maioria de nós é educado num berço cultural que submete o erotismo e a sexualidade ao vínculo estável de uma relação duradora. Podemos pensar que a cultura tradicional perdeu influência. Sim perdeu!

Já não existe, uma censura social apoiada numa religiosidade feroz. As relações amorosas foram laicizadas e a castidade deixou de ser um valor dominante associado ao universo feminino. O divórcio é aceite e já não há uma obrigação do juntos para sempre.

A cultura é obviamente muito mais do que um conjunto de normas invioláveis é também um fio quase invisível, que inspira a arte e as diferentes narrativas sociais. A obrigação do juntos para sempre deu lugar a um ideal de juntos para sempre.

Os heróis românticos superam os obstáculos e no final casam, tem muitos filhos e vivem felizes para sempre. Vitória, vitória acaba-se a história! Há na verdade algo de infantil na forma como tendencialmente cai o pano, nas narrativas românticas. As narrativas cinematográficas não são exceção.

Não é fácil encontrar um filme que possa ilustrar, uma ideia alternativa ao ideal romântico do felizes para sempre. Mesmo nos filmes com final triste, a narrativa parece não fugir ao ideal do felizes para sempre. O final feliz é impedido pela tragédia, mas o ideal permanece vivo, intocável no desejo.

Se pensarmos na trilogia de Erika L. James, As Cinquentas Sombras de Grey, apesar da forma como tornou popular um imaginário erótico, é interessante refletir sobre a forma como mantem a narrativa transformativa clássica. A protagonista evolui de uma Anastasia casta e inocente, para uma Sra. Grey conhecedora e casada, num final que se enquadra no felizes para sempre.

Em 500 Dias Com Summer, estreado em 2009, com guião de Scott Neutadter e Michael Weber, uma comédia romântica, foge do estereotipo cultural, existe o ensaio de um final diferente. O narrador alerta na abertura, que Tom (o protagonista) cresceu a ouvir música pop britânica triste, convencendo-se a ele próprio que só ao encontrar a pessoa certa seria feliz. Summer (Verão) pelo contrário, não acreditava no par ideal, cresceu adorar o seu cabelo negro e forma fácil como o cortava, sem sentir nada. O filme é um retrato sobre o romance e o erotismo, e sobre duas possíveis narrativas distintas sobre o vínculo. Summer partilha com Tom, antes da primeira noite a sua perspetiva, Tom decide embarcar na viagem que irá necessariamente levá-lo ao fim do verão (summer).

A narrativa que cada um constrói sobre o vínculo amoroso e especificamente sobre a segurança associada, é uma narrativa pessoal que se cruza na relação a dois com a narrativa do outro. Será este cruzamento o que dita a história da relação? Em certa medida, sim! Há, na nossa cultura, uma tentação de coser as duas narrativas pessoais sobre o vínculo, a uma narrativa única, uma fusão onde o par romântico fica seguro, numa mesma história. É este reducionismo, que por hipótese está na base idealizada no ideal do feliz para sempre, e que na nossa opinião dá origem a muitos maus entendidos.

O erotismo e o desejo parecem habitar num espaço fora, da narrativa de segurança. No último filme de Stanley Kubrick, Eyes Wide Shut de 1999, a narrativa inaugura com a partilha de Alice ao marido sobre um sonho erótico que teve nas férias de verão, onde o protagonista não é o marido. A sonho de Alice, descose a narrativa de segurança do casal e empurra Bill para uma viagem pessoal.

Os passos de Bill revelam no concreto, espaços hedonistas, eróticos, num jogo que se encena na realidade, de uma forma palpável. A narrativa desenvolve-se num jogo de sombras, no qual Bill parece tocar no interdito, na transgressão e no sacrifício, de forma a permitir um regresso a casa. Na última cena do filme Bill e Alice, na loja de brinquedos, reencontram o erotismo, por entre a segurança das compras de Natal. “troca de palavras”.

O brilhantismo do filme de Kubrick reside em parte na estrutura da narrativa original de Arthur Schnitzler, na qual o erotismo é desdobrado numa dimensão onírica e numa dimensão concreta. A fantasia sexual é passível de ser vivida em dois planos distintos, num jogo imaginário, não palpável ou num jogo concreto onde sonho é encenado. O fim de filme, marca o encontro desse palco seguro. Um espaço no qual a narrativa de Alice e a narrativa de Bill pode ganhar uma forma concreta, num jogo erótico contido na relação de casal.

Na narrativa clássica de Cinquentas Sombras de Grey, a construção do romance parece coser num pano único o vínculo que transforma duas narrativas individuais numa narrativa comum. Em 500 dias de Summer, as narrativas individuais permanecem independentes, como duas linhas que se cruzam e descruzam. Em Eyes Wide Shut, as narrativas individuais, cruzam-se para criar um espaço, um palco, no qual o mundo onírico de cada personagem, pode ganhar forma cénica. A individualidade da narrativa pessoal permanece diferenciada ao longo do tempo e nesse sentido o vínculo e o erotismo, jogam-se diariamente.

O vínculo enquanto relação de segurança, por hipótese define as linhas do espaço cénico, isto é, os limites do palco, no qual o mundo erótico a dois é encenado. O erotismo é na nossa opinião relativamente independente do vínculo, podendo ser jogado dentro da relação. Ao contrário do que alguma teoria defende ao estabelecer uma relação direta entre a qualidade erótica da sexualidade e a qualidade relacional do vínculo, acreditamos que vinculo relacional e erotismo são dimensões relativamente independentes numa relação.

Gostamos de pensar que o erótico é conteúdo cénico, num palco subtilmente definido pelos contornos das narrativas relacionais de cada individuo. O palco pode naturalmente ser mais ou menos seguro. No qual a expressão emocional e a narrativa de desejo de cada um, é contida, sem que os limites da relação se quebrem.

Neste sentido o erotismo não é produto direto do vínculo, é produto do imaginário individual, que coloca em palco um encontro de corpos.

Texto: Pedro Vaz Santos - Psicólogo Clínico - Terapeuta Familiar e de Casa

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